CARLA CORREIA*

Lisboa Mestiça

Abro uma plataforma de música, escolho um tema da minha preferência e deixo correr. Entre outros de que gosto, surgiram «Nova Lisboa», de Dino d’Santiago, «Coisas Bunitas» de Sara Tavares, e «Reserva Pra Dois» de Branko, com Mayra Andrade.

Paro para pensar no fio condutor que os algoritmos destas plataformas me trazem. E dou-me conta do quão popular é, hoje em dia, esta corrente que se vê e ouve pelas esquinas de Lisboa, centrada nestes movimentos, na música e na cultura, de afro-descendentes e africanos. Fala-se de uma Nova Lisboa, de novos criolos, de ritmos que descendem em linha recta de África, saindo das periferias e ganhando espaço, e palcos, na cidade.

Nas rádios e nas pistas de dança, estão presentes o funaná, a quizomba e o afrobeat. Na ponta da língua dos portugueses há cada vez mais expressões criolas e da banda, de tal forma que algumas até ganharam as suas entradas nos dicionários de língua portuguesa. Crianças portuguesas falam com sotaque brasileiro, influência dos seus youtubers favoritos. Nas escolas da periferia, organizam-se semanas interculturais, com mostras de comida e outras manifestações culturais das muitas nacionalidades que compõem o seu corpo estudantil.

Está na moda, dizem, esta Lisboa mestiça, e parece-me bem que assim seja, pois é a vida da cidade, a sua língua e cultura vivas a reflectir finalmente, e normalizando, este entrelaçado tecido social que a compõe.

Por outro lado, tudo isto me lança num exercício de memória.

E lembro-me de um tempo em que as minorias não estavam tão espalhadas pelas periferias. A comunidade cabo-verdiana, por exemplo, tinha uma forte presença na zona de São Bento, tanto que até Dany Silva cantava a sua famosa “Criola de São Bento”. Eu ia até lá frequentemente visitar o meu tio Tiofe e a tia Tanha, que moravam no último andar de um prédio antigo e mal preservado, sem elevador e de escadas íngremes. As casas eram grandes e eram divididas em partes com panos e outros objectos, delimitando espaços para várias famílias. Era sempre a mesma senhora de idade a abrir a porta. Simpática e calorosa, dava-nos sempre uns beijinhos repenicados e molhados, porque sem dentes. A tia Tanha preparava-nos um lanchinho. Lembro-me até, num tempo em que ainda não estavam na moda as trends de saúde e bem-estar que agora nos trazem novos hábitos e dietas saudáveis, de um bife acompanhado de batata doce frita, quando esta só se encontrava na mesa de casas africanas. O tio Tiofe aproveitava a visita para dar um giro com o meu irmão pelos cafés da zona, para apresentar aos amigos e vizinhos este sobrinho, miúdo loirinho de olhos claros. Na hora de ir embora, chamava-nos à parte para, com aquela morabeza cabo-verdiana, nos estender aquela “mão fechada”, passando-nos quase às escondidas uns trocos “para comprarmos uns rebuçados”.

Lembro-me que, de saída, passávamos ao lado da Travessa de Peixeira, aquela mesma imortalizada por Manuel d’Novas, exímio compositor cabo-verdiano, onde terá tido lugar uma briga entre emigrantes. Era também para aqueles lados que se ia de madrugada, ao sair das discotecas, comer uma boa canja para recuperar as forças, na famosa Dedês, que Bana cantou numa música com o mesmo nome. Hoje, a zona está renovada e repovoada. A mercearia da dona Cristina, que ainda hoje continua a vender milho para cachupa, é uma das poucas reminiscências desta herança tropical.

Lembro-me que, nessa altura, não havia muitos espaços em Lisboa para comer comida africana. Uma das poucas ofertas era às quintas-feiras, na Associação Caboverdiana, onde se podia saborear ao almoço uma cachupa ao som de mornas e coladeiras, tradição que, aliás, ali se manteve até recentemente, só interrompida pela pandemia.

Lembro-me de quando a quizomba não era como agora, mais rebolada que dançada em esquemas fixos de danças de salão. Era dançada em espaços como o Monte Cara (mais conhecido por Bana), o antigo Bleza do Conde Barão, o Koknot ou o Lontra, naquela forma mais leve a que os cabo-verdianos chamam de “passada”. Mas, se a queríamos ver dançada, ou ao semba, com verdadeira criatividade e mestria, era ir ao Jindungo, ao Kandando ou ao Sarabanda, onde eram os angolanos os reis da pista. Quem não se lembra de dançar, entre outras, “A Minha Vizinha”, de Eduardo Paim,  “Cherry”, de Paulo Flores, ou “Meia-Noite”, dos Tropical Band?

Hoje é o afrobeat que impera nas discotecas. Mas ainda me lembro de quando esteve no top o “Magic Woman”, do General D e Karapinhas, aquele, percursor do Rap português, estes, exímios em criar uma sonoridade que casava o groove do funk com afrobeat, e lembro-me da verdadeira bomba de energia que se vivia nos seus concertos ao vivo.

Lembro-me do álbum Rapública, que ajudou a impulsionar o Rap português, trazendo a público artistas como Boss AC, Family, e Black Company, cujo êxito “Não sabe nadar” esteve literalmente na boca de todos os portugueses.

Lembro-me ainda de bandas como Da Weasel e Cool Hipnoise, que traçaram o seu caminho no panorama da música portuguesa, tal como me lembro de ver Sara Tavares ganhar o concurso Chuva de Estrelas, iniciando um percurso que trouxe mais tarde para a ribalta uma música assumidamente mestiça e bilingue.

Lembro-me, sim, destes e tantos outros artistas cabo-verdianos, angolanos e guineenses ou afro-descendentes que marcaram a música e cultura portuguesa.

Hoje oiço falar nesta Nova Lisboa com orgulho, e, apesar dos problemas que persistem, agrada-me ver a cada vez maior naturalidade com que é encarada. Mas é que já cá ando há algum tempo, e lembro-me que a minha Lisboa foi sempre mestiça.

 

1 comentário em “Lisboa Mestiça”

  1. Uma síntese de Lisboa mestiça muito bem conseguida por uma mente aberta de alguém que ama, acolhe, simpatiza, retrata magistralmente esta Lisboa que sempre foi de todos mais que nem todos nela teve o seu espaço em liberdade

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