EURICO BELO CAIUVE*

A vulgarização da Academia pela “turbo-docência” em Angola

É impossível que um indivíduo que viva em sã consciência desperceba o quão importante é o papel de um docente universitário, numa sociedade que se quer ver séria, autónoma,  próspera e organizada. São, incontornavelmente os lentes, os responsáveis primários de se elevarem os níveis de literacia do grupo estudantil, e estes, do povo; num ciclo académico continuum e proficientemente estabelecido. Isto se dá, porque a modernidade é, antes de tudo, científica; isto é, ela tem por razão funcional e administrativa, um esteio racional testado e comprovado; que é dependente e resultante do “pensar académico”.

Por este motivo, o Professor Paulo Freire dizia que « a educação não muda o mundo, a educação muda as pessoas, e as pessoas mudam o mundo». Logo, depreendemos que o funcionalismo social melhora quando a ciência académica é tida como um dos seus pilares ecléticos.

Contudo, se é esta a posição definidora do ensino e certamente do ente ensinador, no caso o professor, como é que este deverá defluir das suas actividades de maneira qualitativa, de modos a inculcar à ciência clara, ao corpo discente, quando se assiste a um fenómeno turbo-docente, isto é, a leccionação galopante, de um mesmo professor, em múltiplas instituições de ensino superior? O que pode ser feito no nosso contexto angolano para que este fenómeno não ponha em causa a profissionalização qualitativa dos estudantes?

 

O porquê da abordagem deste fenómeno

Se existe um dado importantíssimo ao nível da desenvoltura do ensino superior modelador e realmente servível à sociedade: é o tempo. Não há nenhuma actividade humana que fez emergir um resultado positivamente revolucionador da praxis erudita, que não se deu em função de alguém, ou de um grupo, que tenham investido tempo para a pesquisa científica.  Desenganemo-nos:  àquele que ensino tem de ter tempo; e investir tempo. Sem estes requisitos primários de ordem preparativa didáctica e pedagógica, não há ciência evolutiva.

Queremos com isso explicitar que o verdadeiro professor universitário que se apresenta como uma entidade de visão universal e superior, que augura sucesso intelectual, tem de ter tempo para si mesmo e para os outros. O que imperativamente significa que ele terá de investir tempo para a pesquisa, para o ensino, para a revisão, e para às avaliações das pessoas sob os seus cuidados académicos − fazendo-o com esmero e sem pressa, tudo para que o mesmo, não seja aleivoso para com o seu compromisso pedagógico. Destarte, amenos que exista esta cadência programática, sistemática,  e harmoniosa; podemos até ter um pseudo-ensino superior, mas jamais alcançaremos à proficiência docente e discente: valores desejados por qualquer sociedade progressiva, que almeje a excelência em todos os domínios da vida.

O factor “tempo” é tão importante para a construção e maturação da ciência superior que no Decreto Presidencial nº. 191/18 de 8 de Agosto de 2018, o Estado Angolano prevê no artigo 38º, a Licença Sabática: « os professores podem requer a dispensa da actividade docente durante um ano para a investigação, sem a perde de direitos como trabalhador». Vemos assim que, antes do ensino, está à investigação e a assimilação de preceitos científicos; todos eles, sujeitos à ordem temporal. Vale, mais ainda elucidar que,  neste ponto, ainda nem se quer estamos a indexar os aspectos ligados às tutorias ao nível das monografias para licenciatura, dissertações ao nível do mestrado, ou teses de doutoramento: trabalhos que naturalmente exigem mais tempo de qualidade por parte da classe docente. O Decreto ora evocado, simplesmente enuncia um pretenso pedido de um docente, onde o mesmo, em função de uma investigação que pretenda realizar sem distrações e com profundidade, pede esta “dispensa sabática” .

Infelizmente, é esta dialéctica que a “turbo-docência”, em Angola, funestamente desfaz. Ela se desenvolve mais com a mera presença do docente na sala de aulas, ao invés da analise profunda, calma, e crítica da ciência. Esta consistência prolixa subtrai a valorização do nível superior, reduzindo-o numa permuta trabalhista. O caso é tão funesto e profundamente desclassificador, ao ponto de atribuir-se o epíteto de GARIMPO, ao acto de um professor, leccionar em diferentes instituições.

Como é lógico, não existe outra motivação da turbo-docência senão o dinheiro; ou até mesmo, nalguns casos, a ganância. Dizer o contrário é contrariar factos visíveis a olho despido. Conquanto, conhecem-se professores universitários que colaboram em mais de cinco instituições do ensino superior! Em alguns casos, até fora da sua província de morada. E, por incrível que pareça, em cada uma delas, tendo uma carga horário igual ou superior a dez tempos. Ora, Se somarmos dez tempos,  vezes seis dias da semana, (porque na maioria dos institutos as aulas vão até sábado), teremos uma carga horária de até 60 tempos semanais; perfazendo 240 tempos mensais; tudo isso, para uma pessoa só! Com estes dados aritméticos não é necessário muita leitura de princípios pedagógicos para concluirmos o que pode resultar disto: total desatenção do processo de ensino e de aprendizagem.

No fundo, o que neste alinhamento se vai desenvolvendo na classe, não é sequer ensino: é uma dacção simples de aulas. Onde a mera mecânica obedece a escala triádica míope: fotocopia, leitura, e uma ligeira explicação. Porém, talvez alguém diga: mas dar aulas não é o mesmo que ensinar? Não, não é a mesma coisa. Dizia, o saudoso professor do Departamento de Letras do ISCED de Benguela, padre José Andrade: “podemos dar um paracetamol a um doente, mas isso não faz de nós um médico”. Do mesmo modo, podemos dar aulas, mas isso não faz de nós automáticos docentes. Logo, só o verdadeiro ensino, isto é, àquele que emerge de um espírito genuíno da ciência e não do que é material, pressupõe à indicação qualitativa. Pelo facto de envolver fazes didácticas claras; consubstanciadas no amestramento do corpo discente,  mudança de mentalidade, evolução da ciência, e ao estímulo para a publicação literária culta.

Só dar aulas não alimenta o crescimento da ciência; ensinar é um compromisso de vida. É por isso que geralmente, o traquejo e a  eloquência da compreensão científica dos estudantes, nesta azafama da turbo-docência, muito tem dependido da visão e entrega individual dos alunos; não dos professores; que mais se interessam pela assinatura do livro de sumário, porquanto, é este o acto que lhes garante a pecúnia no fim do mês, e daí, corrida para o outros institutos.

Se bem que o salário do professor universitário angolano vem sido discutido, e com justa razão; pois, de facto ainda está aquém de resolver integralmente às necessidades da classe; Todavia, a realidade é que: o verdadeiro professor ensina por amor à ciência e às pessoas, não pelo dinheiro. Pois, se assim não for, melhor que estes sejam comerciantes, e não mestres instrutores. Ou ainda, no mínimo, que sejam moderados no que toca ao estender os tentáculos colaborativos. Lembrando-se de que, quem faz tudo, acaba por não fazer bem nada. A turbo-docência periga incontornavelmente a qualidade do ensino, pois volta-se exclusivamente ao que é material e imediato. É um mercenarismo académico, onde o docente anda às voltas, subtraindo com efeito, a dignidade e a candura que a classe pedagógica merece. Um turbo-docente vive sem descanso, sem tempo de qualidade para si mesmo e para a família; perambula vendendo a ciência, lecionando diariamente, desde manhã até à noite; e por estar em todo lugar, torna-se num sujeito vulgar, corriqueiro, e sem valor.

Pensemos: será que é mesmo humanamente possível tomar conta de tanta responsabilidade científica e pedagógica nestes moldes, onde um docente pode ter uma carga horária de até 240 tempos numa única semana? Afinal, qual tem sido no nosso contexto a distribuição da carga horaria no ensino superior?

Para respondermos à primeira pergunta temos de ponderar o seguinte: “o fazer” docente pode ser desenvolvido, quer ao nível  “mecânico”, não qualitativo; quer ao nível, “espiritual”, que é o qualitativo. Esta última asserção poderá levantar celeumas; porém, o espiritual aqui não é o religioso: mas sim, o que é didáctica e positivamente motivante. Tudo porque o ensino tem de ser nutrível, harmonizo e motivador. Destarte, para o alcance destes desideratos roga-se pela concentração unifocal de quem ensina. Logo, admitimos que a turboperambulância por parte de um docente empenhado pelo ganho, infelizmente é possível; porém, geralmente, este há-de pecar no que tange a qualidade do seu processo de ensino e de aprendizagem; colocando em xeque-mate, uma boa reputação enquanto professor.

Relativamente a segunda questão, há várias correntes. Porém, é comum nas instituições de ensino superior públicas de Angola, no que toca em especial ao ensino regular, em função do tempo que o docente universitário tem de investir na pesquisa, os tempos semanais serem pensados e distribuídos num mínimo de seis tempos, num máximo de doze tempos por pessoa; variando em função da categoria, entre os Professores  (catedráticos, associados e auxiliares) e os assistentes. Perfazendo assim, um máximo provável de 48 tempos no mês; um número distante dos 240 tempos hipotéticos que anunciamos, dos turbo-docentes.

Solução: consciência e consciencialização

Um dos grandes erros da estrutura académica actual é o foco no ganho imediato. Ideias do tipo “se não estudares não serás ninguém”, são proclamadas com o propósito de promover a erudição pelo lucro e sujeitar todo mundo aos diplomas. É por isso, e muitas vezes sem qualidade nenhuma que, as instituições privadas vocacionadas ao ensino superior, crescem e aparecem como cogumelos; e com elas, emergem professores e estudantes para todos os gostos e desgostos. Porém, não precisa de ser assim: existem outras áreas trabalhistas que não obrigam a um diploma universitário, contudo, são clássicas e necessárias para a vida: como pedreira, carpintaria, canalização, serralharia, pintura, etc.; Mas o “BUMM” escolástico angolano promove a consciência do diploma para a vida, e a vida pelo dinheiro. Em consequência, a pessoa formada, passa a encarar à sua formação como um el dorado que deve ser explorado ao extremo. E o ensino, por ser mobilizado em qualquer lugar e em qualquer área de especialidade: logo, todo mundo que tenha uma licenciatura, mestrado ou doutoramento,  pensa que é professor, que pode, e quer ensinar. Resultado: promiscuidade docente.

É verdade que o dinheiro é necessário. Mas, a “consciência” académica é antes de tudo, do gosto; é o estudo pela e para a construção do conhecimento. Neste aspecto precisamos de uma urgente “consciencialização”. Por isso, temos inúmeros professores, mas pouca produção científica: porque o ensino superior angolano é reprodutor, não produtor – e a turbo-docência tem a sua quota parte da culpa, por promover  “o fazer para receber; não o ensinar para o progresso”. Portanto, se se deseja um ensino melhor, sugerimos os seguinte:

Primeiro: cabe seriamente às instituições de ensino superior angolanas, em especial às privadas, supervisionar o grau de comprometimento lecional dos seus docentes. E terem como objectivos institucionais: a ciência pela ciência; e não o ganho pela ciência. Tudo porque, qualquer instituição de ensino que não peneire às suas actividades, é reprovada pelo crivo do tempo. Sendo assim, nalgumas vezes, poucos docentes quando recrutados no âmbito da efetividade, fazem melhor trabalho do que quando se apresentam como simples colaboradores.

Segundo: às instituições de ensino tem de ter um limite de tempos, que o professor que é efectivo numa instituição do Estado, deve ter sob a sua responsabilidade; para que se balanceie a pertinência de se dar mais ou menos tempos a alguém que possivelmente já esteja sobrecarregado. De facto, agir assim, até é amoroso porque acabará por dar oportunidades a novos professores, ao invés de serem sempre os mesmos de um lado para o outro.

Terceiro: tem de se criar uma regra de conduta docente transversal (existem os de exclusividade, porém, pouco obedecida), valível tanto ao sector público como ao privado, mas homologado pelo ministério de tutela; onde, os professores, são ordenados, cadastrados, e delimitados nas suas colaborações; não necessariamente visando oprimi-los financeiramente, mas sim, olhando em primeiro lugar pelo crescimento qualitativo da ciência angolana. O que se quer aqui é uma pauta lectiva pública, que apareça num determinado portal, onde se pode ver nacionalmente onde, e quantos tempos, os professores têm, em determinadas instituições onde ensinem.

Quarto: actulização constante dos salários dos docentes, visando o estímulo da exclusividade pela verdadeira compensação de “o fazer”. E esta não deve ser simplesmente nominal: mas activa e qualitativa. Onde o professor que de facto receba o dinheiro do Estado pelo compromisso da exclusividade, seja responsabilizado criminalmente, caso incorra no incumprimento da mesma.

Finalmente, vale aqui enunciar um proverbio árabe: « o maior erro é a pressa antes do tempo, e a lentidão ante a oportunidade». Portanto, se almejamos um ensino superior de qualidade, que não tenhamos “pressa”, nem sejamos “lentos”; mas sim, que sejamos simplesmente professores; aqueles que por amor a ciência, procuram oportunidades para  mudar as pessoas, o mundo,  e o futuro da nossa bela sociedade.

* Professor do Instituto Superior de Ciências da Educação de Benguela. Especial para www.jornalokwanza.com

2 comentários em “A vulgarização da Academia pela “turbo-docência” em Angola”

  1. “Se almejamos um ensino superior de qualidade, que não tenhamos pressa, nem sejamos lentos; mas sim, que sejamos simplesmente professores; aqueles que por amor a ciência, procuram oportunidades para  mudar as pessoas, o mundo,  e o futuro da nossa bela sociedade”. Pensamento do Professor universitário, EURICO BELO CAIUVE, em torno de mais uma recente palavra (Turbo-Docência) para um fenómeno já antigo.

  2. Um artigo articulado e pertinente. Está de parabéns o Professor Eurico Belo. Conselhos deste tipo devem ser dados sempre para se fazer lembrar ao estado que, nas situações actuais, é ainda o partido, a pensar e não instintar. Ensino superior para o desenvolvimento é com dinheiro que prende e incentiva ao compromisso. Pagar bem ao professor, é demonstração de amor à Patria, consciência nacional responsável e abnegada.

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