LÍGIA REYES*

Atirar a Primeira Pedra

“Gosto dos meus homens cheios de ternura” é o que me passa pela cabeça quando acordo sozinha na cama pela manhã. Foi-se embora rapidamente, apenas deixou um relógio quebrado e um cascol. Ainda assim, sim, foi ternura. Sei como é acordar noutras circunstâncias. Já me passou pela cabeça que todos fossem imunes ao carinho. Não quero, nem posso precisar o dia, mas sei que atirar a primeira pedra é o mais complicado. As seguintes vêm indiscriminadamente e com algum prazer. Aprendi que a felicidade das mulheres é uma coisa monstruosa. Que por muita poesia que escreva não irei mudar esse fel – e que há quem desdenhe da minha pequena carapaça. O meu corpo é uma casa com um convite sincero e amável. Depois disso, tenho amor suficiente para guardar objetos que não são meus. Tenho amor suficiente para suportar o ódio vesgo de quem fez de mim uma pessoa que não sou. Idealizações que atravessam um céu multicolor, o centro de um sorriso que se partiu.

Aprendi a aceitar o meu emaranhado de cabelo, durante muito tempo achei que não fosse belo. Tive muitos amigos a despentearem toda e qualquer ideia sobre o meu aspeto físico. Olhei-me num espelho que não compreendia a minha mente. Um espelho que não sabia ter gestos de ternura – um rosto que só encontrava outro rosto, ainda mais infeliz. Posso afirmar que a primeira pedra, pelo menos estilhaçou esse objeto de reflexos infiéis. Segurei com força um caco, sangrei, achei que tivesse sido eu a incapaz. O rosto que via era o rosto de todo e qualquer homem de quem esperei algo indefinível.  Só hoje sei que não sou culpada de nada e que a nossa beleza é como um feixe que apenas atravessa quem nos ama. Agora entendo como é plausível que tenha odiado tanto, recorrendo a técnicas estéticas dolorosas que transfiguraram até a minha poesia. “Quem quer ser bonita tem que sofrer”. A primeira pedra também é isso: a sociedade que te pede um sofrimento contínuo para que sejas amada.

Agora a questão impõe-se, quem atirou a primeira pedra? Quem foi esse desgraçado no fim da fila, visto como um audaz: um verdadeiro revolucionário – um homem de qualidades inquestionáveis e exemplo de bravura societária.  Passam-nos pelos olhos todo o tipo de atrocidades e é muito fácil concluirmos que existe geopolítica ou a história – que nos dizem ser cíclica. É mais fácil fazer essa evidência científica do que olharmos para a arte ou literatura e encontrarmos um fundamento para a barbárie. E a dor das mulheres é a quintessência de qualquer dor que o mundo possa gerar. O começo de uma lapidação é a aceitação de que temos o direito de julgar coisas que nos são biologicamente intrínsecas.  Tão biológicas quanto uma mulher possuir um corpo tão menos importante quanto a sua alma – e que devemos purificar o seu sangue por meio da vergonha.

E qualquer coisa que se pareça com a idealização do que é uma perfeição feminina – é já uma pedra involuntária que todos atiramos. Por cada vez que nos moldam um corpo ou as suas palavras, escapa-vos o que qualquer uma de nós saberá guardar depois do silêncio. Um cascol e um relógio quebrado.

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