MARCOLINO MOCO

Senhor Presidente, pare de pôr o País em alvoroço!

Esta era a minha espécie de mensagem de Ano Novo. Aproveito para agradecer os cada vez mais crescentes apoios a todas as minhas mensagens anteriores, que são, especialmente provenientes de jovens. Sendo todas as minhas mensagens pacíficas, isso é um sinal muito bom para mim e para o País. Entretanto, muitos consideram-nas demasiado embaraçosas, porque dirigidas, especialmente, contra o Executivo do PR JLO, meu antigo companheiro do partido MPLA e que até bem pouco tempo me ofereceu um cargo muito bem apetecido que aceitara por expectativas que logo se diluíram.

A esses mais uma vez peço que entendam que, desde jovem, ao aderir a um partido que inicialmente tinha até pouca implantação na região onde eu nasci, cresci e me formei, nunca tive nas minhas contas que o fizesse no sentido de resolver as questões ligadas ao meu status, especialmente de ordem material. Dentro do MPLA, quando se tornou visível que o modelo político, económico e social, entre 75 e 91, não era o mais adequado para a estabilização do País, sabem os que comigo trabalharam no MPLA, que fui dos membros mais activos para as transformações que conduziram à instituição do Estado democrático e de Direito que proclamamos.

Reatada a guerra, mesmo ainda exercendo o cargo de Primeiro-Ministro (cargo exercido há cerca de 30 anos, mas que alguns entendem dever-me obrigar a calar-me perante os problemas de hoje, por gratidão a quê e a quem?) e depois na CPLP, a História documenta as minhas intervenções em prol da paz que devia ser alcançada a todo o custo, porque aquela guerra não fazia sentido.

Tanto não fez sentido que a suposta derrota militar de uma das partes, só agravou, afinal, os problemas, porque os supostos vencedores passaram a fazer do Estado angolano um brinquedo para os seus jogos de poder e opulência. Não falo nem da fome, nem da indigência da maioria do povo e da sua classe média, muito menos da corrupção que são consequências da destruição das instituições que vou enumerar, só para recordar o que, afinal, toda gente vê, com olhos de ver.

O que vinha já de algum tempo, quando a ala chefiada pelo Secretário-Geral Lopo de Nacimento, à qual eu pertencia, foi afastada da direcção, no Congresso de 1998, foi formalizado quando, em 2010, o MPLA, ante manobras e mais manobras do PR JES e dos seus homens do Palácio, decidiram atar o destino do MPLA e de Angola ao Presidente do MPLA, da República e candidato às próximas eleições.

Hoje, mesmo quem não queira votar no actual PR que é presidente do MPLA, por atitudes tão reprováveis quanto as que se vêm a olho nu, desde que seja fervoroso e indefectível adepto do MPLA, por diversas razões como geracionais, étnico-regionais, defesa do estatuto material, etc. etc., é obrigado a aceitar todos os incêndios mandados atear pelo chefe supremo e votar no Presidente.

Acabo de ler uma mensagem de Sua Excelência Reverendíssima o Arcebispo Emérito da Huila, Dom Zacarias Kamwenho, a propósito da comemoração do 20º aniversário da recepção do Prémio Shakarov, pela sua contribuição corajosa, para o fim do conflito armado em Angola.

Numa das passagens dessa mensagem, há esta afirmação muito significativa: “…só o Senhor Presidente tem o PIN e o PUK de salvar Angola….”. E eu pensei: afinal não ando a pensar nisso sozinho. Na verdade, no fim da guerra e com esta Constituição, todos os queijos e facas foram entregues a uma só mão, o que tem muitas vantagens quando se acerta e demasiadas desvantagens quando se erra.

O que fez o Senhor Presidente com todas estas facas e queijos, em 2021? A priorizar o dito “combate à corrupção”, acabou definitivamente com os instrumentos mais idóneos para o combate à corrupção: deu as últimas facadas aos tribunais superiores, que agora só ficaram no nome e nos papéis; de forma perfeitamente audível, consolidou o controlo palaciano aos meios de comunicação social mais relevantes; fez uma perfeita demonstração de como o Parlamento, dominado pelo seu partido, não tem que subordinar-se a qualquer ordem de ética e moral políticas, quando se trata de criar instrumentos para a manunteção do poder do MPLA, que não é mais do que o seu próprio poder.

Por isso temos que 2022 é uma bomba armadilhada. Porque em nenhuma parte do mundo, onde as eleições sejam justas, livres e transparentes, um partido governante ganha eleições, da forma como estão as coisas neste País. No entanto, o Senhor Presidente manda dizer “já está”, diante de medidas de exclusão tão evidentes. E já se vêem ensaios sobre quem vão recair as culpas: supostos generais da UNITA que mesmo sem quartéis, nas matas ou cidades, estão, supostamente, a preparar guerras ficcionadas em mensagens que só quem está distraído e não conhece os métodos antigos, não verá que se trata de montagens.”

Não estou a mentir, amigos. Eu estava a terminar de escrever a mensagem que acima coloquei entre aspas, quando ouço o Presidente da República, na “colectiva” de quinta-feira passada, transformar o que devia ser uma mensagem conciliadora, de alguém que é chefe de Estado, em momento tão delicado, num repente de ataque à oposição, na sua busca legítima pela alternância, na moda ocidental que todos nós escolhemos, com aquela coisa “daqueles que mobilizam jovens para as arruaças”; e mais uma vez, aquela coisa da transferência para os “tribunais” de competências que não têm, em matéria de exclusão de indesejados  para a disputa do poder político, nem que seja necessário remover juízes na última das horas, como se faz aqui por algumas “áfricas”, que gritam, no entanto, a sete ridículas gargantas, que estão a construir sociedades puramente democráticas e de direito, como em França ou Portugal.

Assim, nesse atraso para corrigir o “português” na minha “mensagem de ano novo”, para não irritar os mais sensíveis nessa matéria, surgem os horripilantes acontecimentos do dia 10. E ontem a subsequente mensagem do Presidente João Lourenço, já a prever a quem “os tribunais” vão atribuir as culpas. E as nossas TPA’s, a “bater no ferro quente”, “talqualmnente” no tempo do meu conterrâneo Ndunduma we Lepi.

Sei perfeitamente que nem todos terão culpa para a situação a que estão a ser arrastados, senhores jornalistas e senhores juízes. Mas resistam até onde puderem. Não contribuam para que se repitam, nesse tempo, as tragédias do passado. Quando ao Senhor Presidente, acredito que ainda vai a tempo de considerar que métodos antigos já não funcionam neste tempo.

Reúna com a oposição e organizem, em conjunto, eleições verdadeiramente livres, justas e transparentes. Com isso aumentarão os seus votos e do MPLA, como se demonstrou pela simpatia que o Senhor granjeou, nos primeiros dias da sua governação. Prevejam uma espécie de situação transicional que deve ser divulgada, para que independentemente de quem ganhe, ganhe a paz e a tranquilidade definitiva de Angola e dos seus filhos. E ganhará muito o senhor Presidente, em termos de História.

Quase ninguém se lembra hoje que Winston Churchill perdeu as eleições que se seguiram ao fim da sua grande obra que foi a liderança positiva da guerra contra Hitler, na Segunda Guerra Mundial. Faz isso Senhor Presidente. Não continue a por o País em alvoroço e atribuir culpas a quem as não tem. Por favor.

Fonte: Facebook

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