HONORATO SILVA

Por ti deixo rolar esta lágrima, Manuelão!

Mateus Cristóvão, o mensageiro, é uma das minhas referências do tempo de menino/adolescente, a influenciar para o Jornalismo, à semelhança do  Carlos Lopes Miranda, cujos pertences eu contemplava à sorrelfa, nos já distantes anos de 1983/84, nas visitas à casa da família Lopes, com o irmão Luís Walter e o inseparável Luís Laplaine, lá no nosso querido S. Paulo, a parte chique do meu Sambizanga natal.

Eu tinha sido antes colega e “irmão de criação” de um tal de Walter Cristóvão, um perguntador por excelência, recentemente lembrado por um passarinho que pertence à família Benza. Aquele era o nosso mundo. O perímetro formado pelas ruas das FAPLA (António Enes e Ndunduma), Cristiano dos Santos, Benguela, Lobito, Do Cunha e do Kikombo, com o seu imponente Prédio do Livro, em cujo terraço aprendi a venerar os Kassav, a voz rouca do Jacob, a ternura do Patrick Saint Eloi e a mestria vocal do Jean Philippe Marthely. Não gostava da Joceline, por ser magra. Os meus padrões de beleza feminina privilegiam, desde tenra idade, a robustez corporal.

Era o tempo dos concursos de dança. Muitos deles apadrinhados pelo mais velho João Assis Gonçalves Neto. O Chiquinho Panteira, hoje escritor das coisas da bola, ainda não tinha ido para a Tuga. O Mangalhas era um ídolo lá do bairro, como o Zé do Pau, um romântico de canto doce, da célebre “Página Rasgada”. O Santo Da Virita, o Santo António que chegou a ser um dos melhores defesas de África, tinha estatuto de celebridade. Não havia Petro, muito menos DAGOSTO. O Kota era nosso. Da banda. Corríamos para ajudar o Cabulo a levar as compras lá para o apartucho. E lavávamos o ruca, debaixo do prédio.

Mas eu era do Ndungidi Gonçalves Daniel. Mesmo quando foi empurrado a jogar vestido de tricolor. O Jacinto Herman sabe que foram muitas as tarde de domingo que não comi, por causa das derrotas do GLORIOSO. Até chegar aqueles anos dourados de 1991/92. Nem já quando tudo que tínhamos para exibir era a METISTA, o autocarro de agremiação desportiva mais imponente uma vez visto em Angola. Estávamos no calor da paz de Bicesse e das primeiras eleições. O DAGOSTO de Dusan Kondic era uma máquina. Tinha Lucau, Bolefo, Muanza Teca e Mateus Fuidimau. Nós, os karagós, chegávamos confiantes à Cidadela, a mesma casa da sereia 🧜‍♀️ que viu o Petro nos dar duas valentes goleadas.

Assim cresci. Frequentei o Bambix, fui para o IMEL e cheguei a Edições Novembro, muito pouco tempo depois do nascimento do Jornal dos Desportos. António Ferreira “Aleluia”, de muito feliz memória, ensinou-me a arte da prosa. Fez de mim um trabalhador. Contou com outros cabouqueiros de profissionais de Jornalismo, como Pires Ferreira, Gil Tomás, Fontes Pereira Pereira, Salas Neto e António Martins Felix, o mais novo dos mestres. O Matias Adriano Adriano tinha o início de percurso feito no JDM. Já o Pedro Augusto, o Mário Eugênio e a Josefa Tomás eram debutantes como eu. Na Redacção Central do Jornal de Angola tinha gente que respirava texto. Jorge Airosa, Orlando Bento Mariano, Manuel Dionísio, Luís Costa, Simão Roberto, Osvaldo Gonçalves, Luísa Rogério e Diogo Paixão faziam cantar as máquinas de dactilografar, as antecessoras dos computadores que hoje fazem quase tudo.

Na geração mais próxima da minha, destaco o César Ferreira, um exemplo de verticalidade, o Carima Dito Alcar, o Jorge Eurico, um reencontrado, o Guilhermino Alberto, nosso Manguilhas, José Cristóvão, um Dudaev angolano, o Amandio Clemente e o Fernando Cunha. O Pandy Santana, o Alberto Pegado, o  António Da Costa Bequengue, e o Agostinho Chitata, são marinheiros de muitas outras viagens. Tenho de tropeçar, de propósito, no José Meireles, o Zeca que era um pau para toda a obra. O Antonio Paulo distinguiu-se entre os melhores da nossa gesta, que teve ainda o Nguvulu Makatuka, o Alberto Colino Cafussa e o Santos Vilola. O Bernardino Manje a Edna Cauxeiro e a Josina Carvalho Alfredo pegaram o testemunho da tradição que infelizmente se quer quebrar.

E lá passou o tempo. Recebi o Teixeirinha Teixeira  Teixeira  Teixeira Cândido Cândido, o Amândio Cândido, nome banido à nascença, para evitar arreliadora duplicidade e inconveniente plasticidade. Foi com ele, o Caetano Júnior e o Director Luis Fernando que vivi os momentos mais marcantes ao lado do Manuel António, este tuga, profissional de mão cheia, por quem me curvo em sentida e muito merecida homenagem. Manuelão, meu amigo do LIBERO, apenas hoje consegui escrever algo sobre a nossa amizade e convivência no Jornalismo. Quando o Mateus Cristóvão trouxe a mensagem, apenas li e me calei. A seguir a Maria Luísa Rogério ligou-me a lembrar o quanto admiravas a minha aptidão para o texto.

Amigo, peço-te desculpas, mas por ti deixo rolar esta lágrima. Foste um homem bom. Protector. Apostaste em mim. No Mundial da Alemanha’2006, o baptismo dos Palancas Negras na elite da bola, fizeste de mim protagonista. Trazias a estrada do Jornal A Bola, “A Bíblia”. A crítica disse que fui brilhante naquela cobertura. Voltaste a contar comigo no Mundial de Hóquei em Patins, organizado por Angola, em 2011, o primeiro em África. Estimaste o meu Rafael, na altura com 5 anitos, por defender o Sporting contra o nosso Benfica.

Ligaste-me várias vezes de Portugal, terra longe tão próxima, a saber como iam as coisas por cá. Deste-me força, quando aceitei o desafio de disputar a liderança da AIDA. Depois desapareceste. Afinal estavas a contar os teus últimos dias na terra. Dói, amigo pula, saber que partiste sem hipótese de uma última palavra. De apreciar a tua prosa suculenta e inspiradora. Obrigado por tudo, Manuelão!!!

Fonte: Facebook 

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