TIAGO COSTA*

Angola, stand up

(uma última estória fictícia… baseada em factos reais e bem actuais)

“NÃO QUEREMOS MAIS TRABALHAR CONTIGO”

Foi assim que algum(a) jornalista da PLATINALINE decidiu resumir as “revelações” do Gilmário Vemba (GV). Para o bem da verdade literal, quem revela é fotógrafo. O Gilmário Vemba, na qualidade de humorista de stand up comedy, lançou um álbum com mais de hora e meia de piadas. E diminuir quase 2 horas de trabalho e aproximadamente 2/3 anos de preparação a uma punchline é, no mínimo, mais do mesmo. Se ao menos existisse alguém que investisse na formação cultural, na educação da arte como tal, em escolas, para que jornalistas fossem jornalistas e não “promissores políticos de clickbait”… Se ao menos existisse alguém que há anos fala sobre a FALTA DE ESCOLA generalizada no País e, por força disso, temos imensos especialistas de nada com coisa alguma… Enfim!

Mas não me espanta. Não me espantou nem um pouco. Espantou mais não ter visto “Os Tuneza” na fila da frente, a rir, a aplaudir ou tão-somente a apoiar o seu ex membro, com o mesmo afinco que o fizeram aquando do seu rapto. Não sei, não sei. Sobre o ‘’FORA DO GRUPO’’, sou suspeito de falar, pois nunca fiz parte de grupos. Talvez pela minha forma independente de pensar, talvez pela minha escolha coerente de fazer stand up comedy, ou, quem sabe, pela forma como sempre fui posto de lado, por gozar com o Sistema onde estou inserido e que (mais tarde viria a descobrir) controla quase todas – senão todas – as formas de se fazer arte em Angola. E quando tu tens um Sistema a controlar a cultura, tu tens arte – e por conseguinte, artistas – limitados. Continuo a defender que o humor não tem limites: o artista – e o seu contexto – sim. Nunca escondi também que a saída do GV d’Os Tuneza foi a melhor coisa que poderia ter acontecido ao movimento de stand up comedy nacional. Digo isso com todo o egoísmo que me está entranhado. Foram muitos anos a trabalhar sozinho para que houvesse o que há hoje: um circuito. Um movimento: os primeiros passos para a sua industrialização.

 

Lembro-me aquando da criação do GOZ’AQUi e da decisão de apostar numa plataforma exclusiva para humoristas em detrimento de apostar em mim, exclusivamente, como humorista: “Tu queres ser o melhor humorista, eu quero que existam mais e melhores humoristas. Nós não somos iguais. Nunca fomos e nunca seremos. E está tudo bem. Um hospital não é feito somente por médicos. Trabalha na tua performance, que eu trabalho para tu teres onde te apresentar. Chega de associar músicos aos shows de humor. Os músicos quando fazem show, chamam-te para abrir? Dançar é engraçado, mas não é humor. Já viste um(a) bailarino(a) a parar a dança para contar piada? Em que espetáculo de ballet? O Calado não é humorista. É showman e ele conquistou com o suor dele, o espaço para ele fazer o one man show dele. Os Tuneza são comediantes. É diferente de ser humorista e não percebo a falta de compreensão disso. Tu podes ser uma, duas e muitas coisas sim, mas se tu só fizeres uma coisa, tu só és essa coisa. E não há vergonha nisso” são algumas das muitas frases que fui dizendo a mim mesmo e a muitos humoristas (e não só) ao longo dos anos, privada e publicamente – e que causaram mais ou menos controvérsia.

Gilmário Vemba  provou independência – e acreditem quando vos escrevo, mais uma vez, uma última vez: nunca mais voltará à precedência! Ainda me lembro como se fosse hoje, aquando do episódio ‘’FALTA DE ESCOLA’’, um humorista que trabalhava no GOZ’AQUi foi “aconselhado” por outro artista de renome a nível nacional, a sair do GOZ’AQUi por causa daquele episódio. Ou seja, por causa de uma piada. Isso mesmo: um artista que diz a outro artista para se afastar de um 3º artista por causa da sua arte. Só que eu não tinha lepra e o que eu tinha (ainda tenho), infelizmente não contagiou o suficiente. Meses depois, o humorista “aconselhado” fez uma piada que tendia a tomar repercussões nefastas. Pasme-se o caro leitor, o mesmo artista “renomado” ligou para mim, para que eu me afastasse desse humorista. Não só não me afastei, como tive o cuidado de afirmar ao meu “caro colega” que eu estou onde estou pelo Humor, pela Arte e eu vou sempre defender os meus parceiros e o seu direito de fazer a piada. Para julgar, temos os tribunais – e agora, as pessoas, com o julgamento público e o assassinato de carácter. Passam mais uns meses e o humorista faz um show totalmente produzido pelo GOZ’AQUi e usa mais de 60% dos textos de “artistas renomados”. Recebemos críticas e foi nesse momento – e apenas nesse momento – que abrimos mão de trabalhar com esse humorista. Não foi subjectivo. Não foi porque ele gozava com o Sistema ou com “os kotas intocáveis”, não foi por ele fazer a sua arte. Foi tão-somente por ele não fazer a sua arte, que até hoje ele não está no GOZ’AQUi. Mas o GOZ’AQUi não surgiu para monopolizar e por força disso, quase todos os que por lá passam, de lá saem com bases sólidas para desenvolverem a “sua” arte. Porque sem o futuro, o presente só está à espera do tempo para se tornar passado. E o futuroplanta-se.

Finalizo o meu artigo com uma citação um tanto ou quanto intrigante do colega Costa Vilola aquando da sua entrevista na TPA1 em 2021, no programa “DIÁLOGO CULTURAL” com Walter Cristovão, na qual falou sobre o GOZ’AQUi: “é um projecto bom, que vem despertando nos miúdos muito interesse pelo humor, mas penso que eles precisam de melhorar os métodos, eu acho que os métodos deles são errados (…) estão a ir por um caminho muito perigoso”. Até hoje, estou à espera que o Costa diga quais os caminhos certos – e o que me deixou realmente estupefato foi o facto de o Costa não nos ter dito isso, ou algo do género, quando o GOZ’AQUi providenciou TROPAS para que OS TUNEZA pudessem fazer tantas temporadas no Mundo Fox.

Até hoje sou mal interpretado. E até hoje, ninguém me mostra que eu estou ou estava errado.

*Especial para www.jornalokwanza.com

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