DANIEL DA PURIFICAÇÃO, CIENTISTA POLÍTICO:

“Regime autocrático vigente em Angola tem um rosto de autoritarismo do partido (MPLA) e outro de autoritarismo militar”

Daniel da Purificação um Cientista Político e académico angolano numa grande entrevista   a “O Kwanza” diz que a forma como politicamente vivemos não satisfaz os angolanos. Fala, com frases abertas, do partido-Estado e da forma como o Estado foi capturado, de uma “angodemocracia” e de uma “angoconstituicao”. Atente, caro leitor:

Jorge Eurico

Como define o ethos político angolano?

Antes de definir ou caracterizar o “ethos político angolano”, gostaria de estabelecer uma base sobre aquilo que se considera ser o ethos (político); isto é, quando de ethos nos referimos, estamos a falar basicamente de uma orientação ao bem-comum com um horizonte de princípios e valores fundamentais, que, generalisticamente falando, é aquela forma comum que adopta um grupo de indivíduos que vive na mesma sociedade. Portanto, quando me atrevo a usar o conceito “ethos político angolano”, estou a apelar àqueles valores-guias-regentes da comunidade e da Polis angolana. Não somente do político profissional, mas até da cidadania, já que os cidadãos constituem a Polis. Chegados aqui, a pergunta seria a que me faz no início: Como define o ethos político angolano? O ethos político angolano é aquele que obedece ao de uma comunidade humana que, como sociedade, esteve imbuída num processo de colonização, que lutou e resistiu a esse mesmo processo, que conquistou a emancipação, a independência e a soberania, mas que também  teve o tempo de ser questionada e auto questionar-se sobre a sua própria capacidade de agência;  isto é, ou resumindo como dentro desses processos sociais os valores atribuídos àquela dimensão estritamente política responde aos angolanos do passado e até aos de hoje? Não vamos dar respostas. Pensemos todos juntos. Somos capazes, até porque as respostas depois das perguntas e reflexões correctas estão aqui mesmo na nossa mão. Será que a forma como vivemos (politicamente) em toda sua extensão e compreensão do conceito respondem, satisfazem os angolanos?

Como responderia a esta questão (…a forma como vivemos politicamente….) satisfazem os angolanos??

A minha obviedade consiste em dizer que a forma como vivemos politicamente não satisfaz os angolanos. Malucos seriamos se disséssemos o contrário para querer insinuar que a nossa democracia ou o nosso Sistema Político é perfeito e acabado.

O que se passou com o “Sonho Democrático” adoptado há três décadas?

 (Risos) Essa é a melhor provocação para fazer a uma pessoa como eu. (Risos) Acho que ao perguntar-me textualmente sobre o que me está a perguntar, devo não ser ingénuo e pensar que já leu algum escrito meu sobre essa questão. Mas ainda assim, sou daqueles que costuma pensar que uma coisa é mesmo a Democracia e outra é o “sonho democrático angolano” que foi vendido como democracia para a Nação. E aqui neste momento estou até a querer pensar no grande sociólogo Alain Touraine, que quando escreve sobre política, tem um volume valiosíssimo intitulado “O QUE É A DEMOCRACIA”, no qual ele usa a categoria analítica de “DEMOCRADURA/DEMOCRATURA” para descrever aqueles contextos onde se vivia sobre a ditadura da democracia ou onde a ditadura era própria democracia. E o sociólogo em questão quando está a falar sobre isso, o exemplo que ele apresenta é o da Argélia. Então, nós, angolanos, sonhamos democracia. Ela chegou formalmente em 1991/1992. Estamos em democracia, pois não?  (Risos).

Que lições e ilações podemos extrair do caminho feito entre a instauração da democracia e a sua pretensa consolidação, 31 anos depois do País abrir-se ao pluripartidarismo?

 Esta é questão que nunca se colocou ao longo dos anos e que hoje nem sequer estamos a querer colocá-la. Se retomarmos uma tradição de autores da Ciência Política, chamados “transicionistas”, entre os quais se destaca o Grande Mestre Guillermo O’Donnell (considerado amplamente como o pai e fundador da Ciência Política latino-americana), veremos que mesmo antes da “Instauração” teremos/temos que falar da “Transição” para num momento ulterior falarmos da “Consolidação” até a própria “Qualidade” da democracia. Então, licões e ilacões existem. E aqui é onde costumo considerar justamente o caso de Angola como talvez, não o único, mas como peculiar e demasiado “sui generis”, desde um prisma tanto real-existencial como para a mesma Ciência Política. Sim, há ilacões que se deveriam converter em lições, se considerarmos os momentos analíticos (Transição, Instauração, Consolidação e Qualidade) usados pelos cientistas políticos ou autores transicionistas.

Que ilações, no caso de Angola, poderiam converter-se em lições?

Somos aquele País que vem de um passado colonial, adoptou o socialismo/comunismo como sistema formal de Governo como uma estrutura económica de base extrativista, com uma Guerra Civil, de dimensões internacionais e internacionalizada, que transitou para o multipartidarismo, que continuou a beligerar mesmo depois de o “mundo dividido ter acabado”,  refiro-me à  queda do Muro de Berlim, que instaurou a democracia com uma elite política comunista no poder declarando-se democratas sem nenhuma “purga” ou “processo de contricao política”, continuando a ser formalmente membros de um “partido marxista-leninista”, com movimentos de libertação que se declararam e se autodeclararam partidos políticos, com uma economia crescendo como nenhuma outra no mundo, em detrimento da precarização dos Indices de Desenvolvimento Humano. Nós, como País, sumamente taxados com os mais altos índices de corrupção a nível mundial, factor que é divergente a um princípio democrático fundamental, que é a ACCOUNTABILITY, consolidando democracia com índices ganhadores de percentagem eleitoral superando 80%. Se isso não são ilações dentro do processo de democratização em Angola, não saberia quais são as possíveis lições a tirar dentro daquilo que não somente é a realidade empírica dos fenómenos democráticos mundias, se não que da mesma normatividade e do dever ser da própria teoria democrática e da Ciência Política. O nosso caso, repito e enfatizo, é único.

Daí defender a tese sua segundo a qual Angola abandonou mal o socialismo, comunismo e o marxismo-leninismo?

Faltou lá naquela lista entre outras coisas a famosa Constituição que todos chamaram de atípica. E não sei mesmo se Angola abandonou ou abandonou mal. Porém, acho que houve aquilo que, tanto em termos de Engenharia Política ou Engenharia Constitucional, quando o Professor César Cansino (o tradutor oficial do Mestre Leonardo Morlino) considera que tivemos/temos em Angola uma democracia que conviveu/convive com toda a grelha institucional do “ancién regime”, o que é o primeiro pressuposto a negar e a depor quando se transita para uma forma democrática. Temos uma democracia que convive numa simbiose perfeita com leis e formas do anterior regime.

Angola tem uma Constituição atípica ou autoritária?

 Angola tem uma “angodemocracia” e uma “angoconstituição”. Penso que essa é a grande premissa de partida. Dizer como andamos todos aí a dizer e a repetir “Constituição atípica” não explica o fenómeno que se passa em Angola em termos de engenharia política ou constitucional. Dizer “Constituição Atípica” é dizer o quê? Significa mesmo o quê? Quais são os adjetivos que revestem aquilo que se foi chamar de “Constituição atípica”? Entramos num conformismo de chamá-la atípica, que nos levou a uma espécie de letargia sob a qual hoje estamos a “inovar” (chamando de “Lei de Revisão” nem sequer “Reforma Constitucional”) sobre essa mesma Constituição que deveria ser negada e rejeitada desde o início.

Por que razão que João Lourenço não mostra interesse em fazer uma reforma constitucional?

O pior não é que ele não o fez, o fez não fazendo para chamá-la como se chamou. Isso é único. Por isso insisto que somos “sui generis”. A questão aqui nos leva exatamente lá onde começamos ao falarmos do “ethos político angolano”. Num processo “normal”, bem-querido” e “bem-desejado” ainda penso que o soberano, que é o povo, deveria ser chamado/convocado via plebiscito ou referendo quanto a esse assunto da constitução. Aí está a História. E o caso mais recente é o do Chile. Mas ainda assim, é importante realçar que o mesmo “Sistema Político” angolano permite e dá prerrogativas para que o Executivo tenha iniciativa de Lei. Então, temos hoje uma “Nova Constituição” via projeto e iniciativa de Lei que se faz e pode-se fazer passar de reforma constitucional. E tudo isso dentro da “angolegalidade”, pois, em “stricto sensu” não se violou Lei alguma para isso. E isto é o que o País precisa entender, começando até pela mesma academia jurídica angolana se é que ela em última instância existe mesmo. O nosso caso seria de bradar aos céus!!!

Defina “angodemocracia”, “angoconstituição” e “angolegalidade”.

 (Risos) Para começar “angodemocracia” tem muito que ver com aquilo que vimos sobre ilações e lições para o caso de Angola, em função do fenómeno democrático. E temos muito a dizer sobre esse conceito. Porém, desafio a redacção do jornal “O Kwanza” a fazermos uma segunda edição da nossa conversa só para falarmos da “angodemocracia” como conceito, suas bases teóricas e actualizacao empírica como um fenómeno real. A “angolegalidade” é o rosto da “angoconstituição”, que na verdade é o institucionalismo que reveste a “angodemocracia”. E utilizando terminologia especializada em Teoria Política, faz falta chamar a atenção para não se confundir instituições com organismo (do Governo). Temos muito a dizer sobre isso. Porém, ficaríamos aqui agora.

Angola teve, em 1991, uma transição política sem alternância de poder. Que consequências isso teve e continua a ter no espectro político angolano?

 O “normal” nas transições é a figura da alternância e da deposição do anterior Regime. Há casos onde a alternância não existe. Porém, temos autores, autora nesse caso, que é a professora Hilda Varela que, ao abordar o caso da Tanzânia, fala mesmo de transição incompleta. Para o caso de Angola, costumo chamar/apelidar de “transição intermitente” (Bicesse, Lusaka, até Lwena e ainda assim penso não explicar completamente o nosso caso angolano). Sendo assim, a figura que mais gosto quando da transição angolana para  democracia se trata, é aquela que usa a professora Christine Messiant (uma acdémica especialista sobre Angola) quando ela diz: “EM ANGOLA HOUVE UMA TRANSIÇÃO AO MULTIPARTIDISMO, MAS SEM TRANSIÇÃO PARA DEMOCRACIA”. Dentro desse quadro, as consequências são das quantificáveis às não quantificáveis; isto é, desde a proclamação formal da democracia em Angola, quantos jornalistas já foram perseguidos e assassinados? Quantas pessoas já foram ameaçadas, desaparecidas, torturadas e espancadas por reivindicar os seus direitos ou usar um Direito, como é a Liberdade de Expressão e de Manifestação? Quantas pessoas já foram vítimas de violência por causa da sua opção política? E a lista é grande assim como a repetição desses eventos sob os quais se avalia uma democracia. E neste quesito nem precisamos de ser avaliados mundialmente perante outros países, somente ficarmos de pé diante do espelho e olharmo-nos nós mesmos como País nos últimos 30 anos.

 Qual é a conjuntura sociopolítica que envolve as manifestações em Angola?

Esse é um grande tema para o contexto angolano. Foi graças as manifestações onde um dos rostos (MPLA) que sustenta o poder autocrático em Angola viu-se confrontado, pois, o que são mais de 40 anos no poder e querer fazer passar a ideia de que assim se é democrático? As pessoas que foram à rua demonstraram um capital político que todos os políticos profissionais da oposição não tinham conseguido. E o que as manifestações vieram demonstrar em Angola é que é possível fazer oposição sim, sem ser da oposição política. Então, manifestações sim, manifestações sempre. Manifestações até quando elas nem sequer forem necessárias até mesmo para estimular o povo como termómetro de como se está a governar. Qual é o País democraticamente consolidado (dos assim considerados pela literatura especializada na matéria) que nunca teve nem recebeu nenhuma manifestação? E aqui a minha palavra é contundente sem meias medidas, nem meios termos e muito menos negociações porque sou um apologista da democracia por antonomásia. Então, observemos com atenção quem tem medo das manifestações e porque tem medo das manifestações em Angola? Por acaso temos um País maravilhosamente fantástico onde os deputados nunca reclamaram pelos seus salários ou os magistrados nunca exigiram melhores condições? E nessa hora é chegado o momento daquele vício que como angolanos desenvolvemos onde alimentamos aquela visão de que os problemas só são problemas quando chegam até à nossa porta. Se o magistrado reconhecesse o direito do activista ou de qualquer outro a exigir os seus direitos, será que a sociedade não seria empática com eles no momento em que eles também saíssem para reclamar os seus direitos e mais ainda sendo eles os responsáveis pelo equilíbrio social via a aplicação da lei?

Como define a gestão da rés pública nestes 47 anos de independência do País, 20 dos quais em paz?

 Pessoalmente eu não defendo o modelo de administração instaurado e continuado no País desde a sua independência. Quem me conhece pessoalmente sabe que esse tema me aborrece de sobremaneira. Mas ainda assim e querendo dar desconto para qualquer tipo de animosidade que se levante a minha pergunta é: lá naqueles índices de governabilidade que eu citei anteriormente, que não foram inventados por mim, Angola sai bem avaliada? O índice de mortalidade infantil já diminuiu? Actualmente, precisamos sair da capital do País para sentir os estragos da fome ou não ver pessoas nos contentores de lixo? As nossas universidades, por causa do alto índice de investimento público governamental, já fazem ciência destacada que as mesmas universidades já são até dentre as melhores de África? As nossas tarifas de comunicação e o acesso à Internet já são as mais amigáveis e ao alcance de toda gente? Qualquer cidadão hoje pode ir à Assembleia Nacional, que é a conhecida “Casa do Povo”, e falar com o deputado que responde pelo seu distrito eleitoral? Não preciso responder. Preciso que pensemos juntos sobre estas perguntas.

Que adjectivos da Ciência Política usaria para caracterizar os 47 anos de independência do País?

Uma das características que a Ciência Política tem, não somente para caracterizar ditaduras, mas regimes autocráticos é a pessoalização do poder, assim como a permanência nele por longos anos. Então respondamo-nos. Os trabalhos do Tony Hodges, Laura Pawson, Justin Pearce, Nelson Pestana Bonavena, Jon Schubert, etc, dão-nos boas balizas para aquilo que são as características do nosso País. É só irmos para a rede e pesquisar estes nomes. Lembro-me uma vez de ter estado num evento académico na África do Sul (Johannesburg) e o Director da Amnistia Internacional para a África Austral, o senhor Deprose Muchena, perguntou se no auditório havia algum angolano. Lá timidamente levantei a mão. Curiosamente, não era o único. Aí ele perguntou: qual é o maior bem que configura o PIB nacional angolano? Resposta óbvia que todos angolanos sabem. Ele confirmou uma verdade que eu já sabia quando disse que em Angola explorava-se petróleo desde antes da independência. Aí ele rematou perguntando: quantos engenheiros de petróleo Angola tinha formado desde a sua independência até aquele ano de 2015? A conclusão que ele deu para nós é que Angola somente era o exemplo daquilo que não se deveria fazer num País.

Desconstruir o Estado e construir um outro. Era isto que se esperava de João Lourenço depois de quase 40 anos do consulado do seu antecessor?

 No mínimo endireitar muita coisa, isso sim. Corrigir o alvo e a mira também. Porém, dos poderes que a Constituição atribuía ao seu antecessor, qual deles o actual presidente já renunciou e retirou formalmente da Constituição?

Por que não o fez, na sua opinião?

 Essa é uma das características daquilo que venho constantemente a dizer durante a nossa conversa. Regime autocrático vigente em Angola tem um rosto de autoritarismo do partido, outro de autoritarismo militar, outro de autoritarismo económico, porque os empresários e detentores das fortunas e economia são da mesma elite. Então é uma forma autocrática multifacetada. Quererá fazê-lo? Poderá fazê-lo? Esse é o lado sui generis, uma vez mais do Regime angolano

Está a dizer que há acordos políticos entre as elites políticas em Angola que mantêm o mesmo modus operandos do ancien regime?

 É a forma como se configura, como se relacionam, como se estruturam, como está constituído e articulado o regime. E se isso implica/implicou acordos, consideremo-los. É a natureza ontológica do regime político angolano, esse rosto multifacetado. Entender que essa hibridação é a natureza e essencia mas do que só querer ver aquele lado macabro dos acordos que também sabemos que existem sim.

Como prevê o cenário das quintas eleições angolanas?

Temos um Partido-Estado e mais estritamente ainda na terminologia da Ciência Política aquilo que se caracteriza como um “partido hegemónico”. Temos um Estado que foi sequestrado pelo partido no poder. Um cenário onde temos um partido que tem usado e vai voltar a usar os recursos do Estado para a sua campanha eleitoral, enquanto que os outros concorrentes não o vão fazer, coisa que em si mesmo já marca uma competição desleal e sem igualdade de oportunidades, realidade que não tem sido diferente a todos os pleitos eleitorais já realizados no País. E o mais importante neste quesito é que, continuamos a ter uma CNE com a composição que tem, uma logística das mesmas eleições nos moldes que temos (Casa Militar da Presidência da República, a empresa INDRA, encarregada da logística eleitoral, a Comunicação Social do País e até o mesmo pacote legislativo eleitoral). Porque esperar resultados diferentes se não se está a fazer diferente do que as vezes anteriores? E aqui o meu questionamento directo é para os partidos na oposição: Por que não envolveram a sociedade e todo o País no processo de discussão e aprovação da Lei Eleitoral? Mas aceitaram discutir tal Lei a portas fechadas à maneira e do jeito que o MPLA quis como sempre o fizeram? O resultado final actual é que temos uma Lei Eleitoral que marca retrocessos gravíssimos até a nível regional da mesma SADC? Num quadro como esse, os cenários são mais do que previsíveis. Os milagres existem, mas não são para aqui chamados, pois é uma questão de reformas concretas e efectivas para a realização de umas eleições livres e justas para a consecução de uma boa democracia que todos os angolanos merecem.

Que avaliação faz da Administração Lourenço?

 Dois momentos. Para responder essa questão, em primeiro lugar, recomendo que se faça uma recompilação do trabalho do grande mestre Sérgio Piçarra desde Agosto de 2017 até à data presente e mais nada. Em segundo lugar, da minha parte, vou responder-lhe textualmente como respondi quando fui inquirido a posicionar-me na qualidade de especialista na matéria, sobre o primeiro ano de governação do actual presidente de Angola, ao qual poucas vezes consigo e consegui pronunciar o seu nome. Subscrevo na íntegra aquilo que escrevi naquela ocasião, mesmo depois de terem passado mais quatro anos: “Há muito tempo que desde a Ciência Política, a democracia e as democracias são avaliadas pelo seu desempenho real e os seus resultados empíricos; do mesmo jeito há muito tempo que o acto de administrar (a rés pública) obedece a critérios e metodologias científicas concretas. Governar não é igual a um simples acto de notícias do telejornal, publicitando visitas de Estado. Administrar não é igual à notícia de capa de jornal sobre acordos económicos. Governar (entenda-se governar democraticamente) é eficiência nas Políticas Públicas e Administrar é Accountability. A “angodemocracia” mesmo com um novo rosto na Presidência não avançou nestas direcções e está longe de caminhar para dito rumo. Esse é o resumo de um ano de governação de João Lourenço”.

A Justiça angolana tem ou não credibilidade?

 Se há margem para uma pergunta como essa, é porque de entrada dita Justiça é altamente questionada pela negativa. Mas ainda assim, vejamos que exemplos nos chegam, nem de tão longe assim, é mesmo dos nossos países irmãos africanos. Estou a falar do Ghana, do Senegal, das Ilhas Maurícias, do Botswana, etc. Estou aqui a lembrar quando fui convidado no ano passado a fazer parte de uma formação como a Ordem dos Advogados de Cabo-Verde sobre Branqueamento de Capitais, onde interagi com a Procuradora-Geral. Ela dizia que: “No mundo moderno e desde um marco democrático um País sem leis e sem o verdadeiro império do “rule of law” como “the only game on town” é tudo menos uma democracia com qualidade”. Perante estas palavras, a minha reflexão é: alguém no País sabe qual é o papel da Ordem dos Advogados de Angola? Por que não se pronunciou depois da manobra sobre a Constituição que o Executivo na figura do seu Titular fez? Num contexto como esse, quem para exigir e repor a legalidade? O que anda realmente a fazer o Conselho Superior da Magistratura? Qual tem sido o papel da Provedoria de Justiça em Angola? Onde estão os seus números telefónicos e escritórios de atenção ao público? Quanto ganha um juiz ou magistrado se o resultado e desempenho do seu trabalho é nulo? Quanto custa ao Erário e do dinheiro dos contribuintes a manutenção de um juiz e de um magistrado em Angola? Quanto se vai indemnizar ao jovem detido arbitrariamente que é algo bastante comum na prática das nossas autoridades de Justiça? Quantos funcionários serão castigados pela má aplicação da lei, outra coisa muito comum no País? Se entenda muito bem o sentido da minha reflexão, pois, desconfio que ela nos leva a dizer tudo o que tinha que dizer sobre Angola nos próximos 50 anos em matéria de Justiça. E se houver desde dúvidas até desacordos à pergunta é: uma REFORMA DE JUSTIÇA muito bem feita e realmente aplicada quanto tempo demora e os seus frutos serão visíveis em quantos anos? Andam os dirigentes desse País a brincar de país e a pensar que foram eles quem inventaram o fogo e descobriram a pólvora.

É possível efectuar-se uma “Perestroika” em Angola com as instituições republicanas sem credibilidade?

 É justamente por causa de precariedade de vocação, dessa ineficiência nas suas práticas agenciais, dessa descredibilidade pública, desses deficits mostrados nos seus desempenhos que exactamente se deve perspectivar e onde se deve legitimar essa tal reconstrução/reestruturação ou como você chamou de “perestroika”. Aqui é importante que não seja um movimento de “angokibiona” como costumo dizer, isto é, que o de “faz de conta que”, ou seja, sem assumir o estado caótico das coisas tipo “não existe fome em Angola ou que a fome é relativa, porém vem orçamentos e discursos a querer dizer que se está a combater a fome porque se gastou X ou Y quando nunca se admitiu inicialmente a existencia do problema. Do mesmo jeito levar uma PRÁTICA PERESTROIKA do tipo vamos fazer de conta que tais organismos públicos governamentais estejam (deficientes) então vamos implementar acções do faz de contas justamente para fazer de conta. Isso é a minha teria da “angokibiona”, a prática na qual se especializou e se versou o “angogoverno já que as suas origens vêm do paradigma do HOMO SOVIETICUS que é o especimen perfeito tanto para produzir, reproduzir e ser vítimas em primeiro lugar das práticas dos discursos populistas assim como da propaganda.

A que se devem os ataques do Governo ou de apparatchiks seus à Igreja Católica quando esta toma posição sobre a Polis angolana?

Se a herança é socialista/comunista, corporizando um estalinismo “a la africaine”, o regime é autocrático. A forma é ANGODEMOCRÁTICA em que contexto destes evocados por mim se vislumbra uma convivência sadia com a crítica, a diferença, a Liberdade de Expressão ou até a um exercício legítimo de qualquer deliberação sobre qualquer assunto? Imagine-se um “apparatchik” clássico, revestido simbolicamente de um empoderamento que personifica um ANGOBUROCRATA o que é que esses energúmenos não se sentem capazes de fazer? E olhe que ANGOBURÓCRATAS, ANGOBURÓCRATAS EMPODERADOS e gente que sem ser ANGOBUROCRATA age como o ANGOBUROCRATA abundam aos montes no País. Na verdade, pela pergunta que me colocou, eu somente estou a descrever tais práticas e comportamentos explicados desde uma ANGOLÓGICA ou desde uma lógica angolana, que não é outra coisa mais do que aquela que o grande sociólogo francês Pierre Bordieu vai descrever como o HABITUS, que é nos seus dizeres o capital cultural incorporado, isto é, o HABITUS é todo um conjunto de disposições incorporadas, estilos e predisposicoes que organizam a maneira pelas quais as pessoas percebem o mundo social à sua volta e a ele reagem. Espero ter sido não tão denso ao falar do ANGOBUROCRÁTA, pois é navegar entre os territórios da conceitualizaço filósofica às práticas sociais enquanto terreno da sociologia para acabar por caracterizar comportamentos e acções políticas. E isso é algo que desde o nosso background intelectual académico o temos como lição mais do que estudada porque desde há vários anos que desde a nossa trincheira nos dedicamos a PENSAR-ANGOLA de forma gratuita simplesmente pelo ócio do pensar pelo pensar. Portanto, reconhecer condutas ou comportamentos nas estruturas do ANGOPENSAMENTO não é dificuldade para nós.

O País vai realizar, nos próximos meses, as suas quintas eleições. Acredita que desta vez a vontade do soberano, o povo, vai ser respeitada ou servirá apenas, e mais uma vez, de estatística?

 Milagres podem acontecer e se assim for analisaremos e integraremos o sucedido desde a dimensão do milagroso e não da realidade comum e empírica. Estou a falar do milagre do soberano poder vir a ser respeitado no actual contexto angolano. Fora disso é como você disse: “servirá apenas, e mais uma vez, de estatística”. Não é o que de nossa parte desejamos. Porém, o contexto é aquele que eu descrevi anteriormente lá em cima (CNE, Casa Militar, INDRA, Lei Eleitoral, etc.). Há reformas que devem ser feitas, há coisa que tem que ser mudadas se queremos uma realididade e um resultado diferente.

Que papel deveria jogar a Comunicação Social para consolidação do Esstado de Direito e democrático em Angola?

Eu me pergunto, é mesmo real que o sector da Comunicação Social angolana prefere optar em discutir se a carroça vai à frente ou atrás dos bois, ou ainda discutir, se mais importante a discussão do ovo e a galinha entre a outra discussão sobre o sexo dos anjos? A Comunicação Social e Governo angolano, neste rubro, ambos envergonham os angolanos. Dá pena alheia. A Media angolana não precisa de discussões, fóruns, workshops ou questionamentos banais, precisa é de reformas e decisões concretas para que tanto a midia social quanto o governo entendam que estamos no ano 2022 do século XXI e ponto final.

 

 BILHETE DE IDENTIDADE

Daniel da Purificação, angolano, nascido no Lobito. Tem estudos de Humanidades, Filosofia e Ciencias Políticas. Actualmente radicado no México, vinculado ao Centro de Investigacoes para América Latina e Caribe (CIALC) da Univeridade Autonoma do México (UNAM). É professor universitário, Académico (tanto na docencia como na pesquisa), Poeta, Consultor Político, Jornalista Freelance, Ativista Social de Tempo Completo. Editor e Compilador das Antologias Poéticas BEST NEW AFRICAN POETS (2015, 2016, 2017). Ganhador da Bolsa Atelier Poético da Organizaçao dos Estados Iberoamericanos (OEI) ediçao 2022. Os seus temas de trabalho tranversalmente sao sobre FILOSOFIA, POLITOLOGIA e LITERATURA. Toda sua obra e produçao bibliográfica ele a deseja que seja póstuma.

 

 

 

 

 

 

2 comentários em ““Regime autocrático vigente em Angola tem um rosto de autoritarismo do partido (MPLA) e outro de autoritarismo militar””

  1. Já há longos anos que aqueles que dirigem o tal país chamado a(A)ngola, esqueceram-se que um país tem dois elementos chaves, território e população…Quando os nativos não se sentem partes do território, por causa da marginalização político-partidária, logo não são partes da pátria.A democracia na sua essência é o poder do povo, mas que poder o povo tem, se é facilmente manipulado com os ossos que restam das lambidelas dos cachorros com trela do regime.
    Dizia o saudoso “Nito Alves”Nada é absoluto, tudo flui…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *