LUÍS FERNANDO*

Dia da Mãe

Para onde vão os meus pensamentos?

Para aquela mulher franzina, de cujos actos e afectos iniciais me lembro ainda na Pedreira do Baba, à pequena distância do ainda inexistente Tomessa, entre 1965-66. Vivemos ali, na felicidade pura das famílias verdadeiras, com o meu pai, meu mano Pompeu e minha irmã mais nova, a Filó. O Negó [Benjamim Fernando] ainda não tinha nascido e a mana Lena, mais velha de todos nós, andava refugiada no Congo Kinshasa com a nossa tia Julieta Tuti.

São tantos os pensamentos num dia como hoje: quando nos mudámos para a casa nova do Tomessa, quando entrei para a escola em 1967, quando nasceu o Negó, e anos depois juntaram-se-nos a Tina e o Quim. As vezes que fui com ela ao rio de manhã cedo, o Caxoxoa, o único que já naqueles anos ela considerava limpo. Os outros ficavam demasiado próximo da aldeia e dizia sempre que as águas da chuva empurravam para a nascente todas as impurezas. Nada de Kaláquas, Kinjingas ou Kamacôndios. Preferia o Caxoxoa, a uns 6 ou 7 km de casa.

Lembro-me de como ela adorava rãs e as comia depois de preparadas com esmero. Nunca tive coragem de aliar nessa. Décadas depois descobri que só os ricaços podiam degustar essa magnífica iguaria em restaurantes exclusivos em Paris. A minha mãe, no seu recôndito Tomessa, levava-lhes um avanço de muitos anos!

Tão especial a minha mãe, a luta dela para aprender a ler nos manuais João de Deus. A luta de toda uma vida. E a preocupação com a escola dos filhos. Era puro sacerdócio.

Depois, em 1986, veio a doença. Um parasita dos rios alojou-se no seu fígado. Shistosomíase, algo assim difícil de pronunciar, era a fonte do mal. Vimo-la sofrer. Já me encontrava em Cuba, como bolseiro, na cidade de Santa Clara, na Universidade Marta Abreu, de Las Villas.

Fiz tudo para que ela recebesse atenção médica diferenciada em Cuba. Os amigos cubanos ajudaram-me nisso. Maria Regla na linha da frente. Ficou meses internada no melhor hospital do país, em Havana, o Hermanos Amejeiras. Nunca me esqueço do apoio incondicional da Manuela Botelho, uma irmã mais do que uma amiga, à época responsável pelo Protocolo da Embaixada de Angola em Havana. Cedeu-nos a sua casa, no sossegado bairro havaneiro de Miramar.

Depois Angola, a guerra, tudo. Separados pelo conflito, ela no Uige e eu ‘retido’ em Luanda. Desde 1992 a tentar ve-la, dar-lhe um abraço saudoso de filho. Os donos da guerra achavam que não era necessário. Afectos para que? Os humanos não fomos feitos para isso. Vale mais a metralha, porque a vida é uma e o que queremos é poder! Mundo fantástico, este!

Só 4 anos depois de ter regressado de Cuba, pude ver finalmente a minha mãe. Como a encontrei e o que senti, guardo para mim. Ad eternun.

Vivi intensamente com ela os anos seguintes, sem saber que eram os últimos. Voei muitos fins de semanas até ao Uige para ve-la e receber o carinho único de mãe. Recusava-me a dormir na cidade. Eu era, para muitos, o filho chefe do Jornal. Mas nunca o fui. Nada mais que o filho dela com quarto no Tomessa. Apenas isso.

Em 2003 perdi-a. Aprendi a viver como órfão.

Fonte: Facebook

 

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