RECONHECIMENTO DE UMA GLÓRIA

Volta Mário Rui Silva, (parece que) já estás (mais ou menos) perdoado!

Mário Rui Silva foi uma das figuras distinguidas recentemente na última edição do “Prémio Nacional de Cultura e Artes”. Um reconhecimento tardio, mas que, apesar de tudo, confirma o reconhecimento do talento e valor do músico angolano residente em Paris, França. Por essa razão, retomamos o artigo de opinião do nosso colega Jó Soares, intitulado “Qual é, afinal, o ‘pecado’ de Mário Rui Silva”, publicado há precisamente seis meses. Ei-lo:

Bonga é um intelectual, músico e rezingão político angolano que dispensa apresentações. Quando ele entra em cena – com a sua música, a sua ginga e a roquidão da sua voz para completar o cenário – faz o “Número” e o “Género” dos seus fãs espalhados por Angola adentro e pelo mundo afora.

Nos tempos puros e duros do “Poder Popular” ou, se quiserem, do “MPLA Sozinho” (entenda-se, Regime de Partido Único), Bonga teve a “insolência” de pôr o Sistema em sentido. Fê-lo com a sua música. As letras e os ritmos dela ajudaram a despertar a consciência cívico-político de muitas gerações, entre elas a minha. A música era (presumo que ainda seja) a sua arma de combate.

Resultado: Foi banido. As suas músicas figuravam no “índex” e estavam terminantemente proibidas de tocarem nas emissões da Rádio Nacional de Angola ou da Televisão Pública de Angola. O seu “crime” prescreveu apenas alguns anos depois de 2002.

Waldemar Bastos era também um colosso da música angolana. As suas letras e ritmos faziam Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos dançarem, cada um no seu bunker e à sua maneira, ao mesmo tempo. A soldadesca (fossem das FAPLAS ou das FALA) também paravam para dar descanso ao dedo e ao gatilho,  menear e. trautear o ritmo da música.

Bastos nasceu em São Salvador do Zaire (Mbzanza Congo). Mas fez-se menino, moço e homem na então Nova Lisboa (Huambo). No tempo do “MPLA Sozinho” também foi banido, excluído à boa maneira da “Enciclopédia Soviétitica”, por pensar diferente. E tinha a agravante de ter forjado amizade, nos tempos da sua meninice e adolescência, com jovens que no alvor da Independência subscreveram o “Manifesto de Muangai”. Alguns deles, com o passar dos anos, ocuparam lugares de destaque nas fileiras do maior partido da oposição de Angola. Foi um dos seus “pecados”. Era um intelectual moral e civicamente bem formado. Não se deixava manipular.

Consequência? Também foi excluído. E para não ficar de mãos estendida à caridade e perder a dignidade, decidiu abalar para outras paragens objectivando por lá emprestar o seu “saber” e “fazer”, com destaque para o “Jardim à Beira-mar Plantado” (Portugal). Isso disse numa entrevista que me concedeu , em exclusivo, em 1998, publicada no semanário Agora. Tive o grato privilégio de entrevistá-lo três vezes em momentos diferentes e em distintos lugares .

Carlos Burity era um artista de trato fino. Quando em palco ou no rádio levava ao delírio o mulherio. Os homens, estes, levantavam-se para as passadas de quem gosta e sabe dançar (ma)semba. Estava sempre bem aprumado. Era um profissional de se lhe tirar o chapeu. Príncipe do Semba. Assim chegaram a apelidá-lo. Burity terá sido também banido, no tempo do “MPLA Sozinho”, por orientações da OMA alegadamente devido à sua música intitulada “Maria da Bicha”. Há quem afiance que tenha sido a “Zé da Graxa”. Não se sabe ao certo. Certo mesmo é que tinha também sido proscrito.

Os alegados “pecados políticos” de Bonga, Waldemar Bastos e de Carlos Burity, ainda que  formalmente nunca tenham sido confirmados, são conhecidos. Todos eles foram vítimas da intolerância política do “MPLA Sozinho”.

Por isso, gostaria de saber qual é “crime” do aclamado (lá fora, pois claro!) guitarrista, cantor e compositor Mário Rui Silva, distinto discípulo de Liceu Vieira Dias. E quem foi Liceu Vieira Dias? Foi (é) considerado um dos “pais” da música popular angolana e cofundador do N’Gola Ritmos, grupo musical que assumiu na música uma forma de resistência ao colonialismo português.

Mário Rui Silva vai animar, no próximo mês de Setembro, dois concertos no Reino Unido, à boleia da edição recente de uma compilação inglesa de canções do autor. Atenção: Mário Rui Silva vai à boleia, não será o cabeça-de-cartaz.

Por que razão é que um artista humilde e talentoso, como o é Mário Rui Silva, vê os predicados reconhecidos além-fronteiras e não no seu País? Resposta: A qualidade das sua obras não são para todos os ouvidos e decerto que a sua classe no palco da música e da vida  incomoda muita gente.

Todavia, repito: Qual é, afinal, o “pecado político” do guitarrista, cantor e compositor Mário Rui Silva, filho legitimo do Bairro Operário para tamanha desconsideração pelas autoridades angolanas?

Quem souber, que faça a fineza…!

 

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