RENATO BARBIERI (CINEASTA) EM EXCLUSIVO:

“A política pública de cinema é muito importante para dar a expressão à (nossa) brasilidade”

Embora as condições de trabalho análogas à de escravo sejam consideradas crime previsto pelo Código Penal Brasileiro, e pela Organização Mundial do Trabalho, o regime de servidão é praticado no Brasil há cinco séculos. A Lei Áurea aboliu a escravidão clássica, mas não transformou as relações de trabalho, que perduraram até aos dias de hoje. Este é o mote do Documentário “Servidão”, no qual Renato Barbieri entrevista trabalhadores escravizados, auditores do Ministério Público do Trabalho e de instituições e figuras envolvidas na luta contra uma das maiores mazelas do Brasil.

Silvia Milonga*

Pureza Lopes Loyola denunciou um sistema de aliciamento e cárcere de trabalhadores rurais na Amazónia, descobriu enquanto procurava pelo filho desaparecido depois de partir para o garimpo. Lutando contra um sistema forte e preverso, Pureza testemunhou o tratamento brutal de trabalhadores e teve um papel vital no reconhecimento, em 1995, da existência de trabalho escravo no Brasil. Em 1997 foi premiada pela mais antiga ONG internacional de combate ao trabalho escravo, com sede em Londres, a Anti-Slavery Internationational.

A vida desta mulher corajosa inspirou o cineasta Renato Barbieri a realizar o filme: “Pureza”. Teve a ideia e iniciou pesquisas em 2007, terminou em 2019. Entretanto realizou o documentário “Servidão”. “São filmes irmãos”, explica. Psicólogo de formação, Barbieri é um documentarista e cineasta dos mais premiados que vê o cinema como uma linguagem universal e uma poderosa ferramenta para sensibilizar e transformar as sociedades. Ao jornal “O Kwanza” fala da necessidade de trabalhar sobre realidades que o tocam e preocupam, do momento político e do preconceito que impede o Brasil de olhar para dentro de si próprio.

O que acha do momento político que o Brasil vive, sobretudo para o sector das artes?

É um momento que achávamos que nunca iriamos viver, um momento dificílimo. Essa coisa de extrema direita é um pesadelo. A política pública do cinema, nestes 3 anos foi congelada e foi sendo desmontada inclusive, muitos cineastas deixaram de ter condições para manter as suas produtoras e fecharam-nas. É grave, constrói-se um conhecimento com um colectivo de pessoas, quando se vão, o conhecimento dispersa-se, é desastroso. Uma produtora que se fecha nunca mais consegue voltar ao ponto em que parou, terá que começar do zero, montando, formando equipe, é muito difícil, muito trabalho. A política pública de cinema é muito importante para dar a expressão à brasilidade, cada povo tem que contar as suas estórias. O Presidente Collor acabou com o cinema. Nos anos de Fernando Henrique começou uma política para o cinema que se fortaleceu com o Presidente Lula, tal como as políticas abolicionistas de combate ao trabalho escravo. Foi um período muito virtuoso para as políticas públicas. O que vivemos nos anos do presidente Lula foi muito forte. Estou em Brasília e a produção cinematográfica era feita muito no eixo Rio/S.Paulo, que é o centro do poder económico e cultural, onde está a Rede Globo, há um potencial nesse centro. A política pública de Lula permitiu uma abrangência nacional, gerou cineastas no Brasil inteiro o que não existia antes. Ganharam expressão cinematografias desconhecidas ou inexistentes, deu visibilidade a grandes filmes, grandes séries, grandes directores de arte, fotógrafos, roteiristas. Criou-se uma indústria de facto, foi uma política pública muito consequente, que gerou frutos incríveis, filmes muito premiados no mundo, por isso ficamos ressentidos com a interrupção desse projecto lindo que se estava aprimorando. Queremos muito que seja retomada a política pública para o cinema.

O Brasil tem cerca de 15 milhões de desempregados, mas há alguns anos, o meio áudio visual empregava directamente 350 mil pessoas, fora os empregos indirectos, o áudio-visual no Brasil é uma potência, é mais forte que a indústria farmacêutica, que é um gigante. O sector do áudio-visual é mais representativo no PIB do que a indústria farmacêutica. Portanto, estamos falando de uma economia que gera emprego, riqueza, divisas; gera identidade, sentimento de pertencimento a uma cultura e a uma sociedade, enfim, é uma área importantíssima no Brasil. Houve uma sinalização há dias de uma volta aos investimentos nas políticas públicas de produção e exibição de filmes, nem estávamos à espera disso, ainda não se efectivou nada, estamos na expectativa de que se efective.

Considera que o cinema deve cumprir o papel de testemunhar, denunciar, aclarar momentos históricos, evidenciar culturas e ou personagens da história?

Eu faço isso, uso o cinema para a causa dos Direitos Humanos, para dar relevância a factos sociais, culturais e ambientais. Desde 1985 quando filmei: “Do outro lado da sua casa”, um documentário sobre os sentimentos e pensamentos de excluídos na cidade de São Paulo, decidi fazer filmes de relevância social cultural e ambiental. Isso tem crescido na minha vida, estou a cada dia, mais radicalmente dentro desse propósito, de fazer filmes que sensibilizem as pessoas. A minha leitura é que o capitalismo e o patriarcado foram anestesiando as pessoas, tirando a sensibilidade, aprende-se a reprimir sentimentos na escola, no seio familiar, nas instituições, comecei a ver que o cinema tem um papel importantíssimo para re-sensibilizar. A sociedade dessensibilizou no sentido do capitalismo, que quer o controle, o sentimento e a sensibilidade são tidos como atributos femininos. A repressão ao sentimento e ao lado sensível das pessoas foi violentíssima no período da expansão do capitalismo, das navegações e durante a Inquisiação.

Os mecanismos de controle e dessensibilização são mais invisíveis, mais mediáticos, mais sofisticados do que o que fez o Vaticano dos séculos 15 a 19 com a Inquisição, o controle dá-se através de uma lavagem cerebral, pelo negacionismo, pelo racismo, pelo consumismo. Acho o cinema importantíssimo pela capacidade que tem de entrar pelo plano dos olhos e ouvidos, mexe com o corpo inteiro, provoca emoções. Você projecta a sua vida na tela, muda a sua visão sobre determinados aspectos da vida, se descobre numa sala de cinema. Sala de cinema para mim é um templo sagrado, onde se pode ter revelações sobre os próprios sentimentos, sobre nós mesmos e a nosso mundo evidência. Vejo o cinema como uma ferramenta das mais poderosas, no sentido de provocar imersão, que pode, inclusive ser colectiva, porque numa sala de cinema a emoção de um contamina o outro. A gente percebe que as emoções mudam se estamos em casa vendo um filme sozinhos, ou numa sala de cinema. O cinema tem esse poder transformador, por isso é que também é muito controlado.

Acredita que a indústria do cinema pode contribuir para o desenvolvimento económico e social?

Não tenho dúvida que o cinema tem um papel relevante a exercer no mundo em termos sociais, abrir as mentes, gerar empatia, combater o racismo, o supremacismo, que são doenças mentais e emocionais, acho que o cinema tem um papel importantíssimo como indústria mesmo, não o cinema artesanal ou periférico, mas sim o cinema que tende a ser central, universal. É uma ferramenta tão poderosa que noto algumas distorções, por exemplo, não sei como é na Europa, mas no Brasil, fazer um cinema popular, não apenas para as camadas menos assistidas, mas popular no sentido transversal, para pegar de A a Z, é sinónimo de desqualificado, de populacho. Eu não vejo assim. Acho que é possível fazer um cinema popular de qualidade, atingindo o iletrado e com a mesma intensidade, um expert no assunto em questão. É assim que tenho trabalhado. O meu filme “Atlântico Negro- Na rota dos Orixás” andou pelo mundo, esteve em Cannes e em centenas de festivais, foi muito premiado e reconhecido até hoje, tem 23 anos mas continua a ser exibido. Há pouco tempo no mês da Consciência Negra no Brasil, “Atlântico Negro” passou em diversos lugares, diversas plataformas e Centros de Resistência da Negritude no Brasil.  É um filme que atinge pessoas que não tiveram a hipótese de se alfabetizar, mas entendem e se emocionam e pessoas, digamos, mais linha de ponta na liderança do Movimento Negro, dos Direitos Humanos, das relações Brasil/África também se encantam com o filme. Então é possível atingir de A a Z, é trabalhoso, é engenhoso, requer um trabalho muito de equipe, onde se pode congregar os vários saberes do tema em questão, mas também da narrativa, criar cinema, de facto, para não ser uma aula de História, mas sim cinema.

Acredito muito no poder do cinema, de ser universal, pode-se comunicar, não só com vários extractos sociais, mas também com vários povos e culturas. Está acontecer com o filme “Pureza”, fiz com a intenção de ser um filme universal. Qualquer pessoa é capaz de entender o drama de uma mãe que perde o filho para o trabalho escravo, é compreensível no Brasil, em países europeus, em qualquer país da Ásia. Um esquimó pode se emocionar com essa estória. Tenho buscado estórias universais, que têm a capacidade de comunicar com diferentes povos, culturas, idades, extractos sociais, níveis de formação diferentes, acho o cinema uma linguagem universal e deve ser usada como tal.

Os seus filmes nunca foram para a Netflix? Como tem feito a sua divulgação, em que plataformas?                    

A Netflix trabalha muito com o centralismo do eixo Rio/São Paulo. Tem um olhar muito pouco atento para o resto do Brasil, já tentamos passar na Netflix vários projectos sérios, até mesmo o Pureza, nunca conseguimos nada. A Gaya Filmes está em Brasília e parece que a Netflix não tem um olhar para o Brasil como um todo, tem um olhar só para o foco económico não para o cultural. O foco cultural do Brasil já se expandiu para todo o país, aliás nunca esteve só no eixo Rio/S.Paulo, em termos de visibilidade sim, porque a grande Media está lá, houve um centralismo, não porque não existia cultura, mas não era observada, não lhe era dada relevância. Também porque o Brasil é cheio de vícios. Por exemplo, até agora não saiu nenhuma reportagem sobre o filme Pureza na grande Media. Eles ignoram, já saíram matérias extensas na BBC, na DW. Isso se deve a não valorização do próprio Brasil. O Brasil tem muita dificuldade de olhar para si próprio. O país é muito grande. Criou-se uma visão muito estreita em torno do eixo Rio/São Paulo que deveria se orgulhar de um Brasil muito maior, mas não têm tido essa visão, nem a capacidade de enxergar um Brasil maior, por um vício supremacista também.

Faz muitos programas para a televisão?                                                  

Sim, trabalho com Televisão e Cinema. A Gaya Filmes tem feito trabalhos para alguns canais importantes, como o canal Curta que, por acaso, fica no Rio de Janeiro. Os canais de televisão estão todos no eixo Rio/S.Paulo. Não há canais de TV fora dessa área económica relevante. O canal Curta é um dos canais que tem uma visão mais abrangente. A série “Consciência”, da Gaya Filmes, passou nesse canal, o tele-filme “Ventos que sopram do Maranhão” sobre a música do Maranhão, “Ventos que sopram do Pará” sobre a música do Pará também.

Agora estamos fazendo Libertários para a TV Cultura de São Paulo, a série Consciência, que colocamos em 64 países da Amazon Prime. Estamos conquistando espaço passo a passo. Mas a grande Media nacional não tem um olhar para o Brasil como um todo. Isso nos ressente. Assim como a Netflix não tem esse olhar. Contudo, há canais que têm a capacidade de enxergar o país e suas riquezas culturais, riquezas que considero um tesouro mesmo.

Concorda que as televisões trabalham para uma audiência pouco interessada na vida real e busca fantasia e sonho nos programas televisivos?

O mercado da novela não acompanho muito, é outro tipo de dramaturgia, que não faço. Acho que a novela tem um carácter mais de entretenimento, não muito ligado a conteúdos verídicos. Eu diria que o público hoje quer a realidade, na minha visão, o interesse pelo real está crescendo porque todos precisamos ter ferramentas para sobreviver num mundo que está ficando muito confuso, quem não tiver ferramentas pode não sobreviver, economicamente e não só. Então acho que o conteúdo com base no que é verídico está em alta, está crescendo. As pessoas vão precisar cada vez mais do contacto com a realidade para poder tomar decisões, inclusive, de vida. A questão do entretenimento puro, que na verdade pode nos esvaziar, porque você estará queimando o seu tempo, isso vai perder relevância. As pessoas não vão ter tempo para perder, terão que se alimentar de coisas importantes para poderem tomar decisões importantes. Acredito que por isso, o mercado editorial cresceu durante a pandemia, as pessoas precisavam ler, se informar e se alimentarem do real para tomar decisões.  É o que está em voga, porque houve um esvaziamento, uma superficialização da cultura, mas hoje, quem está preocupado em sobreviver sabe que não pode ficar na superficialidade, porque aí não encontra respostas e as pessoas vão precisar respostas reais para as suas vidas.

Como cineasta você busca uma realização pessoal independentemente da aceitação do público?

Um guru da comunicação dos anos 70 planteava que existe o artista o auto-expressão e o artista antena. O auto-expressão foca-se em expor os seus conteúdos na tela. O meu interesse é expor conteúdos que considero colectivos que me afectam, tocam-me e me emocionam.

Não seria capaz de fazer um filme que não me toque profundamente, considero-me um cineasta  conectado e com uma preocupação com o mundo, com as questões sociais, Direitos Humanos, questões estéticas dentro do Universo dos Direitos Humanos e sociais, a desigualdade e a destruição ambiental, tudo isso me afecta muito e julgo que tudo isso não prescinde de um aprofundamento, cada vez maior, como objecto da narrativa, de como construir a linguagem cinematográfica de maneira mais penetrante, mais impactante. É o que busco, um cinema de impacto, seja na televisão, séries de TV, seja longa metragem, para tela grande ou pequena. Tento fazer filmes de impacto, que ajudem as pessoas a posicionarem-se neste mundo muito confuso e desafiante. Posso dizer que faço filmes não para fazer o gosto do público, no sentido raso da palavra, mas sim no sentido de impactar esse público, levá-lo a reflectir e sentir emoções.

Tenho uma grande preocupação em chegar ao outro. Não é: “venha a mim quem quiser, quem me atingir me atingiu quem não atingir não me atingirá”, NÃO. Acho isso um pensamento elitista. Sinto a maior preocupação e interesse em que o conteúdo no qual estou trabalhando, atinja, chegue no outro. Mas o conteúdo tem que chegar em mim profundamente para eu poder chegar no outro depois, tenho que ser atingido também. De jeito nenhum abriria mão dos meus sentimentos e valores, pelo contrário, estou engajadíssimo nos meus sentimentos e valores, mas com a preocupação de chegar ao outro, por isso faço um cinema universalista.

O seu filme Atlântico Negro – Na rota dos Orixás também foi muito premiado?

Sim, é um filme que foi exibido nos EUA, Europa, África várias vezes. Todas as vezes que o Presidente Lula fosse ao continente africano inaugurar uma embaixada e inaugurou muitas, fez possivelmente a maior aproximação com África, da História do Brasil, o Itamarati que é o Ministério das Relações Exteriores do Brasil levava debaixo do braço o filme Atlântico Negro, que está em várias línguas eu vou legendando todos os meus filmes em várias línguas.  Esse filme foi muito exibido e muito apreciado nos EUA, o que me espantou, porque acho que os EUA têm uma leitura muito própria sobre África. A minha visão é de uma mundividência brasileira, pensei que não seria uma contribuição reconhecida pelos EUA.  Das expressões culturais africanas, o canto é muito visível nos EUA, já os tambores, nos EUA foram silenciados. No Brasil aconteceu o contrário, o canto perdeu força, talvez por repressão à palavra. O canto não é tão expressivo no Brasil quanto nos EUA, mas já os tambores, no Brasil falam, falam línguas e muitas línguas. É algo que nos remete a coisas ancestrais. É curioso ver como a África acabou evoluindo de forma diferente nos vários países. O filme Atlântico Negro gerou um grande impacto nos EUA, é muito apreciado em Universidades, foi disputado, até várias distribuidoras me procuraram e acabei fechando com a melhor oferta. Nos EUA esse filme foi a inúmeros festivais. Isso nos realiza, porque os EUA são auto-suficientes no áudio visual, produzem a grande indústria de cinema, mas reconheceram a contribuição do filme Atlântico Negro.

É algo que fortalece a tese da universalização que busco, de nos comunicarmos com os EUA, com a África, Europa, com Ásia, porquê não? O filme “Pureza” esteve no Festival de Xangai. Na História do Brasil há coisas que dialogam com a Ásia, o processo radical de urbanização que aconteceu no Brasil logo depois aconteceu na China. A China tem o elemento rural muito presente, o Brasil também tinha antes de ser urbanizado, o imaginário rural ainda está presente nas famílias, mesmo dentro das cidades, os valores do mundo rural estão muito presentes. Daí, desejo muito que o “Pureza” possa caminhar na China também.

*Jornalista. Especial para www.jornalokwanza.com

 

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