FRIDOLIM KAMOLAKAMWE*

Pai nosso que, por enquanto, estás no céu

O presente, ao qual nos agarramos com a determinação desesperada de quem teme que a fugir lhe escape dos pulmões o ar que respira, no fim das contas, cumpre como função política primordial e rito estranhamente piedoso, matar-nos em camara-lenta; ─ independentemente dos estatutos que nos ensebam o orgulho e dos distintivos que nos levam a esquecer que somos todos escravos da força de gravidade e filhos biológicos da degradação paulatina e inegociável, não importando a proporção das aguarelas de presunções que nos ajudam a esquecer que, feitas todas as contas, pedaço nenhum de terra nos pertence; nós é que, desgraçadamente, pertencemos à terra. E no fim de todas as velocidades, o pó virá recolher o que lhe é por pertença.

De modo que, passionalmente silenciados pelo passante tempo, no futuro, o melhor que seremos é a sombra de uma refratária lembrança na mente de quem ainda se importará, muito por força daquilo que, também, fruto das nossas ações, não obstante a tentação sempre presente das ingratidões, invejas e ostracismos, ficará como herança para os ainda vivos. Aliás, nos é igualmente intrínseca aquela velha fatalidade: qualquer que seja a época, todo o morto serve sempre de aproveitamento (político e religioso) aos vivos, ainda que apenas como estrume.

O padre António Vieira (1608-1697) é destas lâminas de vozes, que, salvaguardadas por um mérito raro, resistem às tumbas do pretérito, desafiam as armadilhas anamnésicas da memória, atravessam as disposições legais do tempo, para─ por uma espécie de direito-natural─ impor a lei da permanência «Aquele a quem convém mais do que é lícito sempre quer mais do que convém».

João Lourenço (JLO), o “Pai” que, não sendo embora inteiramente nosso, por enquanto está no céu, foi içado ao pódio com a sorte rafeira dos casinos. Porém, não necessariamente como um imigrante líbio, tunisino ou outro, a boiar em alto-mar numa canoa em direção à Europa; não forçosamente como um leproso caído numa poeirenta rua da Galileia, a quem um qualquer samaritano em dia de inspiração recolhesse, para, depois de limpar-lhe os ranhos da falta de autoestima e vergonha pública, aquecer-lhe com solfejos de orações e exorcismos o espírito e costurar-lhe os hematomas de fome com apimentadas descargas de sopa de ervilhas.

Até porque, há muito JLO faz parte da indústria de imperativos sociopolíticos que desde o dealbar da independência de Angola determinava e ainda dita (com quantas espadas de Dâmocles) que pássaros estarão autorizados a voar, que frangos devem ser abatidos, que torneiras conhecerão as virtudes da água, que lâmpadas verão a cor da luz elétrica, que arbusto será extirpado, que galhos de árvores serão acantonados, que rio deverá ser poluído, que  campos de cultivo subsistirão à mesquinha e malthusiana estratégia de asfixiar a pesca, a pecuária e agricultura nacionais, para, depois, em troca de onerosos dispêndios do Orçamento Geral do Estado (que poderiam ser canalizados para a educação, escolas de artes e ofícios, para a sempre doente saúde, já agora, para a desimbecilização progressiva da mente do Homo angolanus), os substituir por linchadores programas de importação altamente sobre- faturados e muito bem-sucedidos nesta maratona de, por um lado, parir bilionários aos bagos, por outro, promover o irresponsável endividamento sistemático do país, paralelamente a multiplicar pobres à escala industrial.

O atual inquilino do Palácio da Cidade Alta há muito circula pelos nervos ciáticos do conhecido Poder, este, que a partir da colina do alto da Chicala, em meio a muita prosa, estribilhos de democracia, paz, liberdade, lindos nós de gravatas e canos de arma, decreta que exércitos deverão receber mais suprimentos: se os batalhões de famêvolos não escolarizados ou as brigadas de vigilância ideológica dos que sendo embora escolarizados, devem se portar como se não o fossem─ em nome dos caprichos de sua majestade─; se terão primazia os exércitos de mendigos, ou, antes, as patrulhas dissuasórias e pró-coercivas dos que sabendo-os existir, com fartura de evidência, devem, no entanto, negar-lhes a existência.

JLO há rios de anos que faz parte da superestrutura que determina que pulmões merecem oxigénio, que livros devem ser lidos e com quantas vírgulas e complementos diretos deverão ser escritos, que falsidades ideológicas deverão ser estampadas nas vitrinas, que mentiras merecem ser comercializadas no lugar das verdades, que verdades devem “por razões-de-Estado” assumir a pele de mentira, que farsas humanitárias e patrióticas deverão abrir os noticiários da RNA, da Zimbo e TPA, que cães têm licença para ladrar simulações de factos em uivos jornalísticos, quantos deles deverão fingir que mordem e quantos deles terão carta-branca para morder, de facto. O presidente [cessante], se é que na mente do mesmo se permitirá sequer a tal desenho, sempre foi parte da manada que determina que sementes brotarão por entre os arrozais de febre e insuficiências renais, quantas flores ficarão sem raízes antes do desabrochar, que telhados o sol há de beijar, que fogos devem assumir a primazia das queimadas na pradaria e para que direção deverão seguir as chamas e a fumaça.

Lembremo-nos, não por mero charme retórico, que o atual presidente de Angola, por altura da sua cooptação, não era um mero peão no xadrez do poder. Pelo contrário, chegou a ocupar lugares estratégicos, quer no âmbito do aparelho do Estado (que desde sempre se confunde com o MPLA), quanto no seio do partido que desde 1975 se faz a galinha que choca(va) os ovos não apenas para a Isabel dos Santos─ o Poder─ o qual, na substância mais evidente da falta de brio e finalidades práticas (que não o aburguesamento maciço de uma ínfima casta), o vemos vertido de Luanda com a força dos furacões: Foi governador provincial de Benguela e do Moxico, entre 1992 e 1997; secretário do Bureau Político do MPLA para a informação; deputado à Assembleia Nacional, tendo aí ocupado a função de Presidente da bancada parlamentar do MPLA. Entre 1998 e 2003, desempenhou as funções de secretário-geral do partido, além de ter chegado a um posto bastante estratégico quanto o de Ministro da Defesa.

Portanto, JLO nada tem do rapaz preto dos estábulos a quem, repentinamente, num rasgo de boa-vontade e ressentimentos, o patrão branco à beira da morte dá a oportunidade de dormir num quarto na mansão e comer à mesa com os filhos do seu senhor. JLO enquadra extraordinariamente o perfil, raro, dos que caídos em desgraça, são recapturados para jogar o papel da carta mais valiosa do baralho. Mas, nessa altura, ele já tinha sido Conde, Rei, Valete e, até, Manilha. Assim postos os factos, fica fácil concordar que Lourenço foi sempre uma das figuras da cúpula do partido no poder em Angola, a quem muitos viam como um dos potenciais sucessores de JES. Não obstante, o que poucos poderiam sequer sonhar, é que ele um dia viesse, efetivamente, a assumir o papel preponderante do “Às de copas” havendo de entre os barões do partido gente muito mais equipada do ponto de vista técnico-científico, repertório comunicacional e outros acepipes.

E é aqui que fletimos os nossos fluxos de raciocínio lógico à luz das metamorfoses por que passou o atual titular do poder executivo, até se transformar numa triste e muito promissora versão de um ditador, que nem mesmo o próprio Charles Bua Poaty chegaria a profetizar. E é triste perceber que, tendo desperdiçado aquela soberana oportunidade de atingir a “Excelência”, no sentido que o velho Aristóteles de Estagira propunha, a assessoria de marketing que o partido no poder contratou para ressuscitar a imagem de JLO já vem tarde. O estrago já está feito. Nem mesmo o próprio presidente consegue mais acreditar no que diz aos angolanos, sobretudo, o que diz a esta juventude, que, hoje, com o advento das redes sociais, em fração de minutos tem em posse muitos dados para comparar o seu modus Vivendi com o de outros países com menos recursos que Angola; e, por isso, enferma de uma compulsiva e justíssima pressa de ter pressa de viver; ─ mas viver com dignidade─ no país pelo qual os seus avós e pais também se bateram contra o colonialismo português.

Nos idos de 2004, um pouco após a morte de Jonas Savimbi, por ocasião do V Congresso Ordinário do MPLA, JES viria a admitir a intenção de abandonar a liderança do partido e do país, por entender, nas suas próprias palavras, que ‘ com o fim da guerra, chegara à conclusão que já tinha cumprido a sua missão’. As afirmações do então presidente, aliás, repercutidas pela imprensa no geral, em particular, por dois jornais independentes já extintos, declararia taxativamente “ Existem outras figuras capazes para dirigir o MPLA”. Na sequência, agindo um pouco [muito] na precipitação, que, agora, volvidos cinco anos da sua desgovernação, se prova ser parte do carácter de sua excelência, JLO se apressou a fazer declarações à imprensa, a propósito das afirmações de JES. Sucede, todavia, que aquela declaração do ex-presidente viria a se revelar uma cartada de mestre, cujo fito não era outro que tentar identificar possíveis opositores internos. E o menino João, simplesmente, viria a morder a isca, resultando daí consequências nefastas à sua carreira e uma dolorosa travessia no deserto.

Fruto daquele “pecado original”, de repente, contam relatos da época, gente que lhe era absolutamente fiel, que o saudava com deferência e, até, o bajulava, viria a virar-lhe descaradamente as costas. De entre estes se contam familiares diretos. Do menino lindo de ontem passaria a um leproso purulento a quem ninguém, em juízo perfeito, devia a condescendência de um segundo olhar. Ora, em outros países, onde a cultura democrática, a alternância no poder e liberdade de expressão fazem algum currículo, e por força disso, o direito a opinião é salvaguardado, as afirmações de JLO sequer mereciam nota de rodapé num jornal municipal.

Porém, num contexto em que, fruto da perversão dos valores matriciais da cultura bantu e não só, a palavra dita não é forçosamente para ser cumprida, sobretudo, pasme-se, se proferida por uma autoridade que além de ungida da aura do poder, se reveste de um cetro de moralidade, as afirmações de Lourenço foram assumidas não apenas como um reles argumento; mas, essencialmente, como o argumento dos argumentos, a premissa tóxica, explosiva, quase como um declaração de guerra; logo, lesiva aos interesses mais nucleares do Sumo Pontífice José Eduardo dos Santos, e , por anexação, da guarda pretoriana que se bafejava de biliões à pala do Status quo.

Entretanto, como para frente é que anda o relógio, e nos intervalos entre os ponteiros brotam sempre surpresas, doze anos volvidos, aquele JLO retorna aos holofotes. Primeiro, como segundo homem de JES no partido (MPLA).  Na sequência, durante o congresso de agosto do ano seguinte, cinco meses depois, seria apontado como o sucessor de JES na presidência da República. E, de repente, como que num miraculoso swing de reviravolta, os mesmíssimos que em detrimento de JES tinham abandonado JLO aos vendavais do ostracismo, os mesmos que teriam ajudado Viriato da Cruz a morrer pária, estão de volta à jogatina da bajulação em torno do atual presidente.

Para nossa desgraça, o presidente que no prefácio do consulado nos fez esquecer a fraude de 2017, abrindo na pedra um lugar para sonharmos uma mulembeira de concórdia e progresso, cedeu ao assédio da tão apequenadora grandeza. Rapidamente, se esqueceu que os bajuladores são uma máquina trituradora de caráter, e somente têm por amigo eterno o vento. Alheio às lições que lhe foram impressas na carne, quando caiu em desgraça em 2004, JLO meteu pelos caminhos fáceis da autossuficiência, porque a esta se chega rápido. Sobretudo, se içado pela incendiária boa-vontade dos aduladores, exatamente aqueles que o deixaram sozinho no bacio do ostracismo, em favor de “Zedú”. Os mesmos que, de um dia para outro, já nem se lembravam sequer de desejar rápidas melhoras ao homem que, nas palavras deles, “devia ser clonado”.

Dobrada a folha da história,  não hesitaram um segundo. Afundaram aquele Zedú no mesmo bacio, para se curvar ao novo Senhor, JLO. Ninguém melhor que Lourenço devia ter aprendido a lição daquela iniciática peregrinação. Ainda assim, o presidente escolheu substituir nos pulmões as proposições que lhe granjearam popularidade, para respirar as toxinas dos “aplaudoutores”. Renegou, propositalmente ou não, o caminho da excelência; afinal, esta pede decoro na fala, audácia no ouvir, ponderação no agir. Não sendo assistido por tais dons, o presidente optou, antes, por reinstaurar a República da suspeição, do dolo e dos velhos medos. Em resultado, 2 milhões e meio de cidadãos falecidos constam dos cadernos eleitorais, com direito a números de registo e mesas para votar. Ainda assim, o melhor que o seu governo consegue dizer para desenhar qualquer coisa como um quadro de acalmia no entendimento e espírito dos cidadãos não vai além disso: ” A existência de falecidos nos registos de votos é um falso problema. ”

Já nada nem ninguém consegue driblar a imobilidade deste outono constitucionalizado, soterrados que estamos pelos excessos de incúrias que nos são impostas em descargas de obrigatoriedade. O sol desponta e tudo indica que nem mesmo ele nos reconhece legitimidade para sequer olhar para o céu. De slogan em slogan, de expectativa em expectativa, furamos o estômago com os olhos postos na próxima legislatura. Votamos apenas para prestar tributo ao ar que respiramos. Irmãos siameses da precariedade, perdemos no percurso o som dos próprios passos. Carentes de tudo, mergulhamos num conformismo que, mais do que tácito é estratégico, como um paraquedas para escapar da gravidade. João Lourenço traiu a esperança, arrebentou com as raízes que aos poucos renasciam. In curados do carma de 47 anos de (in)dependência, a vertigem reacionária das ruas prova esmagadoramente que os angolanos desistiram de crer no sistema. E a oposição que o aproveite sabiamente.

O tédio dos anos que lá se vão, sem a cordialidade de uma alteração no quadro, nos acena numa ovação de granada. A bandeira de Angola, tão ébria do sangue dos nossos e das lágrimas das nossas mães, nos assedia em contrita nostalgia. Contemplamo-la à distância, junto com o pirão que não há e a reverência que já nos escapa. O discurso dos que com a sua morte desenharam a república não nos deixa dormir. Obsidiados pelas desculpas, sempre esfarrapadas, da parte de quem devia, defendemo-nos não nos defendendo─ para que pensem que somos inofensivos bebés. Vamos a votos, cônscios de que o espírito da farsa, o verme da permanência estará de vigília, enquanto dorme quem alegremente sujou o dedo, na esperança teimosa de, pelo menos, entrar no céu com a boca posicionada na direção exata da colher de arroz, já que carteiras, giz e comprimidos paracetamol é pedir demais a um governo super poluído de bilionários que nunca declararam a origem da fortuna.

Lourenço chegou com um discurso anestésico, que se revelou bastante curativo para as superabundantes feridas de corpo e alma: « Vamos combater a bajulação e a corrupção; faremos de Benguela a Califórnia de Angola; vamos criar quinhentos mil empregos; Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido.» Cinco anos volvidos, a voz dos números abalroa a arrogância prosaica dos guardiões do templo. Concomitantemente, há mais problemas por resolver, do que mãos e crânios dispostos à empreitada. Contrariamente ao que, à exaustão, rezam as estatísticas do Governo o tronco do social está rachado. A título de ilustração, nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) ou CPLP, como queiram, Angola é o pior país para arriscar fazer negócios, Segundo dados do Banco Mundial (2019). Aliás, o país está na lista das dez nações mundiais onde é mais difícil estabelecer um investimento.

Angola encontra-se ainda entre os três piores países do mundo no tocante ao acesso a água potável, segundo declara o Conselho Mundial da Água, num relatório publicado em maio deste ano.

No Índice do Progresso Social, que avalia os países segundo a qualidade de vida da população (medida através de variáveis como o acesso a água potável, habitação, saúde e educação) Angola é colocada na quarta posição na lista dos piores do mundo, apenas à frente do Chade, Afeganistão e República Centro-Africana.

Quanto à taxa de mortalidade infantil, a de Angola continua a maior do mundo, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

No que toca ao combate à corrupção, até aqui o cavalo de troia de Lourenço revela mais um critério seletivo de vinganças contra o seu predecessor, do que propriamente um projeto de justiça e jurisprudência a ser levado a sério. A burocracia e a corrupção continuam na ordem do dia. O próprio PGR, Hélder Pita Grós é citado como sendo suspeito de crimes de corrupção, com processos em banho-maria, em Portugal. Em 2019, Pita Grós estava a ser acusado de “envolvimento em casos de corrupção e ameaças de morte, contra um empresário angolano, para proteger um coronel da UGP, que terá alegadamente contraído uma dívida do referido empresário”.1

A Presidente do Tribunal de Contas, Exalgina Gamboa é suspeita de ter gasto mais de quatro milões de dólares em mobílias a expensas do Estado angolano, um caso que continua sem explicações por parte da PGR. Permanecem na folha de serviço várias denúncias de casos de corrupção, com provas apresentadas, as quais envolvem, invariavelmente, altas figuras do regime angolano, tornando refém o povo angolano, o próprio MPLA e, por atacado, a melhor das intenções para curar meio século de embustes e sobrepujamento dos fracos.

A nebulosa de suspeições quando se abate como praga sobre instituições tão sagradas quanto as da Justiça, roubam legitimidade aos atos pelos quais os entes assistidos de tal prerrogativa agirão sobre os demais cidadãos. Afinal, pelo menos, papelisticamente, somos todos iguais perante a Lei. E esta devia ser igual perante todos nós, sem que isso representasse um favor. No entanto, enquanto procurador-geral, João Maria de Sousa não escapou a acusações de corrupção. Rui Ferreira, enquanto juiz-conselheiro do Tribunal Constitucional, idem.

Não obstante tamanhos flagrantes, já durante a sua gestão, João Lourenço, que se apresentava como o messias e salvador da pátria, num charme de cinismo, o melhor que conseguiu fazer para deixar claro a que vem, e como que para partir, definitivamente, a loiça toda, faz do seu gabinete um escudo protetivo em torno de Edeltrudes Costa “ suspeito de ter sido beneficiado em contratos com o Estado”, para dizer o mínimo.”

Rafael Marques, numa entrevista à DW África, conduzida antes das eleições que elevaram JLO ao cadeirão máximo da cidade alta, afirmou que quem é suspeito de corrupção é promovido. “Regra geral, o Presidente promove aqueles que são considerados os mais corruptos. Dá-lhes toda a proteção política e jurídica para que não sejam responsabilizados pelos seus atos. E o país, de forma bastante clara, está afetado”. Cinco anos volvidos, com Edeltrudes Costa a ocupar descaradamente o cargo de diretor de gabinete do homem que tem no combate à corrupção a sua grande bandeira, não seria exagero sentir que Marques profetizava sobre este governo, que, mais do que o mesmo, no-lo dá a dobrar.

E assim seguimos, suportando com o nosso próprio autossacrifício, um sistema estupefaciente que nos propõe celebrar 24 sobre 24 horas o triunfo da precariedade. Dormimos e acordamos ao som de artigos constitucionais, quando já lhes perdemos o trilho dos significados. Somos convidados a cravar as mãos no futuro para esquecermo-nos de que elas vivem sufocadamente ocupadas a edificar no presente a chávena já cheia dos outros e a nossa lata vazia de cada um dos dias.

Dançamos a dança, sem pés, nem cabeça, certos de que o extermínio e pulverização de quem quer que aponte o dedo à ferida deste purulento real há muito que se fez pauta política. O grande aparatus da media, dita publica, ataca publicamente os valores aos quais, num charmoso e gritante tirocínio de paradoxalidade, golpeia sem uma virgula de decoro, escudado na impunidade que já se fez dinastia política e religiosa. A gentileza do desdém põe-nos a morrer às portas dos hospitais, enquanto as câmaras de televisão partem à caça de inimigos imaginários. Inventam-se problemas para evitar admitir a incompetência em resolver os pendentes que sobre-existem no palco da realidade.

Na ressaca da utopia libertária abraçamos a fratura de um conflito que duraria 30 anos. Mal brindamos à celebração dos Memorandos de paz e já bebemos na antecipação o sangue dos que hão de partir. Pagamos a cheque de ouro especialistas portugueses para identificar as ossadas dos mortos que matamos no “27 de maio de 77”, se é que conseguiremos os identificar devidamente. Investimos em urnas douradas o dinheiro que falta aos órfãos daqueles. Na delícia predadora do espetáculo de Coliseu, cinicamente, devolvemos cadáveres antigos para curar o espanto e ressentimentos de famílias às quais mais falta faz um pingo de centeio e claridade no candeeiro a petróleo. Paralelamente, os quarteis estão nova e absurdamente de prevenção combativa, contra um inimigo que, desta vez, se chama apenas povo. Os generais do Movimento Popular de Libertação de Angola aproximam os dedos ao botão dos assassinatos seletivos, prontos a recrutar outros cadáveres, outras viúvas, outros órfãos, de forma a diminuir o número de barrigas que por aí andam, a pé, de moto-táxi, a se manifestarem contra a má distribuição da renda e esta governação de apalpadelas.

Talvez, daqui a 47 anos chamemos especialistas chineses para identificar as ossadas dos angolanos que mataremos depois de 24 de Agosto, por justa e constitucionalmente salvaguardados, se rebelarem contra o facto de os mortos terem votado em favor da porpopeia política e da miséria de um povo tão rico de pobre. À falta de Luciano Pavarotti, cumpre matar o tédio ouvindo Tchizé dos Santos: « João Lourenço devia agradecer o meu pai para toda a vida. Até para ser presidente foi o meu pai que o permitiu».

O contrabaixo de jazz talvez não tenha sido eloquente. Talvez o presidente continue surdo, preenchido demais pelo barulho camaleónico dos cortesões. Por isso, antes que Tchizé se acostume a viver sem ser filha de um dos mais ricos e longevos presidentes do mundo, chamemos outra vez a menina do berço de ouro. Para, qual Maria Madalena aos pés de Nosso Senhor, escrever na pedra a agonia da porta dos fundos─ após um reinado que jamais olhou para os lados: «Os que estão, hoje, solidários com o meu pai, são aqueles que ele mais prejudicou, o povo.» É preciso estarmos com medo antecipado de um dia as cordas vocálicas da Tchizé dos Santos virem a ser emprestadas às filhas de João Lourenço. Porque Angola tem o carma de fazer que os vaticínios assoberbados se virem contra quem os ensaia. JES desenhou três cenários para Savimbi. Um deles era a captura. Todavia, foi JES  que se surpreendeu capturado pelos leões que ele próprio ensinou a caçar. Teve de suportar, ainda vivo, o sabor da impotência face a uma máquina por ele blindada a esmagar os fracos e a pisar nos seus fundadores. O terceiro cenário para Savimbi era o exílio. No entanto, foi ele, JES, quem morreu exilado. Hoje, mesmo apesar de morto, o país de que se fazia dono absoluto quase lhe recusa um palmo de terra para o adormecimento sossegado. É preciso estarmos com medo de os “aplaudoutores” um dia voltarem a se virar contra JLO, tal como este o fez com o seu mentor. Porque esta coisa a que chamamos amanhã tem lá as suas grandes artimanhas. E a história, no que lhe toca, gosta de gozar com o nosso dom de profecia.

No que nos cabe, deste lado da contemplação do suicídio político de um presidente que, em tão pouco tempo, a seus pés tudo teve para ser melhor que todos da sua geração, para, no entanto, vir a ter, nos dias que correm, todas as condições para ser pior que todos eles por atacado, o que nos sobra, para substituir o chá de camomila, nada mais é do que a canção de Jacques Prévert: «Pai nosso que estás nos céus, conserva-te aí, que nós também nos deixaremos ficar cá por baixo.» Por sintomático delírio de contágio filosófico, enquanto arrefece o corpo de JES, e face a poeira que nos restou daquele João Lourenço que lemos no prefácio do seu consulado, apetece recitar: Pai nosso que por enquanto estás no céu, mantenha-te mesmo aí, porque nós, com a mesma im/paciência de sempre, te aguardaremos cá em baixo.

*Tradutor & Escritor. Especial para o www.jornalokwanza.com

 

[1]https://angola-online.net/public/noticias/pgr-acusado-de-corrupcao-e-ameacas-de-morte-contra-empresario

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