ULIKA DA PAIXÃO FRANCO*

É urgente dar a conhecer a História de Portugal Esclavagista?

A colossal fragilidade do ensino português espelha as fragilidades de lecionação em, pelo menos, três disciplinas base: Português, História e Filosofia.

A pergunta impõe-se: a história da colonização por parte de Portugal tem 500 ou 50 anos? Comecemos por ler o historiador Doutor A. H. de Oliveira Martins[1] quando faz referência ao Império Tridimensional do Reino de Portugal e à colonização de Angola:

(…) Uma força expedicionária de 600 soldados brancos partiu de Lisboa (1571) (…) Pensou-se então no emprego de força militar para estabelecer os Portugueses ao sul daquela zona (…). Assim, em 1574, Angola foi denominada capitania ou donataria e concedida a Paulo Dias Novais (…) [que] chegou a Angola em 1575 com 700 pessoas. (…) Mas quando morreu (1589), os Portugueses achavam-se longe de senhorear firmemente Angola (…). Os Negros, muito mais civilizados e organizados que os Ameríndios, ofereceram forte e permanente resistência. O clima matou centenas de colonos brancos e enfraqueceu muitos outros (parece que, de 2000 soldados enviados para Angola em 1579-94 só 300 sobreviveram). E o tráfico de escravos distraía quase toda a gente (…) tornando a economia angolana inteiramente à mercê de raids contínuos ao interior, (…) de intrigas e guerrilhas. [Francisco Almeida] Converteu Angola em «colónia», primeiro de S. Tomé, depois do Brasil, onde a mão-de-obra era fundamental para as plantações. (…) A política de conquista manteve-se, tornando Angola numa espécie de campo de batalha permanente para os Portugueses.[2]

Paralelamente aos estudos de um dos maiores e mais importantes historiadores de Portugal  a existência de documentação bastante no Arquivo Nacional Torre do Tombo, nomeadamente, registos do cronista do então Reino de Portugal, Gomes Eanes Zurara, que em 1444 descreve, sob as ordens do Infante Dom Henrique “montado no seu poderoso cavalo”, como alude o cronista do reino, assiste-se àquele que é tido até agora como o primeiro grande desembarque de escravos africanos como refere a historiadora Doutora Isabel Castro Henriques:

(…) a chegada do primeiro grande carregamento e partilha de cativos que se haviam de transformar em escravos. Este acontecimento envolveu mais de duzentos homens, mulheres e crianças africanas, registou-se na cidade de Lagos, em 1444 (…)[3]

É um erro referir factos históricos biases de uma leitura política de direita nacionalista ou de esquerda paternalista portuguesa.

Como fica mais do que claro em estudos dirigidos por reconhecidos Doutores da História de Portugal, o movimento de colonização não tem 50 anos, tem mais de 530 anos, e teve início no século XV e não no século XXI.

Recuperaremos, pois o pensamento científico dos mais reputados historiadores portugueses para reorganizar um programa de educação que permitam a universalização da História de Angola e da sua legitimidade internações de forma que esta funcione como uma fonte de referência, corrigindo os erros criados pela historiografia portuguesa. Quem desconhece a história do seu país não tem legitimidade intelectual para o exercício de criação de opinião.

[1]MARTINS, A. H. OLIVEIRA, HISTÓRIA DE PORTUGAL VOL. II – DO RENASCIMENTO ÁS REVOLUÇÕES LIBERAIS, Palas Editora, Lisboa, 10.ª Edição, Outubro de 1984 – 10 000 ex., 404 pp.

[2]Idem, «Capítulo VII, p. 3 – As Ilhas Atlânticas e África, Angola, O Império Tridimensional», in HISTÓRIA DE PORTUGAL VOL. II – DO RENASCIMENTO ÁS REVOLUÇÕES LIBERAIS, Palas Editora, Lisboa, 10.ª Edição, Outubro de 1984 – 10 000 ex., págs. 269 a 270

[3] HENRIQUES, ISABEL CASTRO, «Capítulo 2, Lagos: o Movimento de Viragem», in OS AFRICANOS E PORTUGAL HISTÓRIA E MEMÓRIA SÉCULOS XV-XXI, Comité Português do Projecto Unesco «A Rota do Escravo», Lisboa, 1.ª Edição, Novembro de 2011, pag. 9

*Consultora em Comunicação e Relações Públicas; Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa

Licenciada em Comunicação e Cultura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

 Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e sobrinha de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá a ler O Independente. Foi nessa altura que, com Paulo Portas, aprendeu a pensar, com Miguel Esteves Cardoso aprendeu a rir e com Pepetela aprendeu a pensar a escrita como o riso de si mesma.

Licenciada pré-Bolonha em Filosofia Política (1999) e em Comunicação e Cultura (2006) pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa respetivamente, trabalha entre a gestão da comunicação a assessoria de imprensa e a gestão de cultura.

Pró-feminista, espera pelo dia em que o Arco-Íris marchar para escrever no título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *