JÓ SOARES

Eterna gratidão, Dario de Melo!

Jó Soares

O “capitão” da minha vida levantou ferro e partiu para outra dimensão, sulcando as águas dos mares do além que o levarão a um porto seguro em cujo cais tem um comitê de repecção composto pela política devota e mãe extremosa que foi Miete Marcelino, o habilidoso e experto engenheiro agrônomo Branco Marcelino e o obsequioso médico David Bernardino que os bambinos, que, ao tempo, como eu tiveram o grato privilégio de serem assistidos e medicados por ele, adoravam.

O professor, letrista escritor e jornalista Dario Mendes de Melo era um intelectual de uma integridade e autoridade moral à prova de bala. Era um homem de uma cultura geral bastante sólida e rigoroso no que ao manuseamento da Língua Portuguesa dizia respeito.

Dario de Melo Partiu sem despedir-se de mim. Estou com o coração condoído. Estou de rastos. Sinto-me órfão. Mais uma vez.

A minha relação com Dario de Melo era extraordinariamente íntima e amiga. Era de um amor inexplicável, de uma cumplicidade inenarrável sustentadas pelo Jornalismo, Literatura e por um amor de pai para filho. Foi ele que me incentivou a enveredar pelo Jornalismo.

Era a ele a quem a minha genetriz recorria quando fazia travessuras ou tivesse notas baixas na escola. Era ele que falava com os meus professores quando a minha mãenão pudesse. Era o meu Encarregado de Educação. Era ele que me aconselhava a comportar-me com juízo e a aplicar-me nos estudos.

Eu e o meu irmão andávamos sempre à bulha. Estávamos sempre às turras fosse onde fosse e fosse pelo que fosse. Por isso Dario de Melo sugeriu que eu estudasse no Ngola Nzinga e o meu irmão no Mutu Ya Kevela. Foi ele quem fez as nossas matrículas. Foi ele quem comprou o meu primeiro par de óculos quando comecei a ter problemas de visão aos 14 anos, devido a leitura que às vezes fazia à luz de velas por falta de energia.

Os ralhetes de Dario de Melo revelavam-se, no final, mais dolorosos que a sova que a minha mãe me dava antes de dizer: “Prepara-te, que amanhã o tio Dario vai falar contigo!”.  Quando tal acontecesse, sabia que o resto dos dias seriam de reflexão e má disposição. O rigor e o vigor da chamada de atenção de Dario de Melo eram de homem para homem. Mas no final, valiam sempre a pena!

Por isso, Dario de Melo, para mim, não morreu; apenas decidiu fazer uma pausa no caminho do Jornalismo e da Literatura infanto-juvenil. Ele significava (e vai significar sempre) muito para mim. Tem, para mim, um valor imaterial incalculável no meu percurso de vida e como homem.

Sou muito (e sempre serei) grato aos seus ensinamentos sobre a amizade, o amor, a cumplicidade, a lealdade e a devoção ao trabalho. Sempre me alertou para que fizesse o meu trabalho com a competência,  destreza e rigor que demanda o Jornalismo. Agradeço, penhoradamente, o investimento feito em mim.

Eu era o filho preto de Dario de Melo e ele era o meu pai branco. Aliás, ele teve muitos filhos de adopção (o Maló, o Giboia, o Katumbila, a Milocas, a Bebeio, a Luísa, a Teresa, o Quim, o Testa e outros de que já não me lembro). Mas, em boa verdade, devo dizer que fui o mais privilegiado, o mais próximo, cúmplice mesmo. Tanto assim que me dizia que o dia que morresse herdaria toda biblioteca dele.

Dario de Melo não só me deu peixe, como ensinou-me a pescar. Por isso, muito devo a ele. Tudo o que sou devo a ele. Foi ele quem me orientou na vida.

Foi ele que me contou as façanhas dos “grandes” do Jornalismo da sua juventude, com destaque para João Charulla de Azevedo, Bobela Mota, Ernesto Lara Filho e outros. Admirava os trabalhos de Jaime Azulay e escutava com redobrada atenção as peças jornalísticas de Reginaldo Silva. Destacava a amizade e a deferência que tinha pelo seu coetâneo e amigo, o também finado escritor Raul David.

Dario de Melo partilhou comigo coisas que, estou certo e seguro, não partilhou com mais ninguém. Algumas delas levarei ao túmulo. Por exemplo, raramente falava de política. Mas comigo chegou a abrir-se muitas vezes. Falou-me bastas vezes do trato fino de José Eduardo dos Santos e da coragem de Fernando da Piedade Dias dos Santos (Nandó). Falou-me de que como era difícil um branco ser do MPLA.  Fui, posso dizê-lo, confidente de Dario de Melo.

Sinto saudades de vê-lo sentado na sua poltrona, depois do almoço a colocar o tabaco no fornilho do seu cachimbo e a comprimi-lo levemente, enquanto se preparava para me dar um “sermão” por conta das queixas que a minha mãe fazia devido as minhas travessuras ou, já nos últimos tempos, para falar de coisas mais sérias como política ou de como ia a minha vida.

Quando era estagiário sem salário na Rádio Nacional de Angola (RNA), tinha eu 16/17 anos, era ele quem me dava umas notas, do seu salário, para me divertir com os amigos aos finais de semana. Já adulto almoçava com ele uma vez por mês e estava autorizado a escolher o livro que quisesse da sua vasta biblioteca para levar para casa. Fazia questão. Depois do almoço, púnhamos a conversa em dia. Não sem antes saber como estavam a minha mãe e os meus irmãos.

Dario de Melo terá morrido triste por não me puder despedir dele. Por não puder dar-lhe o último abraço. Nos últimos meses, falava muito de mim. Quem mo disse foi a amiga Paula Russa com quem muito confabulou sobre mim e outras coisas nos últimos tempos.

Dario de Melo já foi enterrado em Benguela, seu berço-natal. A Paula Russa prometeu depositar uma coroa de flores em meu nome no túmulo de Dario de Melo. Eu agradeço. Agradeço em nome de todos os filhos pretos que Dario de Melo criou e orientou em vida e na vida e que se encontram espalhados por Angola adentro e pelo mundo afora.

Nesta hora de nojo e de dor, em meu nome e de todos os seus filhos pretos, endereço à tia Elizabeth Pereira (sua companheira de anos de estrada até ao último suspiro), ao Carlos e ao Paulo Melo, ao Ndungo e Massoxi Silva, ao Jó e Pepe Marcelino o meu abraço de conforto e solidariedade.

Dario de Melo, presente! Eterna gratidão!

 

 

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