HAILE SELASSIE*

A propósito da (alegada)fraude eleitoral

 

A base de todo processo que dará origem a uma informação pronta e consistente obedece originalmente a um método na concepção, elaboração, compreensão e processamento de dados de forma sistemática e organizada por ordem específica. A sua materialização possibilita a criação de planos de ação de forma eficaz e eficiente; logo, estar informado ou gerir uma determinada informação não nos condiciona necessariamente a tomar as melhores decisões, pois a sua condição, enquanto informação, foi gestada ou melhor, teve a sua origem a partir de uma base de dados quase sempre desconhecida.

Entender os mais variados fenómenos através do fluxo de informações pressupõe inicialmente o conhecimento de fonte primária. É necessário mergulhar no âmago das questões, vencer a desconfiança selectiva e analisar os dados brutos apenas com a intenção de descobrir a verdade. Esse método filosófico de investigação nos proporciona a oportunidade de conhecer o processo inteiro e não apenas parte dele. Entendo que detalhes importantes têm sido sistematicamente sonegados pela classe falante do País, por desconhecimento, pelo desejo visceral de se contrapor ao Governo ou por malícia consciente.

Quem controla e faz a gestão dos dados controla concomitantemente todo processo que culminará em informação e terá a capacidade singular  de moldar os dados  de acordo com a respectiva conveniência. Quando aventamos a possibilidade de possível fraude no Sistema Eleitoral angolano, a esmagadora maioria da opinião  revela-se frívola e insustentável, razão pela qual o Governo consegue contestá-las com enorme facilidade, inclusive nas falas de elementos sem qualquer qualificação. A fraude em matéria do voto começa no monopólio do tratamento, captação e manipulação dos dados; ou seja, o único órgão capaz de manipular e gerir os dados eleitorais para que posteriormente possa ser replicado ou configurado como informação disponível aos  demais é o mesmo órgão (partido-MPLA) que também concorre nas mesmas eleições. Além de um claro conflito de interesse, há claramente a evidência de informação privilegiada e falta de transparência.

Quem detém a exclusividade dos dados, certamente concentra o poder de analisar, antever e solucionar qualquer questão, antes mesmo que dados se tornem uma informação a ser veiculada. A CNE, partidos políticos, a Imprensa, tribunais e demais órgãos estão inteiramente alheios, como meros espectadores e de formal servil limitam-se a receber apenas a informação  que lhe é apresentada pelo MPLA, quando, na verdade, caberia tal função, a uma comissão mista, partilhado por todos órgão interessados (partidos, sociedade civil organizada, academia, igrejas e etc).

O leitor familiarizado com os meus artigos, certamente está a par do meu cepticismo relativamente ao processo eleitoral e a tomada do poder por meio desse dispositivo sem antes correr o MPLA a ponto de o enfraquecê-lo e somente desferir o golpe final. O MPLA é um monstro ávido a consumir tudo que lhe vem à face, como tal, vencê-lo exige habilidade específicas. Essa incompreensão proposital do referido fenómeno acarreta consequências graves e mais, apenas atribui legitimidade ao processo internamente fraudulento desde a origem. Não adianta desprezar a História, a origem dos fenómenos. O MPLA tem um DNA. Rastrear o conjunto de ideias e o processo do qual foi concebido, nos ajudará a entender a sua natureza interna, concepções, funcionalidade e estratégia.

Não exige soluções fáceis, por mais árdua e amarga que seja a tarefa, mas é preciso conhecer o inimigo melhor que ele mesmo. Essa polidez moral e o ar de superioridade destilada pelos opositores do Regime ante ao um adversário sem escrúpulos tem um custo alto para os angolanos. Eleição é apenas mais uma das enumeras etapas de um processo, não é o fim.

*Investigador académico 

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