ANNA KALISTER PERENA*

Quando cada copo d’água é um palácio de Cristal

   A rua só não é inóspita para quem tem casa. Meus amigos mais sinceros foram filhos da rua. Crianças negras. Não viraram lunáticos pelos milagres da Igreja. Escola, pão e oração. Dali a dez anos, a criança sem casa se casa, e se destina à Glória de ser uma Mansão do Senhor. Na imagem destes corpos não há corpo: apenas uma alma cuja história todos sabem como a um segredo. Não se conta o passado de miséria, então como se sabe? Por milagre, e assim é — igual em cada gesto, o sobre-humano poder de se doar pelo próximo reconhecido pela gente como a gente. O gigante que nasce da falta de tudo: porque quando falta tudo, estas pessoas podem ser a presença de Deus na terra. Nos pequenos gestos a eterna doação de si para quem não tem senão o destino de ser tão só. Do alimento escasso, a terna multiplicação. O aceite da ajuda que sempre vem, e de onde se menos espera. O de si que falta, multiplicado pelo outro, que a tudo solicita, mas que no pouco se delicia. E, de repente, sempre, o sorriso na lucidez: a sabedoria do gesto porque cada criança precisa sorrir. Pois só a felicidade nos tira da miséria. E felicidade sozinho não há: aquela que nasce da genuína inocência também nos torna humanos porque isto que se chama felicidade é outro nome para companheirismo.

Rio, 18/05/2022.

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