FERNANDO PIRES DA GRAÇA «DIABICK»

O “ai Jesus” do auditório feminino angolano das décadas de 80 e 90 morreu num dia como hoje

A funesta “boleia” – que contou com o patrocínio (in)directo e cínico de muito boa gente – encontrou-o já bastante debilitado no leito de uma cama da Clínica Girassol em Luanda.

«Diabick», que, em tempos que já não voltam, chegou a ser o «ai Jesus» do auditório feminino urbano, desapareceu. Nunca mais o vamos ver. Como consolo resta-nos, daqui para frente, apreciar as músicas «Menina Feia», «Barona» e «Margarida» que ainda hoje nos fazem arrastar o pé, trautear e menear a cabeça.

Jó Soares

A última vez que soube «Diabick», dilecto filho da Canata-Lobito (Benguela, Angola),  foi através de uma declaração-peditória feita aos microfones da emissora Luanda Antena Comercial (LAC).  Lembro-me que «Diabick» disse, na ocasião, que não tinha o que comer. Nem para ele, nem para a família. Disse-o chorando. Declarou que, na circunstância, precisava de apoios para tratar da maleita que corroía a sua saúde há já algum tempo.

As declarações de «Diabick» deixaram-me triste, revoltado mesmo, pois não é a primeira vez que músicos angolanos de referência morrem devido à indigência a que são votados depois de terem dado muitas alegrias ao País. O músico empenhou-se, denodadamente, de corpo e alma na campanha eleitoral de 1992 a favor do MPLA, dando vida, com a sua altissonante voz, às letras que enalteciam os feitos do partido no poder e que não queria perder as eleições para a UNITA ou outro partido concorrente naquela que foi a maior exaltação política depois da Independência Nacional.

«Diabick» revelou à LAC, na altura, que tinha «batido» muitas portas solicitando apoios. Promessas foram feitas. Muitas. Até à sua morte, as promessas não passaram disso mesmo, de promessas. Deixaram-no morrer. Foi-se o homem. Foi-se o músico. Mas ficou a obra, dirão.

Em função disso tudo, sou forçado a concluir, com o coração condoído, que o «universo angolano» anda desencontrado no que tange ao amor ao próximo. No que respeita à solidariedade, esta, anda, quanto a mim, pelas ruas da amargura.  E, como se não bastasse, sem norte.

Quando a morte de «Diabick» foi anunciada multiplicaram-se cínicos sentimentos de pesar, incluindo dos do partido no poder. Vieram de todos os quadrantes e sectores da vida nacional. Até de pessoas colectivas que tinham a obrigação moral e política de ajudá-lo. Simplesmente deixaram-no morrer. Logo, um crime tipificado no Código Penal vigente na República de Angola.

É politicamente correcto dizer depois da sua morte que «Diabick» deu muitas alegrias ao País, que a sua morte constitui uma perda irreparável para a Cultura nacional.

Se perguntar não ofende, gostaria de saber por quê que não se deu o devido apoio no momento em que o artista estava em vida e implorava pelo apoio material, financeiro e moral de todos nós? Por quê deixaram-no, nos últimos anos, viver num «mundo cão» que não é desejável para ninguém?

 

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