FREI JOAQUIM JOSÉ HAGALO EM EXCLUSIVO:

“A Comunicação Social pública é a que mais danos tem causado a qualquer tentativa de se criar um ambiente democrático”

A sua voz dá vida a pensamentos que o levam a autodefinir-se como “incómodo”. Ela (a voz) ecoa – nesta sua primeira entrevista a este hebdomadário – a partir de Roma (Itália), para onde se mudou de “mala e cuia”, há já alguns anos, para viver e laborar. A palavra é o único meio de que dispõe para se “indispor” contra a(s) injustiça(s), abusos de poder e a governação do País. Quando dá voz aos seus pensamentos, abala as estruturas do Poder, açula os “patrulheiros ideológicos” destacados nas Redes Sociais, deixa a bófia com o pelo “eriçado” e desperta paixão e interesse entre os membros da Sociedade Civil. Leia a “voz” de um filho da Chibia (Huila-Angola), Joaquim José Hangalo, de sua graça, que, sempre que pode, desmonta as verdades do poder com o poder da verdade na ponta da língua ou nos dedos que não se cansam de “bailar” sobre o teclado de um computador para verter os seus pensamentos criticos para o Espaço Público quando o assunto é trazer à liça os problemas “que estamos com eles (sic!)”.

Jó Soares

Que a Paz de Cristo esteja consigo!

Amén!

 O senhor tem-se notabilizado nas Redes Sociais por chamar as coisas pelos seus próprios nomes e colocar todos os seus dedos nas feridas dos problemas do nosso País. Por isso, há quem diga que está mais para activista político do que para ministro de Deus na Terra. Quer comentar?

Na verdade, o grande problema do nosso contexto político é a ignorância e a improvisação. Muita gente não tem uma noção do que é a Política e a confunde com a militância partidária ou com o desempenho de algum cargo público de Governo. E para piorar, também não sabe qual é a missão de um ministro de Deus nas suas mais diversas declinações. Acontece que tanto a Política como o ministério sagrado existem para o bem da pessoa humana. A “vocação” da Política é a busca do “bem-comum”. Ou seja, a criação de condições para que cada pessoa ou comunidade humana se realize com satisfação. A missão do ministro de Deus é igualmente a de trabalhar para esta “vocação” da Política e velar para que a dignidade do ser criado à imagem e semelhança de Deus seja sempre garantida e onde não é garantida, o ministro de Deus deve denunciar. A vocação do ministro de Deus expressa-se na forma de anúncio e denúncia. É profecia. É só isso que tento fazer e mais nada.

Está a fazer jus à Doutrina Social da Igreja?

Sim. Os princípios da Doutrina Social da Igreja permitem analisar e perspectiva crítica situações e ideologias existentes e sinalizam a direcção correcta. De recordar que os pilares da Doutrina Social da Igreja são: o princípio do bem-comum, o princípio da solidariedade e o princípio da subsidiariedade. Leio a realidade à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Apenas isso!

 A direcção da Igreja (Católica) não o incomoda pelas suas intervenções nas Redes Sociais?

Não existe uma “direcção” da Igreja Católica, existem muitas direcções. Nas dioceses, os bispos são os chefes da Igreja nas suas dioceses. Eu pertenço a um instituto religioso, a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e dependo dos superiores da minha Ordem. Para responder à sua pergunta, não, não me incomodam. Acho que o incómodo sou eu. Houve circunstâncias em que se mostraram preocupados. Preocupam-se comigo e com o que pode acontecer-me. Houve situações em que as consequências sobraram para os meus confrades (risos). Mas é tudo tranquilo. Todos sabemos que buscamos o bem do povo de Deus. Anunciamos o amor concreto de Deus para com os homens e dos homens entre si e denunciamos o mal e as injustiças. Cada um do seu jeito. Eu faço pelas Redes Sociais e onde der. Mas também trabalho em projectos concretos.

Por que razão se autodefine como “incómodo”?
Na verdade, acho que por vezes vejo as coisas a partir de um ângulo muito diferente dos outros e não consigo entender o que os outros percebem. Tentando ser coerente com a minha perspectiva, tenho consciência que acabo sendo chato para quem olha a partir de outro ângulo. Mas é algo que não me preocupa. Jesus Cristo também foi um grande incómodo.

Esteve recentemente em Angola. Chegou a fumar o “cachimbo da paz” com o ministro de Estado e chefe da Casa Militar do PR, General Francisco Furtado, depois de terem trocado galhardetes nas Redes Sociais?

 Não me encontrei com o General Furtado. Cheguei no auge da campanha eleitoral e evitei qualquer encontro com pessoas “politicamente expostas”. Mas com certeza haverá alguma ocasião boa para encontrá-lo. Mesmo nas Redes Sociais as águas depois assentaram-se. Ao menos é o que percebi.

Crê que terá sido mal-entendido pelo referido General?

Estou convencido que o General (Francisco) Furtado tinha já algo para dizer-me e disse-o fora do contexto. O texto a que ele reagiu com ameaças explícitas onde aparece a expressão “vão apanhar no focinho”, falava do erro na gestão da morte de José Eduardo dos Santos. Eu dizia que os procedimentos eram errados, tanto do ponto de vista da mundividência cristã, como do ponto de vista das mundividências conhecidas das culturas e tradições dos mais diversos povos angolanos. Mas é algo normal. Lido com estas situações de forma tranquila e vertical.

 A gestão da morte de José Eduardo dos Santos não foi bem feita?

 Absolutamente, não! Não é daquela forma que se gere a morte de um ancião. Nos detalhes não se passou uma lição positiva à sociedade e na Espanha alguns jornais chegaram a usar expressões do tipo “os africanos como sempre…”.  E repare que a batalha acabou num grande desastre. O corpo de José Eduardo dos Santos chegou num porão como carga qualquer e percebia-se que era tudo improvisado. Se alguma “vitória” saiu daquela confusão, é uma vitória de Pirro.

Terá havido a intenção dolosa de humilhar um homem morto e a sua família?

Para lhe ser sincero, a única coisa que percebi naquela confusão foi a muita falta de juízo. A humilhação de José Eduardo dos Santos aconteceu enquanto ele estava vivo. José Eduardo dos Santos foi condenado ao ostracismo pelo partido (MPLA) que ele liderou por vários decênios e acusado de ser o único ou, ao menos, o principal culpado pelo descalabro da Nação angolana. O papel da família, se de família se pode falar, também não foi grande coisa. Nem parece que o senhor tinha família além da Tchizé (dos Santos), que não parou de fazer confusão e ficou-se sem perceber a forma dela expressar a dor pela perda do pai.

Falta de juízo da parte de quem?

Falta de juízo de todas as pessoas envolvidas direitamente naquilo que deveria ser um óbito e virou um “thriller trágico” com recurso a tribunais, trocas de acusações em todos os canais imagináveis e possíveis, manipulação de informações nas TVs públicas. Simplesmente uma grande vergonha. Familiares e delegações enviadas pelo Governo do MPLA não tiveram um papel exemplar. Foi mesmo algo semelhante ao que eles gostam de chamar “arruaça”. Gostava de saber se alguém ficou feliz com tudo o que aconteceu. Suspeito que não.

 Reza a história que os líderes do MPLA acabam sempre ostracizados e humilhados…
Pelo que podemos ler das crónicas do tempo, embora tenha sido uma morte envolta numa nuvem misteriosa que apela a uma espécie de conspiração soviética, parece que Agostinho Neto teve a homenagem elevada ao nível da figura que representava na altura. A sua figura eclipsou-se com o tempo. Mas é próprio das mentalidades comunistas do chefe absoluto, único, insuperável, sem igual na memória histórica. Mas vemos de novo a ser “resgatado” e não sei se a intenção seja “eclipsar” a figura de José Eduardo dos Santos. Vamos ver o que se segue. Aproveito aqui para dizer que não se pode construir uma Nação de figuras de referência. Pode-se criticar, mas não se pode pretender ignorar o impacto de algumas pessoas na História da Nação. Como diz Edmund Burke “Um povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la”. Precisamos da nossa História com os seus personagens. Se existe esta percepção, é importante que o MPLA pare e reconsidere algumas coisas sob pena de autodestruir-se.

Como acha que João Lourenço vai acabar depois de ter conferido o tratamento que conferiu ao seu predecessor, ainda em vida e depois dela?

Para ser sincero e com toda a honestidade, devo dizer que não consigo perceber nada do pensamento de João Lourenço. Com a falcatrua das últimas eleições acho que ele está a coleccionar perigosamente muitas “vitórias de Pirro”. De lembrar que a expressão “vitória de Pirro” constitui uma metáfora para descrever uma vitória que, de tão esforçada e sacrificada ou de tão violentamente conseguida, quase não vale a pena alcançar, sendo praticamente inútil e prejudicial para o vencedor.

Falcatrua?!

Falcatrua é artifício com que se engana alguém; logro; fraude; despropósito, torpeza; ardil, engano, fraude, trapalhada. Roubo. É um artificio…

João Lourenço é um Presidente da República legal ou legitimo?

 Como foi “legalizado” pelo Tribunal Constitucional, é “legal”, para assim dizer. A legitimidade refere-se à aceitação social do acto e, por isso, está relacionada com o Estado Democrático. E todos sabem que João Lourenço não tem aceitação, inclusive dentro do próprio partido

Por que razão é que ele não tem aceitação, incluído dentro do próprio partido, como sublinha?

 Não saberei dizer as razões das outras pessoas. Mas um artigo recente de Rafael Marques no portal makaangola.org, por sinal apoiante de João Lourenço, fala de um “aparente desprezo pela voz do povo e pelos quadros do MPLA” por João Lourenço e o descreve como “arrogante e teimoso”. Pode ser isso tudo e mais alguma coisa. A mim a figura de João Lourenço nunca impressionou já que ele vem do Governo de José Eduardo dos Santos e nunca o vi a fazer nada diferente. Dei um tempo para ver no que dava e percebi que a “emenda saiu pior que o soneto”

 José Eduardo dos Santos enganou-se ao escolhê-lo no seio de inúmeros quadros do MPLA com talento político?

João Lourenço é um militar e não é um político. Nem o facto de estar no cargo de Presidente da República faz dele um político. Não conheço os meandros do MPLA. Na altura ele era ministro da Defesa. Nos partidos comunistas os que “mandam” são os Secretários do Partido e não acredito que ele na altura era secretario do partido em algum segmento. Seria muito interessante saber porque José Eduardo o escolheu.Que se tenha enganado? Também não sei dizer porque não sei como seria acertar. A única forma de acertar seria escolher alguém que logo a seguir se afastasse do MPLA e começasse a pensar o País como uma Nação de diversidades que se harmonizam.

Que glórias está a ter o Pais com João Lourenço?

Num Pais onde morrem cidadãos de fome, falo de morte efectiva por fome, não se pode falar de nada positivo. É um País fracassado. Uma Nação existe enquanto Nação se a sua principal tarefa é a de cuidar dos seus membros. Se morrem membros de fome e por descuido, a nação fracassou. A pessoa humana é o único critério para medir o sucesso ou o fracasso de uma Nação. A situação da maior parte dos angolanos é catastrófica.

 Mas a fome em Angola não é “relativa (sic!)”?

 Em filosofia uma afirmação desta no contexto angolano, corresponde ao chamado “paradoxo do mentiroso”. Mais comentários não creio que sejam necessários. Foi uma afirmação completamente irresponsável.

 Lançando um olhar holístico para o País político, que Angola temos?

 Um País de incertezas, confusão e sem perpectivas claras. Um País com futuro apenas nas calendas gregas, se o MPLA continuar a ser MPLA. Mas graças a Deus, eu acredito nas mudanças. Não sei como, mas tenho fé que as mudanças vão acontecer o mais rápido e cedo possível. Só precisamos de continuar a construir o “sonho angolano” com sabedoria e aprendendo cada dia.

O MPLA ganhou ou não as eleições gerais de 24 de Agosto?

 Todos sabem que o MPLA não ganhou as eleições de 24 de Agosto de 2022. Inclusive o próprio MPLA. O processo eleitoral foi eivado de erros de palmatória e baseado em dados falsos. Não existem 14 milhões de eleitores e isso foi dito pelo então ministro da Administração do Território e Reforma do Estado, Marcy Lopes. Quando no fim a CNE baseia o seu relatório em dados falsos o que se pode deduzir é simples. De dados falsos não se podem obter dados verdadeiros.  As instituições do Estado prestaram um péssimo serviço à Nação e a vitória de que o MPLA quer atribuir-se é uma “vitória de Pirro”. No geral, tenho vindo a falar de uma derrota para a Nação angolana. Um grande e triste retrocesso. O nosso principal e grande problema é a corrupção. Não sei por que lógica…

Corrupção é um vocábulo que não fez parte do discurso de tomada de posse de João Lourenço para o segundo mandato. Por que será?

 Para ser sincero, não ouvi o discurso e nem vou ouvi-lo. O combate à corrupção não pode ser programa de Governo. É tarefa da Magistratura, mas de uma Magistratura séria e comprometida com o bem da Nação e não desta magistratura vassala do MPLA. Neste momento acho que a principal prioridade de Angola deve ser a educação e a construção de estradas. O povo angolano é um povo trabalhador. Com estradas, o povo sozinho dinamiza a Economia e com a Educação prepara-se profissionais com capacidade criativa e de inovação. De resto, o “badalado” combate à corrupção foi um grande fracasso e teve-se que recorrer à corrupção para criar confusão no processo eleitoral que acabou numa grande farsa.

 A magistratura angolana é vassala do MPLA. Esta afirmação soa à generalização….

Os magistrados sabem que não têm a independência que a categoria deles “estipula”. Um dos problemas da não efectivação do Estado Democrático e de Direito é exactamente devida a uma magistratura decorativa. Se fosse para indispor-se, os magistrados deveriam indispor-se com João Lourenço que disse que só se dedicavam a “prender ladrões de galinhas”. Quando ele disse isso, nenhum magistrado pronunciou-se. Podem indispor-se, mas isso não muda os factos.

Quais são as instituições que mais tem contribuído para não materialização das liberdades fundamentais em Angola?

 Infelizmente tenho que dizer que a minha percepção é que tudo que é instituição “tradicional”, incluído igrejas, não têm vindo a contribuir adequadamente para aquilo que é o “desenvolvimento humano”, onde se enquadram as liberdades fundamentais e outros direitos.

 Por que razão há mais presos políticos agora em Angola que no tempo de José Eduardo dos Santos?

Não sei se em proporção temos mais presos políticos agora ou no tempo de José Eduardo dos Santos. É um assunto ao qual nunca dediquei tempo. Mas o facto é que as prisões arbitrárias e outras arbitrariedades continuam no “mesmo” ritmo e tom. Ao menos esta é a minha percepção. O clima de medo para quem pensa diferente continua agudo. É terrível pensar que todo mundo tem quase certeza de que quem pensa diferente e diz o que pensa pode ser preso ou morto a qualquer momento. O clima de medo continua igual.

Que papel tem jogado a Comunicação Social pública para que a democracia em Angola seja um facto?

A Comunicação Social pública é a que mais danos tem vindo a causar a qualquer tentativa de se criar um ambiente democrático. Existem alguns meios de comunicação social independentes que têm vindo a tentar criar equilíbrio na balança. À esses juntam-se as Redes Sociais. Este “segmento” tem sido o respiro e o sopro de esperança para o desabrochar do sonho angolano que tenho certeza que vai acontecer.

Comunga da ideia de que Angola seja um Estado ditatorial?

Não comungo desta tese e não existem elementos objectivos para falarmos disso. Temos mais desgoverno e confusão. A verdade é que no meio disso tudo temos tido vítimas inocentes em circunstâncias que fazem com que algumas pessoas falem de um “Estado ditatorial”.  Aliás, não existe Estado ditatorial. Ditatorial seria o Governo. Mas acho que não chegamos a tanto e não vamos chegar. Há uma grande parte da população angolana que se acredita como família e luta para que esse espírito prevaleça. E acredito que é este espírito que vai triunfar e prevalecer.

 

 

 

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