SALAS NETO

Carta ao deputado Nuno Álvaro Dala Jr. ( CRESPO NÃO, ÁGUIA SIM!)

Saudações notáveis.

Ilustre deputado frentista-unido da bancada parlamentar da UNITA, meu antigo colunista querido no falecido Semanário Angolense, um dos melhores jornais que este país já teve, modéstia à parte na parte que me toca, passe algum pleonasmo ou redundância, sei lá.

Sabe que, embora não o conheça pessoalmente, o tenho em elevada consideração, provavelmente em razão da boa qualidade dos textos que me chegavam às mãos à época em que colaborava com o jornal de que fui director entre Setembro de 2010 e Maio de 2016, data oficial do seu aniquilamento. Pessoa que escreve bem, dificilmente é má criatura.

Daí que o tenha escolhido para ser como que portador de uma velha contestação que gostava de apresentar ao parlamento, no sentido de a instância ao menos vir a debater o assunto em que se contém, que deverá ser do interesse de muito boa gente, já que tem a ver com a nossa soberania nacional. Posso garantir-lhe que é mil vezes mais importante que o não-assunto dos cabelos crespos livres ou não nas escolas, que na qual já ouvi que estará para ser alvo de discutição no hemiciclo. Só pode ser por falta de trabalho.

Deixa-me dizer-lhe que estou a solicitar os seus bons ofícios para fazer chegar o meu protesto à assembleia nacional, não sei se por mera «distraição» minha, porque nunca o vi a se caxicar com esses brancos aí dos benficas, portos e sportings, como quase a malta toda a, incluindo jovens e crianças, o faz, ajoelhando-se muito servilmente diante dos tugas, mesmo quando o futebol é da porcaria, vá lá esse ano já conseguiram fazer qualquer coisa de jeito na liga dos campeões, se não é só bolas p’ra frente, chutos p’ra trás, que nem nós do Calumbunze ou do Académica do Kinzau.

O protesto, já com barba, centra-se no seguinte: não consigo compreender por que razão a rádio nacional, por via do seu canal desportivo, se vê na obrigação de transmitir todos os jogos oficiais dos três «grandes» clubes portugueses (Benfica, Porto e Sprting) e da própria selecção das quinas, mesmo que forem jogos a feijões, com um carácter de prioridade tão elevado, que faz «esquecer» alegremente a entrada em cadeia nacional para o jornal das 20, algo incontornável em outras situações.

Antes pensava que isso fosse resultado dalgum contrato especial de publicidade que dado xico-esperto da rádio nacional ou do ministério fizera em proveito próprio com a «antena 1» portuguesa, mas já concluí que se trata de coisa muito mais séria, algo que as simples contestações dum cabolas como eu nas redes sociais não beliscam nem um bocado. Por isso é que estou a solicitar a sua intervenção.

A subserviência é tão desavergonhada que às vezes me pergunto para quê serviu a independência, se continuamos colonizados, ainda que mentalmente sobretudo, pelos portugueses. O mais engraçado é que nem ao tempo colonial era assim, pois a então emissora oficial de Angola não transmitia os jogos do campeonato lá da metrópole. Lembro-me que os nossos velhos lutavam para ter os seus rádios de bandas para conseguirem a conexão, com um monte de ruídos pelo meio.

O caso seria de somenos importância, se houvesse alguma reciprocidade, como aconselham as normas mais básicas das relações internacionais. Nem quero imaginar o que aconteceria em Portugal, se fosse ao contrário: o governo de António Costa cairia e seriam convocadas eleições antecipadas.

Notável deputado, parece-me que haverá no entanto uma grande barreira a ultrapassar no seio da própria bancada parlamentar da UNITA, uma vez que muitos dos seus membros serão também grandes caxicos desses biacos dos benficas, portos e sportings. É quase tudo farinha do mesmo saco. Aliás, é só lembrar que o próprio Velho estava sem guarda quando os «fapla» o cercaram fatalmente, porque o chefe da sua segurança tinha ido apanhar as pilhas do rádio para ouvir o relato do jogo do seu clube no campeonato português, no que seria o fim inglório da luta armada do Galo Negro.

Seja como for, a minha pessoa e os cidadãos que carburam como ela, muitos mais do que se pode pensar, estão a contar consigo para fazer chegar o assunto ao parlamento, ainda que for apenas para debatê-lo.

Bairro Indígena, 16 de Novembro de 2022, ANO DA ALTERNÂNCIA FALHADA.

Salas Neto, o Cidadão.

Fonte: Facebook

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