ANNA KALISTER PERENA*

Humilhados e Ofendidos (1)

    “Ele mesmo descalço” era o pedido da Pythia a Franz Fanon, professor recém chegado de França. Fanon lhe havia pedido uma consulta. Os pés descalços não era nada frente aos pedidos que Fanon já tivera de atender, tanto da parte da metrópole quanto da colônia. É verdade que o seu salário de professor e pesquisador da metrópole o fazia se sentir mal frente à miséria da Martinica. Ele queria dar mais. Ele queria dar à Pythia uma revolução. Ele queria que nenhum criança da Martinica mais tivesse de passar fome. O risco de indecência, no entanto, soava como um encanto: por que a Pyhia queria ele descalço? O que lhe causava certa ojeriza também o seduzia. Uma sociedade de cartas marcadas. Médico recém formado, Fanon ia até a Pythia da Martinica descalço, com medo, mas feliz. O chão da Martinica nunca fora  para ele, uma coisa existente. Filho da primeira geração de casamentos mistos, Fanon se casara com uma mulher branca francesa, mas guardava desejos homossexuais então inconfessáveis. No chão de terra batida este segredo  guardado. A Pythia lhe benzeu os pés. Padê. Ele quase não tinha tempo para comer. Mas o cheiro de bananas era onipresente, e quase sufocante. Depois do benzimento, ficou tudo suave. Ele quase não via mais a fome. Mas ela também era onipresente.

     Uma semana após sair da tenda da Pythia, Fanon escreve “Peles Negras, máscaras Brancas” onde elogia a Pythia. Mas critica Anne, mulher da vida não, bebê. Mulher até que casada. Em Fanon, habitava a melhor das intenções: precaver as mulheres da Martinica de que as máscaras brancas que pretendiam portar casando com um colonizador não as livrariam do terror de serem colonizadas, e, logo, violadas. Porque as máscaras jamais deteriam a verdade. Anne não gostou nada nada da critica, ou não entendeu a boa vontade de Fanon, marxista com pretensões feministas. Na crítica de Fanon: que dali a seis meses ela seria como as outras martiniquenses negras que optavam por se casar com homens brancos — que sorveria o pão da amargura, envelhecida pelos maus-tratos dos colonizadores. De fato, as repetidas surras, e a falta de reconhecimentos causadas por um casamento misto desarmônico terminaria por causar em Anne o chamado retorno do recalcado. Em bom português, Anne ficou louca, danada da vida, não com o marido violento e adultero. Mas com Fanon, por falar mal dela, e contra suas escolhas. Sua danação era causada por supor que o médico não fosse fruto do pecado. Anne queria matar Franz Fanon por ele falar a verdade.

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