HAILE SELASSIE*

Angola, Estado ditatorial

Otto Bismarck, o “chanceler de ferro”, classificava os povos em três grupos: 1) Aqueles que aprendem da experiência alheia, são os povos inteligentes. 2) Os medíocres, aqueles que aprendem de suas próprias experiências. 3) Os idiotas, aqueles que não aprendem.

Todo indivíduo honesto comprometido com a verdade, jornalista, académico, políticos, cidadão comum com certa cultura, pensadores independentes e tutti quanti, caso estivessem realmente imbuídos do espírito da verdade, jamais, jamais incorreriam no erro grosseiro de análise sobre uma determinada situação de forma  “unânime”, essa uniformidade analítica pode ser atribuída ao facto do senso-comum: tirar o MPLA do poder. Justo, porém, dissociada da realidade material dos factos.

Angola vive sob um Estado ditatorial, com uma aristocracia forjada pelo partido (MPLA), instituições à imagem e semelhança do mesmo, pois foram concebidas e ocupadas (cargos estratégicos) por indivíduos altamente comprometidos com o partido, liderados por um “czar” (presidente centralizador) auxiliado por uma guarda pretoriana composta por generais e agentes dos serviços secretos extremamente treinados e capacitados, ávidos a darem a vida pela “realeza”.

Ademais, existem uma série de factores na geopolítica mundial dos quais tendem a corroborar com a permanência do Regime (a despeito de possível fraude), contratos em curso e interesses econômicos pautados por monopólio, parcerias estratégicas entre regimes semelhantes afinidades políticas e etc. Esse quadro, por si só, nos permite vislumbrar o grau de dificuldade de sucessão por meio de eleições livres e justas.

Por outro lado, isolar este mesmo Regime do poder significa diretamente a sua extinção natural de forma gradativa, não necessariamente por acções direta do possível sucessor, mas para que o futuro sucessor possa governar, por mais bom senso que venha a ter, teria de o fazê-lo usando critérios técnicos,  confiança e por meritocracia, vale lembrar que tais critérios hoje são ignorados e isso explica a ineficiência e a falência do Estado, além, claro,  da corrupção institucionalizada.

Uma vez fora do poder, o MPLA assistirá o seu plano de poder eterno sendo demolido em doses cavalares, toda utopia que cega os militantes desavisados jogada no lixo e,  a aristocracia reduzida a pó, os altos funcionários que compõem hoje, o establishments, se tornarão reles mortais, ou seja, o partido (MPLA) tem tudo, mais absolutamente tudo a perder e, em virtude disso, arriscaria tudo, sem se importar com as consequências internas bem como, possíveis consequências negativas no plano internacional, aliás, como bons comunistas, certamente adoram a dialética e trabalham com várias possibilidades, a aplicação de sanções no âmbito internacional talvez seja uma boa saída para eles, caso não haja outro recurso. Fortaleceria ainda mais o Regime, pois mesmo com tais sanções, raramente os países deixam de manter alguns acordos internacionais, principalmente com repúblicas com regimes semelhantes.

Cuba é um grande exemplo desse panorama. O embargo americano não restringiu o comércio entre Cuba e outros países. Basicamente impediu que americanos comercializassem e ganhassem dinheiro em Cuba. Ora, o embargo que ganhou notoriedade de tamanha proporção não impediu que se criassem e mantivesse uma classe extremamente rica e com uma população extremamente pobre, sob um Sistema cada vez mais repressivo confinando à população na ilha; ou seja, caso houvesse a possibilidade de se manter uma ditadura escancarada, não haveria motivos inclusive para conservar uma Oposição. O esquema actual apenas seria mais implacável. Quero crer que o retrocesso não seja a esse nível; porém, hipoteticamente, caso ocorra, a vitória dos canalhas ainda assim seria certa.

Uma breve análise por esse prisma seria suficiente para repor a sobriedade entre nós, abrandar os ânimos e seguramente evitaria análises extremamente apaixonadas da militância, sociedade em geral, incluindo a classe política. Aliás, principalmente da classe política que costumeiramente infla os apoiadores assegurando esperanças reais de mudanças sem que tenha o trabalho de explicar o processo hercúleo do qual precisam passar ou as consequências reais da possível mudança e como na prática ocorrerá.

Como de costume, recomendo ao caro leitor, e a quem possa interessar, o método filosófico de rastreamento das ideias o estudo profundo da génese das questões, sua ideologia, estratégias, modus operandi, história, metamorfoses bem como, os meios de acção. Que o faça, desestimulando o monopólio da verdade. Para tratarmos qualquer patologia se recomenda o estudo e o exame criterioso da mesma. Na política não é diferente; não se deve apenas ser relativo ou superficial. É preciso esmiuçar e entender, de facto, o fenômeno que nos domina e talvez a partir de outras acções em conjunto, possamos ajudar o País a fazer as transformações necessárias para o rumo certo. É urgente ter paciência!

*Investigador académico 

 

 

 

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