ELEIÇÕES GERAIS

Delegados eleitorais desesperam para receber dinheiro prometido por partidos

Centenas de pessoas que exerceram funções como delegados e agentes eleitorais concentraram-se hoje à porta de vários partidos, reclamando o pagamento dos seus serviços, num ambiente de tensão que só foi mais contido devido à presença policial.

Na sede do Partido Humanista de Angola (PHA), junto ao mercado dos Congolenses, algumas dezenas de jovens mostraram a sua insatisfação, queixando-se de ter passado fome “toda a noite” enquanto aguardavam nas assembleias de voto, cumprindo a sua missão de acompanhar o ato eleitoral de quarta-feira.

O coordenador do partido de Bela Malaquias, Ivo Ginguma garantiu, no entanto, que todos iriam receber o pagamento, atribuindo a demora à “desorganização” dos jovens, que deveriam estar distribuídos em grupos de 20.

Junto ao Partido de Renovação Social (PRS), na zona de São Paulo, mesmo em frente a uma enorme e insalubre poça de água, Dilma Stela repetiu os lamentos de outros companheiros.

“Não nos deram comida, não deram água, estive lá das 06:00 da manhã às 19:00, disseram que íamos receber 30.000 kwanzas (70 euros) mais 5.000 (12 euros) para a alimentação e querem-nos pagar 1.500 (3,5 euros)”, desabafou, desanimada com o ‘kilapi’ (dívida, na gíria angolana) partidário.

“Cheguei, vi esta enchente e achei que era de mais. É muito pouco e o partido diz que não tem como nos pagar”, criticou, admitindo ir para casa de mãos a abanar, ao contrário de muitos outros que insistiram e permaneceram na fila.

Moisés Sandoco, secretário municipal em Luanda, lamentou que o partido não tivesse conseguido assegurar a logística “porque teve um atraso” e já não tinha como distribuir a alimentação por estar em cima do fecho das urnas.

O responsável do PRS disse ainda que só estão a fazer o pagamento de 1.500 kwanzas, pois anteriormente era o governo, através da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), a cobrir esta despesa, o que não aconteceu nesta eleição.

“O partido já tinha feito os gastos da campanha e agora somos confrontados com isto. Credenciámos 1.773 delegados em Luanda”, justificou.

Na sede da Aliança Patriótica Nacional (APN), no centro de Luanda, onde hoje a polícia interveio para dispersar uma multidão de jovens revoltados que protestou com violência contra a falta de pagamento, arremessando pedras e vandalizando viaturas, apenas alguns polícias guardavam o portão, apesar de já não se ver gente por ali.

Cenário muito diferente foi o que se assistiu à tarde no Bairro Popular, junto à Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA), com dezenas de pessoas a reclamar das promessas por cumprir.

Com o local fortemente controlado pelas forças policiais, só alguns representantes dos delegados acederam ao interior da casa para falar com os responsáveis do partido, numa discussão acalorada que era percetível pelo tom exaltado das vozes que se ouviam pela janela.

Questionada pela Lusa sobre qual o valor que tinha sido prometido aos delegados, uma jovem do partido disse apenas: “Estamos a conversar”.

Nos diálogos com os delegados percebeu-se que, durante a formação destes agentes eleitorais, os partidos se comprometeram com uma coisa e fizeram outra sem terem definido previamente quanto é que os delegados iriam receber pelos serviços, ou seja por acompanhar e fiscalizar as assembleias de voto da abertura à afixação das atas síntese.

Tamba Flora está por ali há mais de três horas e “ainda nada”, exclamou, irritada, reclamando da falta de água, alimentos e “dinheiro para o táxi”, apesar de um dia de trabalho que a ocupou das 05:00 às 22:00.

Algumas pessoas sem possibilidade de transporte acabaram por pernoitar nas imediações dos locais de voto, uns para chegarem cedo, outros como Jardel Ndunguidi, que trabalhou numa assembleia em Talatona, por não terem táxi para regressar a casa.

“Tive de patrulhar mesmo toda a noite, nem conhecia aquele bairro”, queixou-se, confirmando que os delegados da FNLA não receberam dinheiro nem alimentação, apesar de durante a formação lhes ter sido transmitido o contrário.

Daniel António Afonso, coordenador da comissão eleitoral da FNLA, reconheceu a importância do “trabalho patriótico e cívico” dos delegados de lista, mas disse que em eleições anteriores a responsabilidade pelo pagamento foi sempre assumida pelo governo, reconhecendo que o partido não tem capacidade para pagar aos 52.000 delegados que inscreveu, entre efetivos e suplentes.

“Estamos à espera que o governo se pronuncie. Temos uma recompensa mínima que é insuficiente, mas vamos dar 15.000 kwanzas (35 euros), pensamos que não vai ficar ninguém sem receber”, garantiu o responsável à Lusa.

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