FRIDOLIM KAMOLAKAMWE*

E-lei-ções & ilações do gado povinho na Rei-pública das batatas

Praticamente, para a esmagadora maioria, pelo menos, votar é, de todo, inútil. Sobretudo, se num único pé, se espera que da singularidade do ato possa, já, retroativamente, resultar o tão almejado quase tudo. Praticamente, votar, por si só, é, apenas, entediante. Sobretudo, se daquele tão sacralizado nada se espera pelo ineditismo de um tal absoluto, que possa, numa única chave, levar a uma inversão da pirâmide;─ estando embora em jogo, mais do que a voluntariosa expressão do desejo (de alternância) da parte da grande massa de 20 milhões de pobres que compõe o todo bruto de desapoiados, a opressão da vontade desta boa parte do universo demográfico órfão da geringonça situacionista─ condição sine qua non para que se dê por preservada a dinastia do autismo político que ainda prevalece sobre a deprecante histeria nacional ─ aquela que tem tudo a perder ─se porventura, por mero charme político, ou arranjo de cortesia ressentida pelo desgaste de mais de meio século de coma administrativo, se der ao luxo de através do legítimo decreto das urnas deixar escapar das mãos o instrumento da sua arcaica arrogância e impunidades:─ o poder─ o mesmo antibiótico que aos olhos dos interesses estratégicos satelizados no exterior do país, por meio de eloquentes liturgias de televisão, e selfies domesticadoras de serpentes, suaviza os grandes e velhos pecados dessa casta, passa um silicone de legalidade nas suas ilegalidades e um atestado de maioridade moral às suas descaradas amoralidades, entretanto, profusamente disseminadas/desmascaradas pelas redes sociais.

Praticamente, votar é apenas isso mesmo: votar. Tudo o resto, são outros restos: (talvez, mais obesos em significância, muito mais determinantes ainda do que aquele episódio isolado). Votar é como atravessar uma ponte. O destino está na outra margem do rio. A ponte não é, em si, o destino. Mas sem ponte não se chega ao destino. Sem destino algum, também é inútil investir na mecânica da ação a força anímica, empenhar o calor do corpo, o rigor da mente, a audácia do autossacrifício, o empreendimento da caminhada. Outrossim, de que valeria a ponte, se ela não fosse, afinal, a ligação instrumental e objetiva entre o ponto A +C+B?  A qualidade da ponte determina não apenas qualidade da caminhada, mas, igualmente, a quantidade de caminhantes e o tempo médio para se chegar ao ponto desejado. Dito num verbo mais rasteirinho: (menos abstenção). Por outra, a resistência dos materiais empregues na construção da ponte dita a capacidade de resistência desta e o peso médio e máximos que ela suporta. Assim, por analogia vertical, temos que, ir a votos não é, em si, atestado de democraticidade. Muito embora, toda democracia implique, para sê-lo, necessariamente a realização regular de eleições. No entanto, conquanto fundamental o concurso destas, eleições sem alternância são, para economizar gramática, um qualquer tipo de “cracia”, excepto Demo. Alternância sem transparência em cada etapa da organização do processo eleitoral é, em linguagem pedestre, um “xinguilamento”─puro delírio. E disto tem sido Angola um delicioso exemplo para dissertações sobre o tema. Eleições justas sem quaisquer inclinações para a colegialidade na tomada de decisões, para o equilíbrio entre forças concorrentes no que toca às verbas e meios para concorrer, enfim, justiça nos critérios determinantes para a organização das mesmas é impossível.

Portanto, aquele ritual do dedo molhado implica mais do que o simbolismo em si. Todavia, é apenas isso. Tudo o resto, são outros restos. Não é, ainda, a generalidade, o todo englobante. De modo que, naqueles restos, surpreendentemente ignorados, reside o tudo que os eleitores esperam─ ou o nada em que se revelam reiteradamente as jogatinas eleitorais em África, em Angola, muito particularmente. Sobretudo, se as várias peças que isoladamente compõem o global estão, à partida, contaminadas pela ação dolosa do atrofiante complô situacionista. Afinal, toda eleição, tal como o nascituro de um bebé, obedece a um processo. Como tal, cada etapa conta, de forma determinante, para o resultado.

Assim, votar é, per se, principalmente em contextos como os de Angola, um coletivo suicídio por procuração. Fundamentalmente, se desse episódio isolado (e só, ignorando todo o conjunto de variáveis defraudadas) se aguarda que possa, automaticamente, emprestar à vida algum sentido ─ aquela pedra de toque que uma vez subtraída tende a agudizar no peito a angústia existencial de Kierkegaard.

Votar é, na Angola “MPLIANA”, um desperdício olímpico. Principalmente, se se sobrevaloriza o fim, minimizando todo início e meio, os quais são, a rigor, estruturantes para que se chegue a algum lado que não seja apenas o deserto. Que se chegue a algum lado ─ mas, de forma mais ou menos saudável, já que perfeição não é propriamente uma constante que se possa ter em perspetiva num mundo de homens que, desgraçadamente, enfermam do carma adâmico. A beleza, em qualquer eleição, emerge, originalmente, por força da reciprocidade de inerências entre sujeito votante e ente no qual tecnicamente se vota. Na medida em que a força da licitude emanada do povo é emprestada a certo sujeito. O qual uma vez eleito se torna legítimo comissário da tal força da licitude, podendo, então, transformá-la em licitude da força (legitimada), da qual virá a se socorrer, por via da coerção, na eventualidade de ocorrerem prevaricações que atentem contra os modelos contratuais sobre os quais assenta determinada sociedade. E de onde buscará justificação para tal uso? Do facto de lhe ter sido delegado/comissionado tal poder por aquele que é, em termos técnicos, o seu proprietário, o povo. Ora, se alguém se apossa, ilicitamente, (porque não eleito) do pote onde repousa, por princípio, a força desta licitude, para depois, descaradamente, usar da “licitude” da força coercitiva sobre aqueles que, afinal, não lhe delegaram tal poder, qual será a base da sua “legitimidade” se não o autoritarismo e a ditadura? Toda eleição exerce sempre um certo fascínio pela sua componente dramatúrgica. Porém, despojá-la dos elementos tecnocráticos que, no fundo, são eles o escudo-principiológico protetivo da gema-concêntrica de onde estruge a sua razão de ser, é tomar o boi pelo dono dos bois. Eleição é mais do que agitar bandeiras e assoprar apitos. É somar 1+1. Mais do que multiplicar ou subtrair gritos carnavalesco, é equilibrar aspirações e equações matemáticas. Mais do que entusiasmo, é têmpera, é pé no chão e cérebro nos olhos. Numa eleição, se o entusiasmo febril não se reporta à razão, o resultado é mais batuque do que máquina calculadora. E a vida, apesar de precisar do concurso da música e do lirismo para amortecer um pouco a mucosidade do tédio, ela é, de dezembro a dezembro, vinte e quatro horas ao dia feita de números. Por isso é que os votos são, primeiramente, contados. Só depois é que são cantados. Primeiro é a máquina calculadora (do Carlos Rosado). Depois é que entra em cena a guitarra (do Matias Damásio). Nós, angolanos, cantamos primeiro. Distraídos na música, eles aproveitam fazer contas. Depois de ressuscitarmos do coma musical, tentamos contar o que já anda contabilizado. Tarde demais, nem a doçura dos acordes de violão nos salvam. Porque o sabor, tal como o saber, é algo que se aprende educando aos poucos o paladar. Isso se faz com o concurso do tempo. E tempo é matemática. Não é poesia, infelizmente. O relógio da contagem começa no princípio, quando se deviam colocar na mesa e rebater, à exaustão, os questionamentos que abaixo discriminamos, os quais se revestem de um carácter estruturante:

  1. Quem é o presidente da Comissão Nacional Eleitoral? (CNE);
  2. Ele foi eleito ou nomeado?
  3. Quem o elegeu/nomeou/indicou?
  4. Quantos votaram? Não foi eleito porquê?
  5. Se a eleição como um todo tem no pluralismo democrático o seu múnus disciplinador, porque é que as figuras que estarão a cargo das mesmas não resultaram de um exercício igualmente baseado no pluralismo democrático, sendo eleitos e não indicados por um partido que é ao mesmo tempo concorrente, resultando dali um flagrante e pornográfico conflito de interesses?
  6. Um presidente da CNE nomeado por um presidente cessante e comandante-em-chefe (que teme, provavelmente, ser levado a tribunal se largar o poder) teria coragem para ir contra quem o nomeou/indicou?;
  7. A serviço de quem estarão essas entidades?
  8. O que sustenta o ânimo da oposição para ir a eleições, tendo domínio atempado da perversão das premissas garantidoras da lisura? A fé apenas?
  9. Qual é o tribunal que valida os resultados eleitorais? A quem prestam vassalagem as entidades que a ele presidem? A quem se reportam os delegados de lista?
  10. Quem é o presidente deste tribunal?
  11. Ele foi eleito ou nomeado?
  12. A serviço de quem está essa entidade?
  13. Teria força anímica para se bater contra os desígnios de quem o nomeou?
  14. O que é que ele ganharia indo contra?
  15. Tanto o presidente da CNE quanto o topo da hierarquia do Tribunal Constitucional têm alguma pendência de natureza criminal que possa servir de instrumento de chantagem por parte do Poder executivo, de modo a afetar gravemente a sua conduta e eventuais imparcialidades?
  16. Ao mesmo tempo que a Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) se autorremeteu a um feriado sine die, num momento crucial da (re) afirmação da imparcialidade que dela se espera, todos os órgãos públicos de informação, por atacado, cometeram as maiores barbaridades jamais vistas em jornalismo no século XXI. Nem mesmo o famoso Ministro da Comunicação de Saddam Hussein ou Joseph Goebbels teriam feito melhor. Coincidência apenas?

 

  1. A Televisão Pública de Angola (TPA) nunca entrevistou o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, desde que este ocupa o cadeirão máximo da UNITA. Paralelamente, passou, em direto e com estardalhaço noticioso, todos os episódios de atentado à sua imagem. Na mesma TPA, o MPLA chegou a ocupar mais de 82% do tempo de antena numa só noite, contra apenas 3,74% da UNITA e toda oposição em geral. O resto do espaço de antena foi preenchido por trivialidades e outros ataques à oposição travestidos em ciência política e análise sociológica. E é a mesma televisão que vende para o país inteiro os resultados eleitorais, quando um pouco por todo o território os delegados de lista os refutam e alguns alegam que as verdadeiras atas síntese não chegaram se quer a ser recolhidas das assembleias de voto por parte da CNE. Ontem mesmo, 27, membros da cúpula de CNE fizeram uma conferência de imprensa para se demarcar dos resultados publicados pelo colégio de que fazem parte.

 

  1. Quem são os, assim ditos, observadores eleitorais? Têm ou não uns e outros conexões de interesses que passam de raspão pelo político para assentarem sobretudo nas amarras económicas?

 

  1. Numa altura em que mal o mundo da Globalização Competitiva se refaz do Covid-19, a guerra na Ucrânia assombra vertiginosamente os mercados onde se regista a uma escalada dos preços dos alimentos, paralelemente à corrida pelos combustíveis de Angola, na qual a Espanha se adiantou em negociatas com o regime vigente, e os EUA, nas palavras pouco corteses de Joe Biden, emprestaram mais de 2 biliões de USD ao partido da situação interessaria, agora já, aos tais “observa-dores” uma mudança de regime nas terras da palanca negra?

 

  1. Em termos diretos, pragmáticos, é a UNITA-FPU & Adalberto Costa Júnior relevante para a facilitação do conflito de objetivos dominante que permeia as relações entre Luanda e os tais observa-dores?

 

  1. ACJ é, de facto, uma carta determinante para as mais poderosas vagas de fundo que de Taiwan a Washington, da Ucrânia às terras de sua majestade, passando por Moscovo dos Czares, estão a moldar o mundo dos nossos dias atuais e vindouros?

 

  1. Será mesmo verdade que os nossos choros pranteados são um ativo relevante para ditar uma viragem na chave das grandes dinâmicas que permeiam a engrenagem geopolítica mundial ou, nós angolanos, vemo-nos no colo do pai natal, por um compreensível, mas ineficaz, efeito sintomático de orfandade, que nos oferece o conforto de um escudo psicológico─ sem respaldo algum na realidade objetiva─ a qual, mais do que paixão e vontade, se apoia em dados e assenta em evidências?

A arrogância da força, e só, blindada por uma noção clara e assumida da fragilidade generalizada de uma sociedade em desigualdade bélica para contrapor, substitui na consciência geral o território onde seria de esperar que se operassem os mecanismos de contrabalanço da realidade objetiva a engenharia da confrontação dos dados; colocando em seu lugar um nevoeiro proto ideológico, quase metafísico, de ambiguidade sintagmática. Forçando, desta feita, qualquer analista da pulsão fenoménica que ocorre no palco societário a uma neutralidade que cala sem forçosamente consentir. Porém, incapaz de subscrever determinada teoria com margem razoável de credibilidade analítica;─ pela mesma razão que a não pode contestar sem a sombra da suspeita─ sendo que lhe faltarão os dados suficientes, para, com rigor, isenção e imparcialidade fazer quer uma como a outra coisa. Em suma, exercitar alguma ciência social e política. E quem terá os dados que seriam determinantes? Exatamente, a parte mais interessada na subversão da factualidade histórica. E essa fratura operacional é o retrato fiel do que vemos ocorrer nestas eleições. Onde, a fazer fé nos vídeos divulgados por delegados de lista, as atas sínteses devidamente assinadas e que dão vitória à oposição, minguam nos locais de voto, quando não aparecem no lixo, sem que as CNE as vá recolher, ao passo que a facciosa TPA segue divulgando dados da mesmíssima CNE ─contrários ao decreto das urnas, contrários aos imperativos da lei, contrários à própria genética da democracia─ sem, no entanto, se dignar, em nome do decoro, no mínimo, indicar de onde terão provindo os supostos resultados que vemos caucionados por “observa-doreseleitorais” que também, para serem fiéis à regra do amiguismo, o fazem sem citar (e com razão) dados das assembleias de voto e das atas sínteses, porque, sejamos diretos, não as têm. Na verdade, não parecem preocupados em as ter. E são os tais “resultados” que sustentam a useira e vezeira verborreia das “maiorias qualificadas” que às maiorias lazarónicas remetem à uma indigência inqualificável. Assim, o Centro Gravitacional do Poder (CGP) fabrica uma realidade de proveta. Cria, por osmose, um resultado alienígena, totalmente alheio ao espírito e anatomia da expressão das urnas e o impõe ao país e ao mundo, reforçando o direito (que tem/mas não tem) para continuar na senda da disseminação do estatizado terrorismo espiritual.

Nesta Angola de quase tudo e sem quase tudo, continua-se a mandar calar a boca aos problemas, com recurso a falsas soluções, enquanto se abrem portas erradas com as chaves certas.  Pessoas inadequadas têm acesso facilitado aos lugares-chaves, no momento histórico crucial, na circunstância menos receitável. Não há, claramente, uma unidade consensual na narrativa desgastada e desgastante do Poder, apesar de, sempre que oportuno, se registar uma unanimidade esporádica e miliciana, que afunila os fluxos reflexológicos do país, direcionando-os, sem apelo nem agravo e numa estreiteza de horizontes, em direção ao buraco-negro da apatia, do emburrecimento-nacional, em troca de uma liberdade que não vá além do muro da própria casa e da leitura de um livro que só é best-seller porque quem não o compra tem grande probabilidade de aparecer morto─como terá acontecido com a senhora Regina Luisa Essenje, ela que tendo sido recrutada a trabalhar para a CNE, em nome de um certo rigor nacionalista e da justiça eleitoral ( baseada num juramento feito) foi regularmente enviando áudios para o grupo WhatsApp do “Kwanza” denunciando as operações secretas de fraude eleitoral que estariam ocorrendo na sede nacional de escrutínio da CNE. Esta cidadã, que estava apenas a cumprir a lei e a obedecer a imperativos morais, 24 horas depois seria assassinada a sangue-frio, alegadamente, na presença do marido. Ato continuo, o seu corpo seria atirado para uma vala, num momento em que Luanda é hóspede de vários chefes de estado e observa-dores que pintam de cor-de-rosa o ambiente reinante em Angola.

A CNE, guardando uma distância segura da revolta iminente, investe num solilóquio desmotivador que não é endossado pelo verbo alfanumérico das urnas, senão que, pela implacável estrutura apodrecida da exploração situacionista.

Ora, foi Levi Strauss quem tão bem colocou a coisa « Uma das maiores desgraças─do ponto de vista de uma ecologia do espírito─ que as sociedades primitivas trouxeram ao homem foi o de o situar no centro do universo. E assim, desvalorizando a natureza e outros seres vivos[…]» No caso vertente, a ideia miseravelmente central e profundamente definidora do empreendimento politico-societário do MPLA tem sido, efetivamente, arrancar do âmago do homo angolanus o ente biológico autónomo, pensante, nele apagando, desta feita, a natureza primária que nele estruge, pervertendo o universo cosmogônico que desde o dentro dele dialoga numa correlação de forças com os fenómenos psíquicos e exteriores, para os substituir por um partido ao estilo da máfia japonesa, Yakuza;─ mistificando-o a tal ponto que este não seja apenas extensão; e, sim, o próprio universo. Que morra no bípede humano a autonomia da ação reflexiva, o ímpeto da razão que impele ao questionamento e despoleta a indagação-cidadã, para nascer apenas o militante acrítico, preferencialmente acéfalo, o boneco robotizado, membro vulgar do Gado Povino. Apanhados nessa teia vil, a modalidade de consciência com que habitamos o mundo onde não tivemos culpa de nascer é, frequentemente, golpeada pelos imperativos arcaicos de Poder. Cujos efeitos, apesar de nefastos: vide a depredação do espaço do debate público, vide a miséria estrutural do nosso sistema de ensino, vide a miséria como uma espécie de traço identitário do angolano num solo cheio de recursos minerais, ainda assim, não permitem ignorar a forma como nos deslocam do centro da vida para as margens de um abismo sem endereço documentado, sem fim objetivado que não a pulverização sistemática e impune da plebe.

O resultado eleitoral de 24 de agosto de 2022 é, assim, a rigor, um património expressivo da insatisfação generalizada, vertido numa espécie de saldo-haverás do qual se faz depositário temporário a UNITA-FPU. A UNITA-FPU/ ACJ não devia, por isso, mas não apenas, deixar que o nevoeiro do triunfalismo lhe suba à cabeça, ao ponto de ignorar as variáveis fenoménico-históricas, objetivas e circunstanciais que a elevaram a tamanho estatuto, aliás, inédito na história de Angola. Razão por que, aqui, sim, mais do que matemática, se pede sensibilidade aliada à Psicologia, História e Demografia, muito mais do que teledramaturgia e oratória. Quanto mais não seja, por força da própria volatilidade das massas. Afinal, está historicamente comprovado, com safra de exemplos, que o Gado Povino, as massas, são um produto altamente inflamável, a ser manuseado com todo o cuidado e mais algum. Elas tanto te amam hoje como te odeiam amanhã. Remontemo-nos, a título de exemplo, ao próprio João Lourenço. Profundamente adorado no princípio, ao ponto de determinadas pessoas, geralmente bem-intencionadas, terem publicado no Facebook :“ O presidente JLO deixou a oposição sem agenda e demitiu os revús”. Hoje, seguindo a lógica de que quem quer que conteste a geringonça situacionista é revú, Angola é, efetivamente, um país feito maioritariamente de Revús.  Neste fantochismo fílmico nem todos empreendedores do ofício são maus. Isso seria economizar gramática. Sendo que a maioria da gang de bilionários (feitos à custa do erário) são, por mérito próprio, uns quantos terríveis dinossauros que aprenderam desde o infantário Estanilista a amar esta mecânica que emana do conclave, que mistura a vã, porém justa expectativa das massas ao tradicional entusiasmo febril, mais o dolo decorrente da defraudação, em contraposição ao voluntarismo de quem acha que mesmo com batota desde o início do processo, no fim, mas somente no fim, aquele que burlou todo o sistema de justiça eleitoral no início e meio, permitirá ao injustiçado  vencer a qualquer custo as eleições; tão-somente, porque tal crente na boa-vontade daquele Caim que matou a Abel, terá ouvido ao som de um batuque no qual o Kudurista, muito perto de ressuscitar a memória dos extintos Man-Ré & Ndengue Paz, jurava que “ A verdade vence sempre” ─mesmo se o árbitro é, a um só tempo, jogador e presidente da federação.

*Tradutor e escritor. Especial para www.jornalokwanza.com

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