ALICE NETO DE SOUSA (POETISA):

«Há problemas que merecem ter voz e serem pensados»

És bastante assertiva na utilização do tema «poeta» e não «poetisa». Há alguma razão?

Há, apesar de existirem pessoas que não se importam com o termo «poetisa». É um posicionamento meu, porque para mim é uma questão do carácter pejorativo que existe associado ao termo, até historicamente. Pegando no exemplo da Florbela Espanca, que me é mais caro – ela, na sua altura, era chamada poetisa. Mas ela era poeta, então o termo era uma forma de diminuir o que ela era. Para mim, é importante que seja «poeta».

Lembras-te da tua primeira experiência com a escrita – tanto poesia, como prosa?

Passei pela prosa, não escrevo só poesia. O que me lembro de mais interessante, na minha experiência com a prosa, foi um conto, algures no secundário. Criei um conto chamado «Acredites ou Não», era uma espécie de história de terror, em que as personagens morriam todas e tudo mais. Acabei por fazer também o «Acredites ou Não 2». É das memórias mais recentes de escrever algo em prosa.

Quando é que percebeste que a poesia ocupava um lugar especial no teu coração?

Não sei, sabes… porque a prosa está quase sempre presente no meu dia-a-dia, também. Eu sinto que a poesia me sai mais natural. É o espaço em que me sinto mais confortável para expressar o que estou a sentir. No entanto, nunca excluí a prosa da minha vida.

Em que momento é que percebeste «eu SOU poeta»?

Na minha cabeça, mais do que «escrever poesia», eu sou mesmo poeta. Nunca houve um gatilho, sempre foi assim, porque ser poeta não é só pegar num papel e escrever com a caneta e estar ali, em frente à folha. Ser poeta implica todo um leque de atividades anterior à escrita: sentir, pensar o mundo, contemplar, ver… e só depois escrever. Fui sempre formatada para primeiro pensar-me como poeta e só depois dizer que escrevo poesia.

Há algum tema que sintas que flui mais naturalmente na hora de escrever um poema?

Depende, acho que os temas me vão encontrando tendo em conta as fases da vida em que estou, o que é que estou a pensar naquela altura… E às vezes até me apanham de surpresa. É mesmo uma questão de estar no mundo e estar a existir. Acho que, possivelmente, agora onde tenho procurado mais inspiração, mais do que no meu interior, é no quotidiano. Tenho pegado mais e reparado mais na cidade de Lisboa, por exemplo, ou nas prostitutas do metro do Martim Moniz, por passar por elas várias vezes.

Diria mesmo que o que me tem «puxado» neste momento são as banalidades do dia-a-dia, que não são bem banalidades, porque o quotidiano dá-nos muito para expressar o que estamos a sentir interiormente.

No entanto, eu posso escrever sobre qualquer tema. Se eu sentir que preciso de escrever um poema de amor, eu escrevo um poema de amor. Também as questões sociais são um tema sobre o qual me quero debruçar mais, de uma forma mais consciente.

A poesia para ti é uma forma de terapia?

Depende… escrever é para mim um momento importante para a minha autorrevelação emocional. É uma maneira que eu tenho de gerir e pensar o mundo. Se é terapêutico? Eu acho que se, por exemplo, uma conversa com uma amiga te fizer sentir bem, não vais questionar se é algo terapêutico – é uma conversa. E um poema é um poema. E a poesia é um espaço onde me sinto bem.

O que é que na Florbela Espanca te encantou?

Eu não sei se quem me inspira é mesmo a Florbela Espanca, ou o Livro de Mágoas da Florbela Espanca. Aquilo que me fez sentir uma identificação natural por esse livro foi o facto de o ler numa altura em que ainda não sabia muito bem que podia fazer isso – transformar a dor em verso e pegar no que estava a sentir e dar-lhe uma expressão poética.

Quando leio a Florbela Espanca, ela faz isso de uma forma bastante natural. Apesar de talvez um pouco mais melancólica, toda a escrita da Florbela espelhava aquilo que estava a sentir no momento em que peguei no livro. A partir daí, não só me identifiquei e li o livro muitas vezes, mas também pensei «eu acho que consigo fazer isto».

Como foi o processo de encontrares quem eras – e qual era a tua mensagem – enquanto poeta?

A minha voz está sempre em construção, eu estou numa eterna procura e até deixo que isso seja um processo mais inconsciente, porque nós estamos sempre a mudar e é difícil definir. Não posso dizer «agora a minha voz vai ser esta», nós vamos sendo moldados pelas situações e pelos momentos onde estamos.

Esse processo não é algo que eu faça de um modo tão racional assim. Descobrir a nossa voz é consequência de estar no mundo.

Que característica dirias ser necessária existir nos poetas?

É engraçado (risos)… eu não tenho a fórmula para se ser poeta, não faço ideia! Para mim, o mais importante é sentir – não sei se todos pensam assim, mas é o meu ingrediente fundamental, nessa receita que não existe.

Depois da declamação do teu poema «Poeta» ter ficado viral, qual foi a reação que mais te tocou por parte do público?

Aquilo que eu não estava à espera que acontecesse foi o poema ter ganho uma grande expressão nas crianças e nas pessoas mais novas. Eu não estava nada a contar com isso! Recebi relatos de mães que punham os filhos a fazer ditados do poema, recebi convites de escolas, para os visitar e falar com os alunos, porque estavam a trabalhar com o poema (a transcrevê-lo, a traduzi-lo…).

Falei com professores de Português, que me pediam para ir às suas aulas, porque «a poesia tinha ganho uma nova roupagem» e eles queriam motivar os alunos a pensar no tema particular do poema e no palco que a poesia tem. E eu tenho feito entrevistas e aceitado convites, por achar que é importante frisar que neste momento o foco esteve na poesia e essa reação vai ser sempre aquilo de que me vou lembrar. De repente, existe uma esperança na poesia e ela vem dos mais novos. Acredito que deste fenómeno nascerão poetas muito interessantes e isso deixa-me com uma grande felicidade.

Como observas a relação entre o significado que tu colocaste no teu poema e o significado (diferente) que o leitor coloca nas mesmas palavras? Sentes que essa pessoalidade é necessária na poesia?

Sim! E por isso é que eu não gosto de explicar muito, porque as pessoas agora querem secar um poema e isso tem pouco interesse, sabes? O poema significa algo para mim, mas esse algo não está escancarado: essa é uma parte importante de escrever poesia, deixo sempre um espaço de interpretação à outra pessoa, para ela poder encontrar lugar para ela.

Por isso é que um poema consegue tocar muita gente, por ser pessoal, mas abrangente o suficiente. Quando escrevemos algo que não é só para nós, temos de deixar espaço para a identificação, e em específico no caso do «Poeta», que toca dores comuns de várias pessoas.

Existe muito a noção que a “boa” poesia tem de ser difícil de compreender. O que dizes às pessoas que sentem que não têm lugar na poesia por causa dessa ideia errada?

A poesia tem várias faces e pode ter essa face. Eu tenho alguns poemas, que são muito pequenos e muito intrincados, e às vezes as minhas irmãs até me dizem «não percebi nada!» (risos). Porque o objetivo também é esse! E a poesia, podendo ter este lado, é uma faceta interessante de ser explorada por um poeta.

Podemos ter momentos em que queremos mascarar o que estamos a sentir – e é interessante à mesma -, mas existe um lado na poesia em que aquilo que dizemos é muito mais oral e muito mais claro, simples e nítido. E é importante puxarmos por essa vertente também.

Temos que dar a conhecer todas as faces da poesia, até porque há pessoas que não se identificando com uma, encontrarão lugar na outra. O mais importante é que percebam que existe espaço para quem quiser sentir a poesia.

Quais são os teus objetivos para o futuro?

Sinto-me a crescer em céu aberto, com toda a gente a ver o que estou a fazer e isso é assustador e interessante! O meu objetivo principal deste ano é pensar as questões sociais como poeta e dizê-las. Não tanto publicar; apesar de estar a receber alguns convites de publicação, esse não é, ainda, o objetivo. É dizer, falar com as pessoas, inquietar com aquilo que também me inquieta.

Acho que é um caminho importante, porque passamos muito despercebidos no que está a acontecer à nossa volta e há problemas que merecem ter voz e serem pensados.

Fora dos olhos do público, continuarei sempre a escrever poesia, porque a poesia não é bem um objetivo em si. É uma forma de estar na vida, um propósito.

Fonte: www.spoilerportugal.pt

 

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