ANNA KÁLISTER PERENA

Humilhados e Ofendidos (II)

 Nem um níquel. Por que? Porque ele idealizou, desejou, alienou-se no olhar de quem, para ele, apenas o exótico causava, e, depois que se desiludiu, aí ficou com raiva. Covarde. Egoísta. Pão duro. Sovina. Mulher para o cotidiano era Eva. Mas Anne não lhe deu mais ouvidos. — Prefiro um preto pidão do que mais um branco rico! Isto foi em 2002, mas ela adoeceu. No ano seguinte, perdeu a vida. Em “Mulher Negra e Homem Branco — um breve estudo do feminino negro” (Santos, 2004, ed. Pallas) assisti-se mais uma vez ao triste desfecho da verdade colonial. Uma professora negra, surrada pela magna docência do Brasil, a despertar a libido do homem branco europeu “bem casado” com uma branca. A traição com a negra das “colônias” chegada das Américas na Inglaterra consubstancia a inapetência de nossa época para o amor… e era este o objetivo ali. « Você está me cantando? » Ainda em 1996, a resposta veio na forma lacônica de um sorriso, e da vergonha. O Feminismo não perdeu: e uma negra se encantou.

    Frantz Fanon em « Peles Negras, Máscaras Brancas » denuncia as mulheres negras que, na Martinica colonizada pela França, se casam com o branco colonizador. Conforme já colocado aqui, não estava em questão, para estas mulheres, a liberdade nem o clítoris. Isto nos ensina Catherine Malabou. Repito: na análise de Fanon, as mulheres queriam “clarear a raça, e até se livrar de uma vez por todas da posição de subalternizadas —Esta moeda corrente no cruel cotidiano dos Martiniquenses. A denuncia do filósofo acertou o seu alvo: excelentes suas palavras a respeito da reprodução dos esteriótipos racistas então em vigor. Sem o modelo de reprodução das Américas contudo… sem o amor do povo pelo povo, a libertação se tornaria, de fato, inviável. Era preciso incorporar o feminismo às pautas comunistas. Inconscientemente, poucos não querem se aproveitar da situação de miséria das mulheres — isto justificam até mesmo muitos brancos europeus para si: quem afinal não reproduz o patriarcado? Fanon a respeito de tudo isto falou. Não se calou. Muitas negras desejam se libertar das agruras da colonização, ou mesmo da existência casando-se por interesse. Não são a maioria, mas e se fossem? “Um negro ganhando dinheiro incomoda muita gente” — são as sábias palavras do poeta Criolo. — declarar-se abertamente livres! Mas o que se pode traduzir do ato das mulheres negras vestirem máscaras brancas”? Tudo o que se realiza sem nós, negros, fica triste, e me parece sem graça. Brancos querendo ser negros. Homens querendo ser mulheres, mulheres querendo ser homens. Negros querendo ser brancos. Tudo demasiadamente humano — viva é o poder de re-descobrir-se no colorido das diferenças. Isto, reunido ao samba “Graças a Deus” do filósofo Felipe só gera compaixão, que é quando nós deixamos tudo ficar ainda melhor. Parabéns Criolo, pelos seus 47 anos de vida! Por mais 47!

  

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