EURICO BELO CAIUVE*

A escrita “treme-treme” dos médicos

“É bom escrever, porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão”.

       – Cesare Pavese

 Todos profissionais de saúde merecem receber de nós, na triste qualidade de potenciais utentes enfermos, atenção, carinho e um grande respeito. Tudo porque boa parte do que é o nosso bom estado de saúde depende ou dependerá, quer a curto, quer a longo prazo, das “mãos” curadoras de um bom médico. Todavia, esta “mão” preciosa, que tanto prezamos, que auxilia o nosso bem-estar clínico, é também ela mesma, a “arguida” num caso de queixa “global”, no que concerne à “ilegibilidade” da grafia dos médicos.

É um dado adquirido: não é fácil ler ou interpretar a escrita de “boa parte” dos médicos. Sendo assim, questionámos: por que é que os médicos escrevem na sua maioria, “rabiscos”, ou para sermos mais capciosos, “gatafunhas”, de difícil leitura, nas receitas dos pacientes? E quais são as consequências desta pretensa “normalização” que nos remete ao nível da “disgrafia”?

Vale antes de tudo discorrer que todo médico teve incontornavelmente na sua planilha curricular o ensino de uma língua, e, na maioria dos casos, à língua materna. Tal sucede porque, a Pedagogia e a Didáctica secularmente admitem que não há ciência que se veicule, sem que o acto de apreensão cognitiva se efetive por meio do uso de um determinado idioma. Não há nenhum processo de profissionalização humano que não passe pelo esteio linguístico. Sim, é indubitavelmente por meio da sistemática da língua, que grafamos à ciência, lemo-la e a interpretamos. É assim com qualquer área académica, o que não deixa de fora a Medicina.

Outrossim, um aspecto interessante é que muitos médicos quando redigem para fins não receitais, fazem-no com uma beleza e esmero incríveis. Porém, bastou estrarem no consultório que o demónio da escrita “treme-treme”, “risca-risca”, os possui. Por este facto, questionámos: por que será que isso acontece?

 

BUSCANDO ÀS CAUSAS

Para não falarmos no vazio, nem sermos desonestos para com a verdade, contactamos uma médica. Fomos claros e sucintos na nossa busca inquiritiva: por que é que vocês tendem a escrever ilegivelmente quando passam as receitas?

Resposta: pressa, estresse, maneirismo e hábito.

Ora, estes lexemas proferidos por esta profissional, como base do que está subjacente à escrita “ilegível” dos médicos, por um lado sensibiliza a nossa empatia, mas por outro lado faz suscitar ainda mais perguntas. Empatia: porque não é fácil lidar com questões sensíveis à vida das pessoas, suas patologias físicas e mentais; coloca-se também a situação de afluírem aos centros hospitalares muitos pacientes para poucos profissionais, mais a falta de condições técnicas e medicamentosas que em muito impede uma entrega mais qualitativa destes. É fácil entendermos que, geralmente, a “pressa e o estresse”, que dificultam a boa redacção cursiva são resultantes da realidade quotidiana a que são acometidos os médicos, dentro do ambiente clínico, grosso-modo, hiper-exigente. Contudo, a parte da resposta que faz menção ao “hábito e ao maneirismo” é a que mais nos preocupa. Sim, é aqui onde reside o cerne da questão: porquê perpetuar um “hábito e um maneirismo” que, ao invés de acrescentar valor à profissão médica, subtrai estima, e o pior, pode perigar a vida dos utentes, porquanto, há grandes chances de se interpretar mal a receita e se comprar e consequentemente tomar-se um medicamento errado?

 

 GRAVIDADE DO ASSUNTO

Em termos histórico-linguísticos, O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sobre o vocábulo “receita” faz-nos entender que, o mesmo, tem um substrato que evoluiu do Latim, recepta, que remete à semântica para ideias tais como recuperar, reaver, reter e receber. Portanto, se a “receita”, à partida, é um item que a pessoa “recebe”; é somente natural que se espere que o utente enfermo “tenha o direito legal e humano de entender àquilo que está a receber como orientação”. E o caso é tão esclarecedor ao nível da sinonímia vocabular que no verbete de qualquer dicionário luso sério, referente à “receita”, havemos de encontrar de maneira putativa, o seguinte dado: “em termos de Farmácia chamamos de “receita” a prescrição médica que contenha o nome dos medicamentos e o seu modo de usar.  Assim, depreende-se que uma receita é um guia para o paciente. É um documento de orientação, de auxílio, de consulta, de ajuda; não de questionamentos e suspiros. E, se se diz que ela deve ser um “guia”, e sabemos que “um guia é um dirigente, um encaminhador”, não um desencaminhador; esta não pode ser ambígua. Mas sim, clara, sucinta e pontual. Deste modo, não importa o contexto, não importa o momento, se de facto o que o médico quer é comunicar ao seu paciente, sobre o medicamento a comprar, a maneira de o tomar, e os seus respectivos intervalos de absorção, é responsabilidade dele: prescrever de maneira cursivamente legível. Em outras palavras, os médicos devem, pensando no bem estar dos seus pacientes, aprender a escrever bem as suas receitas. Pois, para este fim, “o maneirismo e o hábito” de se escrever a bel-prazer não colhem aplausos da classe enferma utente, muito menos contribuem para a mitigação das patologias dependentes de fármacos. Destarte, sempre que se tem por alvo ajudar alguém, a claridade é um item obrigatório.

Este assunto é de interesse mundial. É difícil encontrar uma receita às claras. Falando delas, é interessante considerar o que acontece no Brasil (https:g1.globo.com). Neste país, a “orientação, tanto do Conselho Regional de Farmácia, quanto do Conselho Regional de Medicina” é a de não vender medicamentos sempre que a receita não se mostre legível. Simplesmente para que se evitem erros. Erros estes que, infelizmente, se têm amontoado e muitas vezes com resultados fatais.

Este assunto pode parecer trivial; porém, um estudo realizado pelo Instituto de Medicina da Academia Nacional das Ciências (IOM) revela que devido à má caligrafia dos médicos, a cada ano falecem 7 mil pessoas nos Estados Unidos! Os erros mais comuns cometidos pelos doutores ao expedir as receitas médicas são as abreviações, indicações de dose e letra ilegível, os quais, além das 7 mil mortes, afetam a mais de 1.5 milhões de americanos todos os anos (https://time.com). Portanto, o problema existe, e a sua mitigação deve ser procurada.

SOLUÇÃO

Existe nas Escrituras Sagradas uma passagem chamada de Regra de Ouro: “Todas as coisas que querem que os homens façam a vocês, façam também a eles” (Mat.7:12). Portanto, o amor, em tudo faz a diferença. Não que os nossos queridos médicos nos odeiem, não. Os médicos nos amam. A questão é de humanização. E de se exercitar pela empatia, uma acção que ajude na totalidade o paciente. Conquanto sabemos que, além das recomendações orais, depreendemos que, o que fica patente para a medicação ordeira, é o escrito. Logo, cabe ao profissional de saúde lembrar-se do seguinte: primeiro, tudo o que se escreve para outrem é para a leitura; logo, a escrita tem de estar legível, para que se complete o processo comunicativo; segundo, muitos pacientes não sabem ler, estes são auxiliados por terceiros e estes terceiros, muitas vezes não se fazem presentes no momento da consulta, simplesmente são guiados pela receita, assim, caso esta seja ambígua, pode levar estes a aceitar no acto da compra, um medicamento que não seja o receitado.

Portanto, é bom que os ministérios de Saúde, nos seus encontros e jornadas científicas reiterem a abordagem deste problema. E que se apresentem dados pessoais, reais, diante dos profissionais de saúde, onde, pela ilegibilidade da receita, um paciente sofreu um infortúnio. Para que não se tenha este problema, como um falso problema. Samuel Johnson gostava de dizer: “É a escrever mal que se aprende a escrever bem”. Assim, que os profissionais de saúde aprendam a desaprender, este maneirismo de “rabiscar”, e que passem a escrever com “legibilidade”. Se assim acontecer, todos sairemos a ganhar. Tudo porque, há mais chances de alguém morrer por “incompreensão” do que por “compreensão”. Viva os médicos!

 

Professor do Instituto Superior de Ciências da Educação de Benguela. Especial para www.jornalokwanza.com

3 comentários em “A escrita “treme-treme” dos médicos”

  1. Marcolino Salui Felisberto

    É sempre muito bom ler, as opiniões do Professor Eurico Belo.
    É o segundo artigo de opinião que estou a ler neste jornal…

  2. Sério??? 7 de americanos morrem a cada ano por isso? É um caso seríssimo!
    Confesso que nunca cheguei a pensar até este ponto. Ou seja, sempre reclamei dos médicos por rabiscarem ao escreverem as receitas, mas nunca pensei que estes rabiscos podem prejudicar tanto assim até causar mortes.
    E Angola, como estamos? Infelizmente, é uma realidade que muitos médicos se orgulham a fazer, e nós os ajudamos nisso. Porque algumas pessoas brincam afirmando que “médico de verdade é aquele que escreve rabiscos ao receitar”. Acham “elegante”. Saúde é uma questão muito séria.
    Por outro lado, gostei da responde sincera da enfermeira que foi contactada: pressa, estresse, maneirismo, hábito. Como diz o texto, não é fácil lidar com questões à vida das pessoas. No entanto, por se tratar mesmo de saúde, vida, maneirismo e hábito não prejudiquem a saúde das pessoas não pode fazer parte de listas de justificativa para fazer tal coisa. Enfim… Eu espero que muitos médicos possam ler este texto, porque é bastante preocupantes.
    Obrigado, senhor professor Eurico Belo!

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