BONIFÁCIO TCHIMBOTO*

Solução do problema de Angola não virá da alternância governativa

No país a vida está insuportável sob todos os pontos de vista. Aqueles que são guias omitiram-se das suas responsabilidades. A fome e a pobreza está apenas nos discursos, a degradação das vias de comunicação e das cidades não têm PIIM que valha, a hemorragia do erário nacional continua como ontem, a partidarização de serviços públicos é aviltante, a mentira refinada vem destilada pelos media públicos (ou melhor, privatizados), uma ignóbil caça às bruxas conduz jovens activistas a tribunais de juízes alinhados…. Fica-se com impressão de que nunca houve gestores públicos mais insensíveis. Mas é tudo isso fruto da malícia (má vontade) ou afinal da inépcia (incapacidade)? Respondam os que souberem.
2. E que tal da Igreja e de seus pastores? Onde está a reserva moral, aquela mãe e mestra da verdade? Os pobres clamam por um Evangelho libertador que tarda em chegar. É verdade que não está tudo perdido. Alguma voz aqui e ali está a gritar para denunciar alguma falcatrua. Algum bispo, algum padre, algum pastor, felizmente. Bem poucos. Outros estão calados, acomodados à mediocridade e a silêncios cúmplices. Há quem toma explicitamente partido com os opressores, aplaudindo-os publicamente malfeitores. Terão estes pastores lido o Êxodo, conheceram os profetas, são eles discípulos de Jesus? Não serão, por acaso, “inimigos da cruz de Jesus”? Vemo-los apenas buscando ovelhas gordas, lambendo os beiços ante dízimos sonantes. O povo de Deus quer e exige pastores “segundo o coração de Deus”, pastores que saibam que a “Palavra de Deus não está algemada”, como diz S. Paulo.
3. Académicos e homens de ciência, estas preciosas dádivas divinas inventadas para iluminar e guiar, também eles corromperam-se. Foram “comprados” pelo sistema, sacrificaram a verdade científica sobre o altar do tacho e vão ensinando lições encomendadas pela censura ou (pior) pela autocensura.
4. Apertados de todos os lados, vem-nos a ilusão de sempre: “se mudássemos de governo, se mudássemos o governo”? Talvez a justiça e o bem, há muito exilados, voltassem ao país… Ilusão! O problema do nosso país não virá da alternância por alternância de um governo. Nas condições em que estamos, os novos governantes haviam de corromper-se como os antigos. É o que estamos a ver de legislatura a legislatura. Os maus governantes, infelizmente, não são odiados, são invejados. Mais do que mudar o governo, é urgente mudar a nação toda. Aliás, sabemos todos que a qualidade de governantes virá da qualidade de governados. Nós, o povo, somos vítimas da nossa própria idiotice. Mudemo-nos a nós, mudemos os governados que mudarão igualmente os governantes, não importa de que partido vierem. Um povo exigente gera governantes honestos. Nesta altura, o problema já não será se o MPLA ou se a UNITA, mas se a Angola ou Angola. A nossa revolução é para a nação inteira, e é para já. É nisso que nos devemos unir, indo muito além das diferenças de partidos políticos, muito além da antinomia governantes e governados. Tocamos o fundo, nas a regeneração é possível hoje mais do que nunca, basta que os menos idiotas tenham um pouco mais de coragem.
5. “Twatwika ngo uso, katwavolele utwe” (olho furado não é cabeça apodrecida), ou seja, não está tudo perdido. Governantes e governados, mudemo-nos que Deus vai mudar a sorte do país. Amém.

 *Padre, investigador e Coordenador do Núcleo de Estudos de Línguas  e Culturas (NELIC) do Instituto Piaget de Benguela. Artigo retirado da blogosfera, retomado pel’ “O Kwanza” com a devida vénia do seu autor.

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