Sidônio Castro

O direito à indignação

Ponto de Fuga

O sapato de Niquita Khrushchev na 902.ª sessão plenária das Nações Unidas, a rendição de Vercingetórix, fazendo descer o escudo Gaulês a César, as falanges em V de Churchill, passeando-se pelas ruas Londrinas durante o Blitz, a autoproclamação de Napoleão em louro vetusto. São vários os gestos, vasta é a distância entre as posições e identidades que expressam, e, no entanto, existe algo de tangencial na sua presença: os gestos refletem, respondem de imediato, e podemos observar neles uma posição manifestamente presente e física.

Quando Nancy Pelosi rasga a sua cópia do discurso do Estado da União nas costas do Presidente dos EUA, este gesto surge, dando continuidade simbólica aos anteriores, de uma posição não negociada, extemporânea, emocional e de expressão limítrofe que, ainda assim, é de direito.

Sugere-se um passo atrás, um recuo para a Gestalt da expressão física da indignação: poderia um acto simbólico deste tipo gerir um movimento tectónico influente de desobediência e revolta? Talvez, mas num outro enquadramento, talvez num certo passado que se dissipou, pelo excesso revisionista e não presencial como digerimos, atualmente, o mundo por imagens.

Foi visto em várias plataformas, supõe-se, e por entre os nervosos acessos de cliques dos dispositivos digitais — gestos virtuais que, em si mesmos, reduziram a indignação a uma questão de gosto —  glorificou-se uma vasta avença contabilística de polegares virtuais que, em toda a sua febre viral, na sua absoluta e obsoleta disponibilidade, e dependendo de como caiu o jantar, regurgitam em cascata para as caixas de comentário, compartimentadas por escassos, e tantas vezes incipientes caracteres.

Rasgar um discurso presidencial será, em breve, só mais uma imagem, processada, recortada, comentada, escrutinada, e inevitavelmente apagada das nossas memórias como, aliás, tudo o que percecionamos [e isso é o problema] através de uma miríade de pequenos écrãs.

E é desta forma que também o gesto deixa de marcar e passa a demarcar-se. E porque os direitos humanos não são uma questão de gosto, seja num barco-caixão irlandês, seja num navio de escravos em alto mar, num bote no mediterrâneo, tão pouco numa solitária na fronteira entre EUA e o México, há que devolver movimento à indignação, há que devolver dignidade à ação.

1 comentário em “O direito à indignação”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *