MARCOLINO MOCO EM EXCLUSIVO À DW:

“Quem manda em Angola é o Sistema ‘Ordens Superiores’ e não propriamente o MPLA”

O que tem a dizer sobre a governação de João Lourenço?

Das eleições passadas o Presidente simulou que ia tomar uma atitude, é o que o Presidente devia fazer. O Presidente tem tantos poderes que deveria se colocar acima do Sistema para estabilizar o País. Mas não, ele prefere fazer simulações, e todas elas favoráveis a uma parte da disputa.

A UNITA tem vivido uma turbulência interna cujos impactos estão a ser camuflados ou geridos internamente. Uma mão do MPLA para tornar este partido moribundo é algo distante da realidade?

Não, isso está mais do que claro. Não há nenhum partido político, sobretudo os grandes, que não tenham as chamadas alas. No próprio MPLA também há alas. Eu, por exemplo, pertencia [a uma], hoje já não sei se sou do MPLA ou não, mas isso não interessa. Mas há alas, só são atenuadas porque o MPLA está no poder, distribui favores, etc. A UNITA não está no poder e tem alas e nunca foram escondidas, até porque se fossem escondidas a UNITA não se abriria às candidaturas múltiplas já há vários anos. Desde o fim da guerra a UNITA nos seus congressos tem a disputa de vários candidatos. Estas alas não acabam. As pessoas dizem que é o MPLA que está a governar. Mas o tal Sistema, que aqui normalmente se chama “Ordens Superiores”, que também mandam no MPLA, é preciso dizer-se, esse sistema gasta rios e rios de dinheiro para desestabilizar a UNITA, e isso está a luz do dia.

Agora, em Angola, o senhor é chamado “revú”. Porque só se tornou “revú” depois de ter saído do MPLA?

O problema é que fui governante numa altura que não tem nada a ver com o tempo actual. Fui nomeado primeiro-ministro em 1992 e nessa altura fazíamos guerra contra a UNITA – nós como Governo e a UNITA como rebelde a partir das matas. Ora, esse tempo acabou. Em 2002, tínhamos de entrar numa nova fase de transição do período da guerra para o da paz. O que critiquei inicialmente é que andamos muito devagar em relação ao fim da guerra. Passei a contrariar a ideia do MPLA que dizia que era preciso a guerra para acabar com a guerra e eu dizia que não, que era preciso fazer a paz para obtermos a paz. Mas a guerra acabou, infelizmente com a morte de Jonas Savimbi. Hoje, sou crítico, chamem-me do nome que quiserem, porque as prioridades que têm sido excluídas no período de paz são completamente erradas.

A prioridade é o MPLA manter-se no poder a qualquer custo, é excluir o outro, e a repercussão disso impede o desenvolvimento do País. E diz-se que a guerra prolongada aumentou a unidade das pessoas, todas vieram-se acumular-se nas cidades, e aumentou o desejo de paz, as pessoas aborreceram-se com a guerra. Agora vemos uma sombra porque há uma geração de pessoas que não participaram na guerra, não viram diretamente os efeitos da guerra e não conseguem aceitar a forma como o País está a ser governado.

E muitos já começaram a dizer que não se importam de morrer, os jovens sobretudo, porque isto está insuportável. Sob o consulado do Presidente João Lourenço, preferiu-se imobilizar todas as empresas que funcionavam porque estavam ligadas a José Eduardo dos Santos (JES). Isso é política de Estado? Preferia perder-se empregos, paralisar só porque tinham uma ligação com JES e sua família? E depois, essa guerra não acabou e atiram-se contra a oposição, quer dizer, é fazer guerra contra todos enquanto o País vai se afundando.

Considerando a natureza da oposição angolana, uma Frente Unida seria uma utopia?

Não, acho que este é um entre muitos atributos de Adalberto Costa Júnior de criar uma frente ampla para ultrapassar algumas desconfianças que ainda existem em relação à UNITA – que ainda não chegou ao poder – e mobilizar todas as forças nacionais para uma futura governação que deixe de ser, como sempre aconteceu até hoje, exclusivamente ligada a um partido. É uma boa ideia, não é por acaso que um dos objetivos desta sabotagem do Sistema é impossibilitar o arranque da Frente Patriótica Unida.

O MPLA também não vive os seus melhores dias, com alguma resistência à liderança de João Lourenço. Aos seus membros convém, porém, que o partido continue no poder devido aos seus interesses, principalmente económicos. Seria este um dos elementos de salvação do MPLA no que diz respeito à coesão da formação?

Não, isso tudo é uma cegueira porque não se cultivou a ideia da alternância como um facto absolutamente natural. Porque aqui em Angola não se semeia a ideia de alternância como uma coisa natural? Porque o MPLA não pensa assim também?

Fonte: DW

 

 

 

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