MAYANNA VELAME

A margem

Vou levar algumas horas ou quem sabe dias para escrever essa crônica. E agora, ela está aqui, desfilando nas retinas do meu leitor. Sinto-me perdida, entre as fagulhas do tempo. E com o coração em brasa, escrevo esta crônica cujo tema é ela mesma.

Sei bem, leitor! O mundo anda cheio de assuntos para serem pontuados neste espaço. Mas isso, não vai te acalentar. Deixo o mundo de lado com suas mazelas e me preocupo apenas com ela: a crônica.

Teimosa, a dita não quer muita conversa. Arisca e malcriada, permanece amuada. Ela não quer de forma alguma dividir seu apreço comigo. Tudo bem, a escrita é assim: é preciso saber aninhar as palavras, levá-las contra o peito, sentir sua respiração, provocá-las em amor.

As palavras precisam adormecer, para mais tarde, descansadas, serem astros no céu da folha em branco. Em um sono profundo, eu as observo, silenciosas ficam e mansamente, tento contê-las, até despertarem com bocejos de sonho

Escrever é como se cada frase fosse a última declaração de amor. Exalto essa crônica com o engenho de um nadador a desbravar o oceano. Destemido, supera o frio, a solidão e as ondas gigantes.

Trisco uma letra e ganho uma sílaba. Rabisco duas sílabas e ganho uma palavra. Em tempo, a crônica começa a sorrir, acena um parágrafo e graceja mais dois. Dialogo com ela e no papel, a musa se projeta. Soberana, sabe que será lida por alguém. Sairá da gaiola do coração dessa cronista, para alcançar o horizonte e flamular entre as estrelas.

Permito-me   e me ausento, ela repousa, porque entende que amanhã receberá minha visita.  Vistosa, gozará de todo sentido e ambiguidade que um texto pode trazer. Enquanto isso, eu e a crônica aqui nos despedimos, nosso próximo encontro, será na outra margem da página de algum leitor, em busca de companhia.

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