MARIELSON CARVALHO

O beliche de São João

Meu pai, homem negro de Nazaré das Farinhas, era o mais velho de cinco filhos. Muito pobres, ao chegarem em Salvador, foram morar na Massaranduba. Eu sou o primeiro dos cinco filhos dele. Até meus 10 anos ele ainda era casado com minha mãe e morávamos no Jardim Cruzeiro. São João era muito festejado nesses bairros, penso eu, devido a uma boa quantidade de famílias oriundas do interior. Mas como fui criado entre Testemunhas de Jeová, que não comemoram festas populares, ficava triste por ver meus amiguinhos ganharem fogos para brincar e eu não. Ao se separarem, meus pais saíram da religião. Foi a partir daí também que passei a ter um São João diferente.

Minha mãe e eu no mudamos para o bairro de Roma e lá na rua os moradores faziam um belíssimo arraial com bandeirolas, quadrilhas e fogueiras. Um dia antes do São João, meu pai apareceu para me visitar. Veio com uma sacola de papel pardo grande do supermercado Paes Mendonça. Estranhei porque minha mãe havia no mesmo dia feito compras. – Trouxe o que eu nunca tive quando criança. Ao abrir, meus olhos faíscaram de alegria. Um mundo de fogos: cobrinhas, traques, varetinhas, bombinhas… – Mas só pode usar amanhã. – Poxa, papai. – Só no São João.

No meu quarto tinha um beliche, que era usado por mim e por minha babá, que se casou e foi embora, então ficou vaga a parte inferior. Eu passei a dormir embaixo e em cima eu colocava meus livros e brinquedos. Com a chegada dos fogos, tirei tudo e arrumei dividindo por quantidade de dias de festejos juninos na rua. Tinha de render até São Pedro.

Passei a ser o menino com o maior número de fogos da rua, porque meu pai falava. – Só tem esse, mais só ano que vem. E assim fiquei ganhando fogos de meu pai até uns 15 anos, quando virei quadrilheiro e só pensava em dançar nos concursos.

Na última vez em que ele apareceu com os fogos, já tinha um bom tempo que não me via naquele ano. Minha expectativa era de que fosse no dia 22 de junho, religiosamente. Não apareceu. Dia 23, também não. Minha mãe, compadecida com minha expectativa frustrada, me deu uns trocados para comprar uns traques, ela que não gostava de criança brincando com fogo, mas aquiescia quando meu pai subvertia seus cuidados.

Foi um São João sem graça. Ele não deu notícia. Fui dormir cedo. Na manhã de 24, fazia um pouco de frio e eu estava todo coberto na cama. Sinto, sem abrir os olhos, que alguém puxava a coberta de minha cabeça. Deu um beijo na minha testa. Continuei sonolento. Alguns minutos passaram, ouço a porta da sala bater depois de um tchau de minha mãe ao falar com alguém. Ela depois aparece no quarto e manda eu levantar. – Veja. E apontou para a cama de cima.

Levantei com preguiça, calcei as sandálias e virei para ver o que era. Meu pai trouxe os fogos. Muitos. Mais do que de anos anteriores. Ele arrumou por tipos, separou dos mais fracos aos mais fortes em poder de fogo. Tinha até uma bomba de mil, sonho de todo menino fogueteiro, mas que só era permitido já com mais idade. Tudo lindo ali, com suas caixas coloridas. Meus olhos pipocaram. – E cadê ele? – Saiu do plantão só pra trazer e voltou, mandou dizer que não podia deixar de ver seu beliche enfeitado…

Lembrei dele hoje, já falecido. Sem beliche de São João, mas vou dormir com meu coração de menino estourando de alegria e saudade por ter feito meu pai feliz naqueles dias de junho…

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