JAIME AZULAY

Será que ainda vives Hakizimana?

Hakizimana intrigou-me desde que nossos olhares se cruzaram no corredor de uma pensão de segunda categoria na colina de Nyamirambo. Foi um dia que já

deixei perdido na névoa do passado. O menino escondia catorze anitos num corpo seco e longilíneo, com os ossos salientes bem marcados na pele negra e brilhante. Os seus olhos eram grandes e distantes como são todos os “tutsi” que encontrei no Ruanda, uma pequena nação encravada no coração de África, conhecida também pelo exótico nome de “País Das Mil Colinas”.

Em Kigali, a capital, cruzei com centenas de garotos com a idade e o mesmo corpo franzino de Hakizimana. Contudo, nenhum deles despertara tanto a minha atenção como o rapaz enigmático que conheci numa residencial de Nyamirambo.

Sempre pela manhã eu olhava de longe a sua sombra esguia deslizar à socapa pelo corredor, recolhendo a roupa dos hóspedes. Era imperturbável como uma parede de betão. Flutuava depois com a trouxa entre os braços para a lavandaria que ficava no centro de um “U” formado pelo corredor onde se alinhavam os quartos.

Hakizimana era esquisitamente taciturno e silencioso. Demonstrava notável capacidade para chegar perto sem ser pressentido. Afinal ele era um “Tutsi”. Os “Tutsi” gozam da fama de serem guerreiros altivos e organizados. Seus ancestrais vieram de um território onde se situa hoje a Etiópia, no chamado corno de África. No espaço que confina o actual Ruanda, os “tutsi” encontraram os “hutu”, um sub-grupo bantu, que se dedicava às lides da terra como sua actividade principal. Praticando uma agricultura em moldes primitivos e com uma estrutura organizativa e social débil, os “hutu” foram dominados pelos “tutsi”. Desde os primórdios, a convivência entre as duas etnias ficou marcada por períodos de relações de ódio exasperado.

Todos os dias eu ficava olhando o garoto. Percebi que havia coisas que precisava entender ali. Havia certamente um problema grave que eu não encontrara bem explicado quando consultei os relatos históricos debitados pela Bélgica, a potência colonial. Notei que existia algo de mais pessoal que tinha de desvendar. Em cada dia que passava, Hakizimana ia aumentando a minha curiosidade. A dada altura não tinha mais dúvidas: o garoto da hospedaria de Nyamirambo era a porta para chegar a esse conhecimento. Havia que franqueá-la calmamente.

Porque Hakizimana afinal não ia à escola? Depois de algum tempo observando, mesmo sem ter propriamente conseguido estabelecer uma boa amizade, fui notando que despertara também alguma simpatia nele. Aos poucos a corrente ia passando entre nós. Inexoravelmente, me fui tornando cúmplice do drama do menino ruandês e passei a sofrer muito com isso.

Certa vez, reparei num profundo sulco cicatrizado que lhe atravessava o dorso seco de um lado ao outro. Surpreendido, tentou rapidamente esconder a marca com os retalhos da camisa, mas fui a tempo de deter a sua intenção. Segurei-lhe firmemente o braço. Ele entendeu que eu queria saber o que era aquilo afinal. Com um gesto rápido indicou-me que lhe tinham atingido com uma catana ou algo parecido. “Quem deu o golpe, Hakizimana?”- perguntei. “Foram eles”,- respondeu-me num francês inexpressivo, enquanto o seu indicador trémulo apontava vagamente, sem direcção. Hakizimana era, sem dúvidas, mais uma testemunha silenciosa da crueldade absurda do tribalismo ruandês.

Neste país os “Tutsi” e os “Hutu” nutrem reciprocamente um ódio mortal que ciclicamente é atiçado por líderes radicais. Por mais de uma vez redundaram matanças que tocaram as raias do genocídio. Em 1994, o então presidente Juvenal Habyarimana foi morto durante um atentado contra o seu avião, no momento em que aterrissava no aeroporto de Kigali. Habyarimana era um hutu. A sua morte desencadeou uma caça ao homem que rapidamente se transformou em genocídio. Foram dizimados mais de 800 mil pessoas. A maioria das vítimas eram da etnia “tutsi “mas com eles foram eliminados igualmente milhares dos chamados “hutus” moderados.

Na altura, o regime de Habyarimana enfrentava uma forte rebelião desencadeada pela Frente Patriótica Rwandeza (RPF sigla em inglês) liderada por Paul Kagame e integrada maioritariamente por militares de origem “tutsi”. Tendo como pano de fundo o secular antagonismo étnico latente no país, o atentado contra o avião presidencial de Habyarimana foi de imediato atribuído ao então coronel Kagame e ao seu exército “tutsi”. Dai seguiu-se a matança. No entanto os rebeldes conseguiriam, pouco tempo depois, tomar o poder em Kigali e Kagame se tornou presidente.

Enquanto aguardava por Faina que prometera levar-me ao parque Akagera, eu olhava os movimentos esguios de Hakizimana na lavandaria. Desenhava gestos cadenciados e harmoniosos quando batia a roupa molhada contra a tábua de lavar. Uma manhã, ao ver-me assomar à porta do quarto, deixou seu rosto seco abrir-se num sorriso de generosa simplicidade. 

Fonte: Facebook

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