MOISÉS CHISSANO*

O dia seguinte dos (nossos) dirigentes e governantes

Ponto prévio: É antigo. Publiquei-o pela primeira vez há 10 anos. Volto a publicá-lo hoje para os mais novos.

Todos nós temos um dia seguinte. Assim está determinado. Só que há vários tipos de dia seguinte. Pode ser um dia seguinte há muito preparado e, por isso, há muito esperado, caso em que o mesmo é ou pode ser muito bem recebido. Pode coincidir com a hora do descanso, com a hora da mudança, mudança de ocupação, de profissão, enfim, pode representar o fim de um ciclo de vida e o início de outro, ou o fim de todos os ciclos de vida.

É, infelizmente, quando esta questão se coloca em relação aos cargos políticos que ela se torna complicada, mormente em África ou nos países em que a democracia está muito longe de se considerar consolidada. Ainda assim, penso muito honestamente que o dia seguinte nos nossos países nem por isso deveria constituir necessariamente uma grande “dor de cabeça”, fundamentalmente se considerarmos que os dias seguintes dos nossos governantes e dirigentes costumam, de uma maneira geral, ser bem preparados, pelo menos do ponto de vista financeiro. Se, depois de abandonarem o poder, ou de serem forçados a isso, terão a oportunidade de usufruir desse capital financeiro é outra questão. Não me parece que este receio de não poderem eventualmente gozar do poder financeiro acumulado durante o consulado, que normalmente é longo, teria razão de ser se os nossos governantes e dirigentes acreditassem no princípio da alternância do poder e o promovessem.

Mas pensemos igualmente no dia seguinte dos não governantes e dos não dirigentes. Pensemos nos dias seguintes de todos quantos labutam a vida inteira, mas que, chegados à idade da reforma, pouco ou nada têm que lhes permita viver (ou, melhor dito, sobreviver) até ao dia em que se tornarão “de cuius”, para utilizar uma expressão muito própria do Direito. E ainda nos dias seguintes de muitas outras pessoas e que ocorrem a muito boa gente muito antes mesmo do dia do chamamento final.

Eu já tive um desses dias seguintes e, entretanto, não era, nunca fui, governante, muito menos dirigente. O meu dia seguinte ocorreu quando, sendo na altura tradutor/intérprete oficial de Sua Excelência o Senhor Presidente da República Popular de Angola (segunda metade dos anos 80), de repente fui informado que era suspeito de trabalhar para a CIA e que, ipso facto, deveria deixar imediatamente de “pôr os pés no Futungo”. Até às 23:00 horas desse dia eu era persona grata no meio presidencial. Alguns minutos depois passei a persona non grata. Lembro-me que alguns elementos da guarda presidencial e outros funcionários de categorias mais altas que até então eram “amigos e bons colegas” automaticamente passaram a olhar para mim como se de um assassino se tratasse. Excepção feita a Fernando Garcia Miala (conhecemo-nos desde os nossos 12 ou 13 anos de idade, quando ambos frequentávamos o, na altura, 1º ano do ciclo preparatório do ensino secundário no famoso Emídio Navarro ao bairro Rangel ou Precol), então ainda major, e a Gilberto Veríssimo, capitão, assim como ao saudoso Stone, meu colega de profissão. Mas também ao Dany, ajudante-de-campo do “Chefe”, como no círculo dos funcionários do “Camarada Presidente” nos referíamos a este. E ao Paixão Franco. E ao Toninho Van-Dúnem. E ao Dr. José Leitão, entre outros cujos nomes não me vêm à memória neste momento.

Quanto aos restantes colegas, todos, ou quase todos, viraram-me as costas. A nível dos dirigentes e governantes, devo dizer com toda a justiça que tive o maior carinho do “Camarada Afonso M’Binda”, então ministro das Relações Exteriores e pessoa que alguns anos antes me apresentara ao Chefe, na sequência do que me tornei seu intérprete, e do Camarada Kundy Payama, o qual, segundo me constou, não obstante ser na altura o ministro da Segurança do Estado, teria orientado no sentido de me não prenderem por ausência de provas de andar a trabalhar para os “americanos”.

O que se seguiu foi a travessia do deserto, cujo fim, embora convidado neste sentido, não consistiu no regresso ao círculo presidencial por vontade própria (sentido de dignidade, ou mania de menino metido à fino?), no que fui perfeitamente entendido pelo Camarada Presidente.

Nos dias e meses que se seguiram ao meu afastamento compulsivo do círculo presidencial tive de fazer de tudo um pouco para sobreviver. Assim, na companhia de algumas amigas e jovens vizinhas do bairro, confeccionei pães e bolos para vender. Mais tarde, uma boa alma do UNICEF, o então representante desta agência da ONU em Angola, de sua graça Ibrahima Doc Fall, confiou-me algumas traduções, as quais executei em regime de freelance. Várias foram as ofertas de emprego feitas, mas bastava às entidades interessadas em empregar-me descobrir que eu havia trabalhado para o Chefe de Estado para logo de seguida retirarem a oferta de emprego. Houve quem afiançasse nalguns meios em Luanda que eu havia enlouquecido “por haver perdido as benesses do Futungo”. Ora, quem nessa altura andou por perto do centro do Poder em Angola sabe muito bem que não havia benesses no Futungo.

Confesso que várias foram as vezes que servi o presidente da República com fome, para depois chegar a casa e não ter praticamente nada para enganar o estômago. Doutras vezes eram os almoços ou jantares oferecidos pelo Chefe de Estado a visitantes estrangeiros, dos quais eu participava, que resolviam o meu problema de alimentação. As viagens presidenciais, que até eram muitas no quadro da dinâmica imposta pela diplomacia da sub-região contra o apartheid, mas também para o estabelecimento e operacionalização da SADCC e para a independência da Namíbia, sem falar das famosas Tripartidas, antecedidas que foram pelas “proximity talks”, nem por isso rendiam “muita nota”. Basta dizer que viajar com o Presidente dava direito a um subsídio diário de apenas 16 dólares americanos, pois que as despesas eram invariavelmente pagas ou pelo Estado anfitrião ou pela “camarada Jaquelina”, uma funcionária que a nível do Futungo respondia pelas finanças sempre que viajássemos.

Na altura amávamos todos o Camarada Presidente e o seu MPLA. Não tenho problemas em dizer publicamente que continuo a gostar muito do Camarada Presidente e do seu MPLA, apesar de nos tempos que correm se dizer muitas coisas más sobre as duas entidades. Julgo que sou capaz de fazer análises objectivas relativamente à situação prevalecente no País e tirar ilações, as quais guardo comigo. Ainda assim, José Eduardo dos Santos será sempre visto por mim como um pai; servi-o era eu muito jovem, tendo sempre recebido da parte dele um tratamento carregado de respeito, carinho e atenção.

Foi dele que vieram as palavras que eu mais queria ouvir naquela altura quando, num Sábado à tarde, porque já não conseguia viver com o receio de a qualquer momento ser preso estando eu consciente da minha inocência, solicitei forçosamente um encontro com ele para me garantir que nada de mal me iria acontecer. Nesse dia o Presidente deu-me essa garantia! Saí nesse dia do Futungo de Belas com muita paz de espírito e decidido a dar um outro rumo à minha vida.

O pesadelo vivido com a marginalização a que fui votado pelos meus antigos colegas e “amigos” chegou ao fim quando um dia, volvidos alguns anos, por razões que não interessa citar aqui, JES recebeu-me sozinho, após ter mandado todo o Conselho de Ministros aguardar. O kota Salvador Sebastião, na altura seu secretário particular, conduziu-me ao gabinete do Presidente fazendo-me passar diante de todos os membros do Governo e conferenciei, a sós, com o “Chefe” durante cerca de meia hora. Mal acabou o encontro, e a partir desse dia, as “amizades” foram repostas, trocaram-se números de telemóvel e muitos “sorrisos de conveniência” voltaram a abrir.

De todo o modo segui outro caminho e não mais os ligados aos corredores do Poder. O negócio da confecção de pães e bolos, entretanto, falhara. Mas ofereceram-me um lugar na UNAVEM como funcionário local. Alguns anos depois, a seguir às Conversações de Lusaka”, Nova Iorque convidar-me-ia a tornar-me funcionário internacional da ONU, tendo-me enviado para Timor-Leste. Já lá vão 12 anos. Ainda aqui me encontro. O que aufiro tem chegado para sustentar a família e para custear os estudos dos filhos, inclusive no estrangeiro. Como o meu amigo e colega de profissão Deolindo Casimiro costumava dizer, o salário pago pela ONU não dá para enriquecer, mas serve para pagar todas as contas e ainda sobra troco para guardar no banco.

Até à data de hoje é este o meu dia seguinte de que me recordo com alguma mágoa. Mas está tudo bem. Até porque, afinal, a Luta Continua e a Vitória é Certa!

 Fonte: Facebook. Título da responsabilidade da Redacção d’ ”O Kwanza”

 

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