HAILE SELASSIE*

Jornalistas, assessores do Regime ou traidores da pátria?

No livro “A Espiral do Silêncio” (Elisabeth Noelle-Neumanen) permite-nos “decupar” de maneira objectiva às intenções e às consequências do controle do fluxo da informação por uma elite burocrática. O poder de manipular a informação  por conveniência, seja ela qual for, é uma arma poderosa, pois ele determina as acções dos indivíduos (Sociedade) a longo prazo, molda a Opinião Pública, atribui uma aparência discursiva que obedece aos contornos da narrativa desejada e assegura que toda a informação tenham o devido filtro, com o fim de fomentar a propaganda fraudulenta que é uma característica elementar e um dos pilares centrais para a manutenção do poder, já que a Imprensa é um meio de acção de suma  importância. Não é por mero acaso que profissionais do Jornalismo, intelectuais e o partido (MPLA) caminham de mãos dadas. Com o tempo até nos parece natural, pois ambos se fundiram de tal forma que se torna impossível distinguir as finalidades da militância política e do Jornalismo; inclusive para os próprios jornalistas.

Caro leitor, não se engane:  Todo profissional que trabalha como Servidor Público não goza de liberdade criativa no exercício da sua função. Nenhum empregador irá contratar e manter alguém no quadro dos seus Recursos Humanos, caso não se certifique de que o mesmo fará e faz aquilo que lhe é orientado e exigido. Ninguém contrata um funcionário nesses termos, principalmente quando a respectiva autonomia irá expor directamente o empregador.

O Governo angolano jamais manteria nos canais de difusão massiva (sim, chamar tais órgãos de público é atentar contra a nossa sanidade mental), não haveria a permanência de profissionais dos quais ele não pudesse apropriar-se e usá-los como assessores particular do partido (MPLA). É a receita infalível de todo Regime de Exceção, embora muitos sequer necessitam ser cooptados, filiar-se ao partido, exercendo um cargo público na Comunicação Social é sonho de muitos “idiotas úteis”. São tão úteis que nem percebem que são idiotas (Lenin).

A saúde política de uma Nação mede-se também pelo tipo e o nível da sua Imprensa. Quanto mais livre e longe da influência política, mais saudável o horizonte democrático se apresenta. Quanto mais partidarizada (estatizada), menos saudável politicamente a Nação é. Isso é uma predisposição elementar na democracia que, ao mesmo tempo, pressupõe a existência de uma Imprensa autônoma, capaz de fiscalizar a fundo, informar com competência e transparência, fazer ecoar às discussões e questões herméticas e de difícil acesso, denunciar e auxiliar o público, de forma geral, a compreender factos relevantes e de natureza diversa. A  Sociedade tende a orientar-se melhor face ao emaranhado de acontecimentos decorrentes dos mais variados fenómenos.

Quando deliberadamente, indivíduos ou uma classe com certo treinamento e vocação se opõem à missão inicial e renegam a Ética que é a base fundamental para o exercício da sua actividade, colocam à disposição todo talento, esforços e aptidão à mercê do mal, prostrando-se de joelho em virtude do seu bem-estar ou motivados pela militância político-partidária, nesse mesmo instante tornam-se conspiradores e traidores da Nação, precificam as suas almas, pouco importa o valor, prata ou até um cargo miserável em alguma repartição estatal, assumindo sua co-autoria em todos os processos delituosos e violações dos quais os angolanos são vítimas.

O nazismo, por exemplo, não teria prosperado sem  o bom e velhos serviços prestados por intelectuais e indivíduos de grande talento e influência em suas áreas de actuação. Muitos nazistas como Joseph Goebbel, por exemplo, jamais levaram um judeu pessoalmente à câmara de gás ou pressionaram um gatilho. Mas são tão culpados quanto seja pela participação diretca ou indirecta. Chamá-los de jornalistas é, sem dúvidas,  desonroso para com os verdadeiros profissionais da Comunicação Social. Profanar  um dos mais nobres ofício é algo abominável. A promiscuidade intelectual e profissional está abaixo de alguém que encontra na prostituição o seu meio de subsistência, pois além dos riscos de contrair uma infecção venérea, promover a própria perversão moral e um certo desconforto psicológico e social na esfera familiar, nenhum outro mal pode advir dessa escolha e é o último estágio do mal que alguém pode causar a si mesmo; ou seja, é um mal infinitamente menor, logo, qualquer profissional do ramo tem mais  integridade comparado aos jornalistas devotos e colaboradores do Regime que, de forma deletéria, promovem a perversão da Nação inteira. Pessoalmente não os considero simplesmente cúmplices, cabendo, no entanto, aventar a respectiva dosimetria de forma equitativa. O País que temos hoje é parte da obra deles. Chegamos a esse nível de degeneração e precariedade porque alguns profissionais optaram em juntar-se ao Governo e sabotar o País ostensivamente.

Reportar e registrar os factos como realmente são, sem que haja a intenção do sacrifício de tornar-se mártir, seria colaborar com o País de forma eficiente e eficaz. Em última hipótese, ajudar-nos-iam a orientarmo-nos no tempo e no espaço e que cada um tomasse para si a melhor atitude. Mas eles não (“pelos frutos conhecereis”). Não é necessário arrombar os cofres públicos para vilipendiar a Nação. A militância político-partidária e ocupação de espaços ao exercer cargos públicos representando certa corrente partidária, revela exactamente a posição de alguns jornalistas na História do País e que tipo de propósito servem. A moral pública é diferente da moral privada (Maquiavel), acrescento: a Ética profissional e moral pública não convergem com a moral e ética política. Não há pontos de intercessão. Na verdade, os interesses do partido (MPLA) estão acima de todo o resto, pois o objectivo central do Governo é o poder pelo poder.

No Nuremberga imaginário e cada consciência plena, essa gente já foi condenada à “lata do lixo” e aguarda ansiosamente por receber as vossas histórias. Eles serão lembrados até ao fim dos tempos como traidores da pátria.

*Investigador académico. Especial para www.jornalokwanza.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *