FABIANA SCHLEUMER*

As “Independências” do Brasil e a eleição presidencial

Nos últimos dias, o Jornalismo impresso e a mídia televisiva dedicaram-se exaustivamente à discussão sobre os 200 anos da Independência no Brasil, comemorados no dia 7 de setembro. Dessa maneira, a temática distanciou-se dos bancos escolares e chegou às ruas e aos lares dos brasileiros. Neste processo, se expandiu a ideia do bicentenário como momento de festa e comemoração.

Caminhando pelos shopping centers localizados nas periferias das grandes cidades, constatamos, por exemplo, a comercialização de sofás e TVs a preços populares, para que brasileiros e brasileiras pudessem acompanhar, confortavelmente no aconchego de seus lares, os festejos da Independência. É a propagação da ideia de ser esta uma festa popular.

Do ponto de vista internacional, ganhou relevância na mídia a vinda do coração de D. Pedro I ao Brasil, como parte das comemorações oficiais dos 200 anos da Independência. O coração do Imperador pesa aproximadamente nove quilos e foi transportado na cabine de passageiros para melhor proteção e condicionamento. O órgão foi recebido com as mesmas honrarias dispensadas aos chefes de Estado em visita ao Brasil. A vinda resultou de negociações com a Câmara Municipal do Porto (Portugal) e com a Igreja de Nossa Senhora da Lapa. Em suma, as comemorações, bem como os protestos, referentes ao bicentenário da Independência são marcados por símbolos e signos que propõem velhas e novas reflexões sobre o assunto.

Nos meios de comunicação, proliferaram entrevistas com especialistas para elucidar as matizes e contradições pertinentes ao tema. Entre as questões apresentadas, discutiu-se se a Independência foi um processo decidido no “grito”, tecida de forma gradativa de acordo com os interesses dos grupos políticos da época, ou ainda, se foi fruto de projetos distintos e conflitantes entre si.

Por conta do momento político e econômico vivido no Brasil, as discussões em torno do bicentenário ganharam maior destaque e relevância. No plano econômico, o país atravessa um dos piores momentos da sua história. A taxa da inflação cresceu consideravelmente, nos últimos anos, percebida, entre outros fatores, pelo preço exorbitante dos alimentos. A fome voltou a figurar no cenário nacional. Do norte ao sul, ela se faz presente, atingindo milhares de famílias marcadas pelo desemprego, pelo trabalho informal e pelas consequências da Covid-19 e da MonkeyPox.

No campo político, vivencia-se a corrida para a eleição presidencial, em outubro. De um lado, o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, do outro, o ex-presidente, Luiz Ignácio Lula da Silva.

Jair Messias Bolsonaro nasceu em 21 de março de 1955, em São Paulo. É descendente de imigrantes italianos, filho de Percy Geraldo Bolsonaro e Olinda Bolsonaro. Estudou na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, Rio de Janeiro. Foi vereador, de 1989 a 1991, e atuou como Deputado Federal, entre 1991 e 2019. Apesar da inexpressiva experiência política, foi eleito Presidente do Brasil, em outubro de 2018, com 57.797.847 votos, ou seja, 55,13% do eleitorado brasileiro.

Luís Ignácio “Lula” da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, Pernambuco. De origem humilde, mudou-se para São Paulo na infância. É filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, lavradores nordestinos e analfabetos. O ex-presidente Lula chegou a São Paulo aos sete anos de idade, juntamente com a mãe e sete irmãos, em um caminhão “pau-de-arara”[1]. Aos sete anos, trabalhava como vendedor de laranjas, aos 12, auxiliava numa tinturaria e era engraxate. Posteriormente, em 1961, fez um curso de torneiro mecânico no SENAI, passando a atuar como metalúrgico.

No período da redemocratização, foi uma das lideranças do movimento Diretas, Já!. Em 1986, foi eleito para o cargo de Deputado Federal com votação expressiva. Entre 1º de janeiro de 2003 e 1º de janeiro de 2011, foi presidente do Brasil, filiado ao Partido dos Trabalhadores, do qual é um dos fundadores. No seu governo, foram criados o Bolsa Família e o Fome Zero, programas sociais que retiraram a população brasileira do mapa da fome – infelizmente, nos últimos anos, o país voltou a constar nesse mapeamento.

Considerando que a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, tenha sido fruto de um acordo ou desacordo entre as elites, resultado ou não da pressão popular, as comemorações e manifestações em torno do bicentenário suscitam discussões sobre o impacto da independência política nas condições de vida e na estrutura socioeconômica do Brasil atual.

Em uma nação marcada por profundas desigualdades sociais e edificada nos pilares do escravismo, não é de se estranhar que a cidadania plena não tenha alcançado os pretos e pretas, pardos, quilombolas, mulheres, indígenas, portadores de deficiência e membros da comunidade LGBTQIAPN+. Estes continuaram à margem, desprovidos de acesso a direitos básicos como saúde e educação. Em outras palavras, passados 200 anos, verificamos que alguns cidadãos ainda “valem” menos do que outros, são cidadãos brasileiros não independentes.

A Constituição de 1988, a Lei Maria da Penha e a Lei de Cotas, entre outras, trouxeram avanços significativos na garantia de direitos sociais, mas ainda não conseguiram incluir e proteger, garantir a vida, o lugar de fala e de ação de boa parcela da população.  Gritos ecoam por todo o Brasil. Estes gritos têm cores, gêneros, sotaques e expressam dor, fome e desespero. Quiçá, a solução para estes problemas seja construída coletivamente, resultando em medidas efetivas a partir do resultado da eleição presidencial de 2022.

Seja como for, o essencial é que a população compreenda que o bicentenário da Independência constitui uma oportunidade para se refletir sobre o passado, o presente e construir um futuro realmente independente para todos os brasileiros e brasileiras.

[1] Meio de transporte irregular utilizado na região nordeste do Brasil. Trata-se da adaptação de caminhões para transporte de passageiros. Constitui uma forma de transporte alternativo, mais barato do que ônibus convencional de viagem. Entretanto, não oferece assentos individuais, condições sanitárias, cinto de segurança e etc.

*Professora universitária . Especial para www.jornalokwanza.com

 

1 comentário em “As “Independências” do Brasil e a eleição presidencial”

  1. Excelente reflexão acerca das contradições brasileiras. A democratização do acesso a uma educação crítica e comprometida com uma sociedade democrática e equânime, talvez seja do meu ponto de vista, caminho imperativo para a independência de cada subjetividade nesse país que pode ser de todos/de todas e, de todes.

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