FRIDOLIM. KAMOLAKAMWE*

A função da disfuncionalidade em Angola e o veneno dos frutos

Desde a génese da socialização primária nos são inculcados códigos de comportamento ─ filtros etnocêntricos, sexistas, raciais, princípios, crenças, valores, os quais uma vez impressos no papel químico do subconsciente, invariavelmente emergem, a posteriori, com a força de determinismos que ditam a forma como o ente em causa, que terá ascendido de simples animal a indivíduo e/ou a cidadão, percecionará o mundo e os que com ele interagem na malha societária. Afinal, como no-lo advertia Foucault “discursos instituem realidades”.

Assim doutrinados, ao nos miramos no espelho dos problemas sociais e sociológicos, e do simbólico que face a eles emerge, o gatilho do subconsciente tende a disparar de imediato, traduzindo por absoluto, inquestionável, eterno e verdadeiro tudo aquilo que, por autoidentificação, dificilmente chega às lamparinas do entendimento e da razão como sendo apenas preconceitos enraizados na mente da pessoa, que tem de constantemente disputar com os outros um espaço nos circuitos de consagração social. E é aí onde se requer algum discernimento, para destrinçar de entre a polissemia dos factos o que é, infatti, realidade, daquilo que é mero estereótipo transformado num constructo social.

Não obstante a força invasiva com que tais filtros esbulham a perceção e condutas de cada um de nós, se nos dá por provado que a verdade que nos é regularmente vendida, qual soro fisiológico, já não é propriamente objetivável. Conquanto as instâncias de Poder e suprapoder no-la imponham, por meio de artifícios coercivos, ela dificilmente se mostra a serviço da justiça; e, na maior parte das vezes, está a serviço da mentira, contrastando, de forma descarada, com os imperturbáveis factos.

Serve-nos de consolo que a realidade, ao contrário das protésicas verdades, nunca se deixar enganar, mesmo quando é regra a manipulação, o desargumento, a deformidade estrutural das ideias e ideologias que fazem época e ditam, em última instância, quem deve ou não morrer, quem sobe ao pódio das honrarias, quem desce às masmorras do ostracismo.

Vide, por exemplo: Savimbi tem cauda, os da FNLA comem corações de seres humanos. Os sulanos são traidores, todas as mulheres são bandidas. Deus é do MPLA. Quem não está com o camarada presidente é confusionista e arruaceiro. Dos Santos é um enviado de Deus para governar Angola. O vermelho na bandeira do MPLA representa o sangue de Cristo. Os angolanos que criticam o sistema de coisas são jovens frustrados. Os pretos são burros, o MPLA é o povo e o povo é o MPLA. É, por isso, o único interessado e capaz de fazer de Angola um país belo e bom para se viver (?)

Sucede, porém, que realidade não se verga à força dos delírios etnocêntricos da propaganda. Cedem os homens, em suas maquinações e fragilidades. A realidade, esta, se mantém incólume. Um hospital com elevados índices de mortalidade materno-infantil é o que é, ainda que alguém vá à televisão maquilhar estatísticas.
A realidade não se cala ante ao esteticismo das invocações, sejam elas de pendor messiânico ou meros chavões de adulação a um César. Não se verga aos rugidos dos manifestos pro establishment. Uma lâmpada apagada não se acende com um anedótico ” Sim-chefe”.

Uma torneira encravada não verte água por concurso forçado de uma vénia bajulatória. Assim como as fotos que vão aterrar aos murais das redes antissociais, altamente trabalhadas por aplicativos da Apple, não curam aos nossos cancros de pele e eventuais insuficiências renais, a realidade material ignora por completo a maquilhagem oratória, passa ao largo das encomendas proto noticiosas, mantendo-se fiel à anatomia dos factos. A realidade é o que é, mesmo quando os dados estão viciados, as cartas marcadas, as urnas trocadas e os algoritmos previamente indigitados a falsear resultados mediante a inquinação das variáveis, cantando, por conseguinte, liberdades escravizantes, Estados Unipessoais, democracias demoníacas, justiças sem jurisprudência e independências ultra dependentes. Há, todavia, países ou simulacros disso, que encarnam a metáfora na perfeição.

Engana-se, porém, quem pensa que a disfuncionalidade generalizada que grassa por Angola não funciona. Assim como os mortos votam, de igual modo, a maioria dos vivos está, de alguma maneira, morta. E a disfuncionalidade está a funcionar perfeitamente. A preguiça e o destrabalho que caracterizam o Estado/Governo/MPLA são, na verdade, o próprio ofício; cujos frutos resultam numa espécie de engenharia autorreversa. Disfuncionalizam à direita e à esquerda para que o centro funcione na perfeição.

Como um ovo, em que a casca e as claras preservam da perturbação às gemas, salvaguardando a vida do pintainho, é absolutamente vital que a maioria de plebeus sirva de cascas e claras à fina-flor do Poder. Com o seu autossacrifício, sua autoanulação e, mesmo, o demissionismo cívico-republicano, seja ele forçado ou voluntário, a plebe serve de escudo protetor à gema da elite de sempre. De modo que a elite de ontem dê parto saudável à elite de amanhã: com os mesmos genes e intocáveis privilégios.

Por conseguinte, desgovernar exclusivamente por via do caos-estudado é, assim, uma questão de sobrevivência. O Poder precisa desesperadamente, hoje mais do que nunca─ por força do descontentamento exacerbado da população─  se assegurar de que as redes de concertação e/ou interconexão de consciências, de esforços conjugados no sentido antirregime, são feitos de linhas descontinuas, nós cirurgicamente lancetados pelos serviços de inteligência, minando laços afetivos, destruindo famílias consanguíneas, criando bolsas de ar entre organizações, nuvens de desconfiança, pânico, desvio de foco, tornando o ativismo republicano num visível desperdício de energia e consequente perda de finalidades práticas .

Não é mera coincidência que desde os tempos pré independência vemos o partido cercear o espaço das famílias, vulnerabilizando-as, desvirtuando-as, de modo que os integrantes privilegiem a filiação ao partido em detrimento das suas relações afetivas e familiares. Afinal, sem uma base familiar sólida soçobra uma sensação de desenraizamento que pode, sempre, servir aos interesses da entourage. Tão-somente, porque indivíduos nessa condição tendem a projetar no partido essa ideia de unidade, de pertença a um bando. Desta feita, não é raro ver um filho denunciar ao pai, vice-versa, uma filha expor a mãe em detrimento do partido. Tudo isso faz parte de uma engenharia meticulosa, da qual só vemos a superfície da casca, nem sempre percebendo o que vai no caroço.

Enquanto o Poder assim procede com as famílias distantes do círculo do Poder, a fina flor das famílias que o encarnam é preservada de toda a perturbação. Enquanto aquelas são estimuladas no sentido de um irmão vender o outro, as famílias de sangue azul cultivam entre elas uma cumplicidade quase sacramental, promovendo casamentos e apadrinhamentos intrapartidários. O que, no fim do dia, robustece as costuras da fidelidade mútua, fortalece os nós que os mantêm numa cânfora hermética de privilégios e intocabilidade e as mantêm num círculo fechado em torno do grande banquete da hegemonia e do Poder em toda sua extensão.

De modo que, as violentas cirurgias às famílias exteriores aos microcircuitos do poder, os golpes oportunos aos grupos de ação e subgrupos “subversivos” são como que trincheiras de cerco à contestação. Visam a gerar um blackout nos pequenos repositórios de memória e cinética reativas, os quais, de outro modo, bem poderiam impingir golpes letais ao Centro de Gravitação do Poder (CGP).
Há, portanto, que os infiltrar, levá-los à erosão, há que os implodir por dentro, quando se torna diplomaticamente vexatório os explodir via execuções sumárias como o foi com Kassule e Kamulingui, como o foi no “27 de maio de 1977”. Por isso, há que os desfasar, porque, afinal, como no-lo pinta Will Durant (1926) “(…)a energia coordenada é a última palavra na ética e na política, e talvez também na lógica e na metafisica(..)”[1], já agora, diríamos nós, na estratégia de disfuncionalização de quaisquer ações tendentes a mudar o quadro clínico da Angola dos nossos dias e dos micro e macro circuitos de Poder que interbeligeram no palco hodierno. A disfuncionalidade a que vimos aludindo é, assim, uma feiura que resulta bela nos fins que persegue e para os seus artífices. Qualquer desvio à métrica prejudicaria a integridade da melodia. Há, por isso, que manter-lhe a pauta, sob risco de ferir a harmonia: O projeto hegemónico, o Hiper aburguesamento da elite que respira Poder, tosse República e defeca o país a bel-prazer.

Tendo a hegemonia aspirações eternas, não equacionando limites a essa ambição “Deifica”, tanto assim, a dominação dos povos de Ngola se arrisca à uma eternidade de neoescravidão; ─ com a diferença de que os colonos são igualmente negros, têm no figurino constitucional e numa pretensa democracia os instrumentos de auto maquilhagem da sua sanha assassina e de roubalheira, a qual tende a se perpetuar no tempo; salvo a erupção de convulsões em contra rotação. E mesmo nos casos em que se operam a mudanças drásticas na pirâmide, na generalidade, o Poder tende a voltar ao Poder por outras portas, terminologias e atores invariavelmente oriundos do mesmo filão genético. E isso se dá, grosso modo, porque ao longo do tempo somente os indivíduos pertencentes a tais “clãs-do-poder” teriam acumulado experiências de dominação e, sobretudo, os instrumentos materiais necessários a (re) conquistar, manter e/ou exercer Poder. Um estudante da Teoria das Elites facilmente descobriria em Angola uma reprodução fiel dos argumentos dos doutrinadores.

De modo que, se uma qualquer revolução derruba a certo indivíduo de proa, vende ao povaréu a ideia de que está sanado o munus causal/ o culpado de todo sofrimento. Assim o foi para os angolanos quando tombou Jonas Savimbi, em fevereiro de 2002. Pouco depois, caiu-lhes a venda e perceberam, tarde demais, que se mantinham as cadeias de favoritismo e as dinâmicas que propulsionam a degradante condição de miséria por que grassam os angolanos. De igual modo, assim o foi quando José Eduardo dos Santos (JES) largou o poder em favor de João Lourenço (JES), em 2017. Uma vez mais, o povaréu foi induzido a ver no anterior PR a personificação do mal todo de cada dia. Por conseguinte, ao novo presidente foram transferidas presunções messiânicas. No entanto, como sempre, rapidamente se descobriu o engodo. De tal sorte que, tudo permanece na mesma ou pior ainda.

Ora, a história é cínica e tende a se repetir, sem que dela os angolanos tirem ilações determinantes para reposicionamentos estratégicos face às maquinações do Poder. Com o agravamento do estado de saúde de JES e os rumores de que o mesmo teria deixado o mundo dos vivos nesta quarta, 11 de maio de 2022, da parte de certas franjas do povaréu, uma vez mais, vieram celebrações apoteóticas; ─ ironicamente, quase as mesmas havidas aquando da morte de Savimbi─ como se o desaparecimento físico desta figura, por si só, fosse resultar numa aurora de bem-estar social e democracia plenas.

O que se depreende, na verdade, ao olhar para a longa-metragem da história de Angola, é que qualquer entidade que hipoteticamente se veja atolada no limbo, como o é agora Isabel dos Santos e sua família, prefigura apenas o bode imolado no altar do sacrifício, em nome de todo o bando.

A hegemonia, em Angola, tem processos enzimáticos que, de forma geral, projetam para a superfície as toxinas que vemos no dia-a-dia. Entretanto, não é por isso que se desaceleram as dinâmicas e concursos que desembocam no fim maior: o Poder e sua manutenção. Na verdade, os nichos de gerenciamento de estratégias podem apenas migrar, passar por pequenas metamorfoses, mas sempre dentro dos microcircuitos internos do próprio Poder.
Para onde quer que nos miremos no espelho das circunstâncias, facilmente depreendemos que
o Poder, ao contrário dos discursos falaciosos, está viciado na disfuncionalidade administrativa, na ilicitude e na ilegalidade. O Poder enferma do carma do desserviço. Nem sempre é fácil descortinar o ardil. O Poder funde-se com a deformidade numa gritante igualdade genética. Uma e outra coisa são a mesma. Dito de outro modo, e parodiando o slogan da própria entourage, ” O MPLA é o problema do povo e o problema do povo é o MPLA”. Pelo que, o MPLA não deseja nenhum tipo de cura. Porque o eventual remédio curaria a doença; porém, eliminaria fisicamente o partido, ainda que de forma gradual.

Qualquer tentativa de o curar configuraria um suicídio político, uma autêntica erosão estrutural que afundaria a “Atlântida”.
O Poder não sobreviveria num ambiente verdadeiramente funcional: não consegue arregimentar simpatias sem o controlo exclusivo dos recursos do país, monopólio das relações comerciais com o estrangeiro, controlo dos meios de ( des) informação, manipulação serviçal das forças armadas, da inteligência, sem desvirtuar  a alma dos tribunais, subverter o génio parlamentar, sem putrificar as estufas de politização/ideologização onde geralmente tendem a brotar algumas consciências mais ou menos iluminadas por algum fósforo de genialidade. O Poder em Angola não sobreviveria cinco anos num sistema descentralizado. Dali o pânico em relação às autarquias.

O Poder sabe que ficaria sem o doce do Poder, se perdesse o Poder de ditar quem ascende a coordenador de disciplina numa escola ou a diretor de qualquer sector público.
Dali as células partidocratas dentro das instituições públicas e, mesmo, nas de résprivata.

O Poder não precisa da normalidade constitucional. Foge dela como o diabo o faz em relação à cruz. Pode simular essa pretensão; mas, na essência, deve permanecer o mesmo. Logo, a promoção da disfuncionalidade é um aplicativo quase orgânico, diretamente baixado ‘por ordens superiores’ para a memória RAM de cada elemento da tribo. De sorte que, nas suas relações com os circuitos externos, à mínima fricção, o gatilho da preservação do interesse supremo da hegemonia sobressai em detrimento de qualquer Lei. E é assim porque assim o é. Ponto. Qualquer desvio ao padrão configuraria um suicídio.

Aquando da sua ascensão ao poder JLO trouxe um discurso totalmente contranatura daquilo que se conhece do MPLA, há 47 anos à frente dos destinos de Angola: anticorrupção, anti bajulação. Ora, as estruturas de base, acostumadas à adulação, tiveram de, tão rápido e de forma atabalhoada, rever a “gramática”, reestruturar suas visões de mundo e país, suas relações com a oposição política formal e com os demais concidadãos fora da esfera partidária.  Com tal movimento no xadrez, JLO acabou por fazer tiros para dentro do próprio rebanho. Porém, antes que as bases da militância ativa do partido (MPLA) e não só, tivessem sequer tempo para entranhar bem esse discurso, JLO alterou-o, novamente, passando de presidente de todos angolanos a presidente do MPLA, de conciliador a incendiário, de messiânico a demoníaco.

Assim, nas vestes de candidato, claramente desejoso de que lhe saia bem a jogatina eleitoral, ele tem de, às pressas, reunir o rebanho, passar fios de sutura nas fissuras criadas com o combate à corrupção e aquele discurso conciliatório; de modo a avançar de forma coesa para as eleições que se aproximam. Dali resulta uma embaralhada consciência de grupo que já não tem segurança no próprio discurso, nem sabe propriamente qual será, de tanto que ele é hoje uma coisa e amanhã outra. Há discursos que convivem mal numa mesma panela.

Em Angola vive-se num permanente caos-regulado, que concorre para um ultrajante fim último: os interesses excludentes da elite. Engana-se, todavia, quem for a pensar que toda essa disfuncionalidade não funciona. Mantemos, por isso, a premissa.

Assim como um cadáver serve de estrume ao capim, aos vermes, aos abutres, às árvores, em suma, dá vida a outros tipos de vida, assim como um cadáver não tem consciência da sua condição de morto, mas alimenta outros tipos de vida (independentes da condição de morte do cadáver), vidas novas cientes da sua própria existência, a disfuncionalidade administrativa do Estado angolano e a “burrocracia” do governo , que são, na prática, a mesma coisa, embora resultem num declarado nado-morto para o desenvolvimento do país, para a realização das aspirações do povo angolano, intra-cromossomicamente, essa disfuncionalidade propositada tem consciência das suas finalidades.

Ela sabe perfeitamente que é preciso que coisa nenhuma funcione no país para que o tudo (que realmente interessa) funcione na perfeição: a hegemonia económico financeira da elite que açambarcou o poder e criou sobre ele uma ideia de hereditariedade quase por determinismo teológico que a ninguém está reservado o direito de questionar.

Pelo que, todos esses artifícios meramente divisionistas prestam um desserviço à unidade nacional, à coesão social e, em última instância, à construção da Nação. São, neste sentido, uma disfuncionalidade. Todavia, por paradoxal que pareça, ela funciona perfeitamente quando o assunto é dividir para melhor reinar, como o diz o cliché.

Nesse caldo temperado no cinismo nada é mera coincidência.  E não é o articulista que o diz. É a realidade que no-lo declama pela boca dos factos. Logo, é absolutamente vital que 22% de crianças estejam fora do sistema de ensino, conforme artigo no site do UNICEF.[2] pois, enquanto essa massa cinzenta é sistematicamente desprovida dos meios que a permitiriam ascender um pouco nos circuitos de consagração social, na contramão, os filhos da elite se adestram nas melhores escolas do mundo. Os pais se agarram ao poder até que algum determinismo biológico, um cancro do fígado ou do pâncreas os empurre para os balneários. Mas, até lá, os filhos retornam Angola, onde os progenitores já lhes terão previamente flanqueado o caminho em direção ao pódio, de modo que substituam a estes nos lugares cimeiros do Poder. A título de exemplo, enquanto o povo norte-coreano se debatia com a “Grande Fome”, também chamada “Marcha Árdua” (1994-98) a qual dizimou mais de um milhão de pessoas, o ditador Kim Jong Il tinha os filhos a estudar na Suíça. Quando este faleceu, a 17 de fevereiro de 2011, o filho, Kim Jong-Un, já formado, viria a substituir o pai no cadeirão do Poder. Em Angola, enquanto os plebeus se debatiam com as atrocidades de uma guerra de mais de três décadas, os filhos da elite, destacamos Isabel dos Santos, esta estudava no King’s College de Londres. Quando a guerra terminou, Isabel retornaria ao país, formada, rica, empresária, dona de quase tudo, a ponto de ser “A mulher mais rica de África”, segundo a Forbes.

Enquanto isso, os filhos da plebe, gerados, nascidos e crescidos na periferia da cidade e da vida,  arquétipos da necessidade e da falta, sempre sem margem de segurança, sempre mal articulados, como, aliás, convém,  os suspeitos do costume, sempre insuficientes, sempre com muitas explicações por dar, sem água, sem trigo, sem energia elétrica, um ensino de base incipiente, um elementar precário e um universitário que além de deficitário, resulta oneroso face aos recursos, estes rebentos à mercê da divina providência se não são forçados a emigrar, deixando o palco aberto aos novos herdeiros do Poder, quantas vezes piores que os pais, herdarão, por abono, a miséria dos seus,  do mesmo modo que os filhos da elite herdam , por favoritismo, por nepotismo, as condições de autorrealização que terão beneficiado aos pais. E a tendência, salvo uma truculenta volta à chave, é piorar. Afinal, os herdeiros da elite, jamais acostumados a suar a camisa e a partir pedras, sempre acostumados a gerir milhões de euros sem precisar espalhar Currículo Vitae, nunca se adaptariam a uma circunstância em que tivessem de disputar eleições livres e justas e esperar o cair do mês para receber um salário que raia as barbas da indigência. Aqui Marx não poderia ter acertado tanto na mosca.

Quando o projeto nação morre, o ente biológico da República sucumbe, a temperatura do descontentamento sobe; algumas vezes chega a ser escaldante, mas, tal como no caso dos cadáveres de humanos e animais, não é por isso que se tornam inúteis. De forma sub-reptícia, outros tipos de vida são gerados da matéria caída em desgraça: Vermes, fungos, moscas varejeiras e outros.

No caso de um país que sucumbe à disfuncionalidade, outras sub vidas resultam desta morte. O verme da anormalidade ganha vida. Toma o lugar do defunto normal. A criminalidade de pé descalço e a de colarinho branco caminham em paralelo no caldo da disfuncionalidade. Porém, nunca se cumprimentam; na verdade, uma desdenha à outra.

A de colarinho branco até se presume virtuosa e reclama para ela um estatuto de superioridade moral e de propósitos. A criminalidade de pé de chinelo inveja terminantemente à outra pelas condições de que dispõe e pelos seus resultados palpáveis.

Ambas navegam no mesmo oceano da disfuncionalidade; todavia, não se embrincam nos meios de que se utilizam, não cruzam na genética dos seus agentes, nem nos círculos de operação, lazer e habitação. Não se coadunam nos lucros, não se equiparam nas causas que as impelem ou restringem, nem nas que cada uma persegue. O crime de colarinho branco vegeta em torno do Poder e a ele aspira para que lhe sirva de escudo. O crime do pé de chinelo, por sua vez, se sente marginalizado pelo Poder e a ele se opõe, ainda que apenas pelo desacato. E visa, geralmente, a sobrevivência. Ambos caminham juntos, porém, separados. Não coadunam na forma de tratamento por parte da opinião pública e da imprensa. Não coadunam na forma de tratamento que lhes reservam os instrumentos coercivos do Estado. Não há igualdade de tratamento por parte dos tribunais e da Lei. O criminoso de colarinho branco é, invariavelmente, filho da elite que em tudo manda e que constitui, ela própria, Poder e tudo tem para o ser. Ele rouba a bancos, saca biliões, sobre fatura aquisições do Estado, negoceia com ele próprio, vende ao Estado o que já é do Estado. É, geralmente, detentor de cargo público, rouba a um país inteiro. A probabilidade de ficar impune é altíssima. O polícia o trata com respeito, faz-lhe continência. O ladrão de pé de chinelo, por sua vez, é filho da miséria promovida pelo Poder no âmbito da função da disfuncionalidade propositada. O único poder de que dispõe é o ar nos pulmões. Não tem condições materiais para vir a ser poder. Ele tem o mesmo perfil de sempre: Rouba galinhas ou botijas de gás. Se não acaba queimado vivo a pneus, num ato público de justiça por mãos próprias por parte de outros membros da comunidade de miseráveis, ele termina abatido pela mesma polícia que ao criminoso de colarinho faz continência. São grandes as chances de acabar em prisão perpétua, sem direito a advogado, sem julgamento formal, sem qualquer processo. A Associação Justiça Paz e Democracia (AJPD) denunciou, nos primórdios do ano 2000, o caso de um rapaz de 17 anos, o qual viria a passar outros 12 na cadeia, por ter alegadamente furtado um casaco jeans. Nessa altura, era Ministro da Justiça Paulo Tjipilica. Enquanto isso, no mesmo país, eis aí o Manuel Vicente a nadar no colo de João Lourenço, numa passeata de impunidade. Aí temos o Edeltrudes Costa entrincheirado no gabinete do próprio presidente da República. Na mesma condição, de impunidade, estão a maioria dos bilionários ligados à entourage.

Propomos uma inflexão de marcha no raciocínio lógico para lembrar, sem presunções professorais, que a palavra tragédia vem de ” Tragos ” significando ” o bode”. Os geniais gregos partiam do pressuposto segundo o qual, todo cidadão, por mais iluminado que fosse, tarde ou cedo, acabaria imolado no altar de Dionísio. Podemos, por analogia vertical, dizer o mesmo daquilo a que chamamos disfuncionalidade em Angola. Tudo e todos são degolados no altar de Dionísio, o Deus da disfuncionalidade.

Tudo o que não funciona em Angola, na verdade, funciona para a satisfação dos desígnios da elite: a  falta de transportes públicos, os hospitais sem condições de atendimento medico-medicamentoso, a falta de saneamento, gatilho para redução demográfica (nos moldes malthusianos), a emigração forçada, tudo joga em favor dos objetivos hegemónicos do CGP ,cuja vitalidade e gravitação se utilizam do caos engendrado, ora por programação preditiva/indutiva, ora por pishings de psicologia autorreversa, cuja combustão resulta da confusão babélica projetada para o palco da interação social, onde não se pretende propriamente firmar qualquer ideologia, embora “pretextando” até à exaustão tal função realizadora; desta feita, fazendo da sociedade um mercado de compra e venda onde imperaria a lógica da guerra. Este concurso de circunstâncias dispensa às chamas da razão e da clareza, as quais acordariam nos espíritos a visão, para preferir, antes, incutir neles a faísca da sombra, sob o espectro da qual se eclipsaria a verdade; para que a falta de Poder dê ao Poder mais poder ainda. De preferência, sem o incómodo coice da sabedoria e do saber, a quais convém que fiquem fora da equação, para que a ignorância prevaleça.

É absolutamente vital ao eixo que tudo esteja fora do eixo, para que o eixo seja eternamente o eixo. É preciso que os entes cujas vidas e mortes servem de nutriente ao eixo estejam o mais afastados possível dos microcircuitos internos do eixo, para que jamais percebam que são eles que o alimentam. Para que não descubram até que ponto o mesmo se fortaleceu por via do enfraquecimento destes.

No mundo inteiro, sobretudo em regimes que se dizem comunistas, superabundam casos de agentes de contrainteligência que se envolvem sexual e afetivamente com mulheres atuais e anteriores de indivíduos tidos por antirregime. E chegam a fazer-lhes filhos. Estas relações funcionam, igualmente, como bolsas de anti resistência, postos de avanço. Pense nelas como as bases militares que potências hegemónicas e globalistas têm em outros países. O que pareceria mero concurso aleatório de circunstâncias funciona, na verdade, dentro de uma estratégia bem engenhada, de criar vínculos com fontes de informação que podem/devem servir, quando oportuno, de armas de arremesso e gatilho para chantagem.

Fernando Vumby (ex-secreta) radicado na Alemanha, publica, com alguma regularidade, sobre Ministros, generais, governadores angolanos, que terão assassinado indivíduos contestatários ou nem por isso, e, mais tarde, se casado com as respetivas esposas das suas vítimas. De modo que os filhos dos assassinos e das vítimas se tornam irmãos de sangue. Os filhos de uma hipotética vítima passam a ter no padrasto o pai que nunca tiveram.
Esposas ou Ex-esposas de indivíduos antirregime são recrutadas por agentes disfarçados de amantes. Por via de coerção psicológica, ou não, estas passam então a agentes. Na primeira oportunidade que tiverem matam ao ex-parceiro, na maior parte das vezes, por veneno letal. Quando não têm essa chance, são transformadas em delatoras dos ex-parceiros.

Quanto aos filhos das vítimas, estes crescem na mesma incubadora com os filhos gerados da relação entre agente infiltrado e a hipotética mulher. Sem saberem jamais o pacto de silêncio e sangue existente entre a progenitora e o pai dos novos irmãos. Nos casos mais trágicos, quer a ex-esposa em causa consiga ou não ajudar a liquidar ao ex-esposo antirregime ela acaba morta como ” queima-de-arquivo”. Nestes casos, os órfãos mais crescidos acabam cuidando dos mais novos, sob a supervisão do agente ” exterminador implacável”. Com alguma sorte, estas terminam o filme se resignando ao papel de terceira ou quarta esposa de um bófia, sem direito a exigir muito.  Prova de que, quando em jogo está o Poder, muitas vezes, o talento para a maldade supera os artifícios criativos de Spielberg.

Afinal, como diria o Hamlet, “às vezes é preciso matar oito pessoas para que a Corte da Dinamarca se veja.”

Não há pano suficiente quando é preciso que nada funcione para que tudo funcione na perfeição. Quando é preciso que tudo o resto seja medíocre para que somente o próprio Poder siga imperativo, categórico, absoluto, eterno, inquestionável.

Uma vez chegado à Cidade Alta, JLO procedeu a uma quimioterapia política a certas partes do pulmão do Poder, sem precisar arrancar o órgão todo; preservando, a bem da elite como um todo, aquilo que lhe é, de longe, a própria vida: O MPLA, o instrumento com o qual se auto legitima aos olhos da nação (falhada) e do mundo. Nesse sentido, em termos meramente intrapartidários, conquanto custe reconhecê-lo agora, a longo prazo, JLO talvez concorra a herói da elite que mantém refém o MPLA. Por mais que vá colecionando alguns inimigos internos aqui e acolá, no geral, dificilmente se poderá dizer que não terá jogado um grande trunfo quando se desenhava uma implosão nos moldes da primavera árabe e tudo já parecia perdido para a elite. Pedir mais a um partido com as características e modus operandi que vimos retratando até aqui, seria demais.

Curar o Poder em Angola nas suas múltiplas formas de ser poder, na forma como ele se intersecta com os entes que animam o quotidiano e com suas ações fazem pulsar a Polis, mais do que uma simples troca de peças e visitas esporádicas ao mecânico ou recargas telefónicas é, definitivamente, uma questão de vida ou morte.

Num momento particularmente sensível, em que determinismos de índole económica, sobretudo, empurraram os angolanos para a encruzilhada da nostalgia do passado, os assopraram para os becos escuros do ressentimento sobre o presente, muito para lá das areias movediças da angústia que acompanha a incerteza sobre o futuro, estes têm de escolher entre um bandido altamente perigoso e um bandido perigosamente alto. Tanto assim o é, que revelada a farsa de JLO, alguns angolanos falam em saudades de JES.

Aqui, uma vez mais, talvez não seja tanto o Zé pelo Zé. É o trigo que escasseia. É o delírio geral. Assim, ao contrário de Mitya, em Os Irmãos Karamazov: «Um daqueles que não querem milhões, mas, uma resposta às suas perguntas»; os angolanos, desta vez, querem também direito aos milhões de USD que perambulam por entre as mãos de um major ou coronel. Os angolanos dispensam às perguntas. Porque 47 anos depois, com Savimbi de fora, JES entre a vida e a morte, JLO na fita, a secura se mantém teimosamente de sentinela no prato do povo. De modo que, a malta sente que já sabe todas as respostas.

Afinal, a história (real) paga-se, mesmo quando se apaga. A realidade manda fatura. Mesmo quando fraturada. A disfuncionalidade, em Angola, funciona bem e recomenda-se. Mesmo se não se emenda. Mesmo quando aparentemente avariada. A justiça, dizia Rui Barbosa (1849-1923), se pode irritar porque é precária, mas a verdade nunca é impaciente porque é eterna.

_______________________________________________

[1] DURANT Will, The Story of Philosophy, Simon & Schuster, inc, 1926, p.19

[2]https://www.unicef.org/angola

* Escritor e Tradutor

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *