ANA QUEZIA*

A rainha da cocada preta

quando uiara foi demitida de uma das últimas lojas da baixa dos sapateiros, precisou se reinventar.

no primeiro dia de desempregada, resolveu fazer uma faxina em casa e na gaveta da cômoda do quarto, encontrou o livro de receitas de sua avó lila. deixou-o na mesa da sala e continuou a arrumação. quando terminou resolveu folheá-lo e teve uma ideia: vender cocadas.

sua avó era quituteira e lembrou-se que quando criança, ficava à beira do fogão de lenha espiando dona lila preparar suas inúmeras receitas.

uiara fez as cocadas tradicionais: branca, de abacaxi, goiaba, mas à preta, acrescentou cacau e canela em pó e leite condensado. testou sua invenção com as amigas e todas aprovaram.

no dia seguinte, acordou cedo, fez seus doces e saiu para vender. estava com seu cabelo 4c trançado por si mesma e caracterizou-se com uma blusa branca, saia colorida, sandália de couro, bolsa de crochê, batom vermelho ressaltando seus lábios carnudos e a guia de seu orixá exu.

como morava no bairro do uruguai, foi andando e oferecendo seus produtos pelo meio do caminho até o bairro da liberdade, onde terminou de vender e voltou com sua bacia de alumínio e o tecido africano que punha entre a cabeça e a bacia.

fez esse percurso por longos 6 anos e ganhou o apelido “rainha da cocada preta,” dos seus clientes moleques.

juntou o que sobrou do lucro com o fgts que havia guardado e abriu uma loja de paredes lilases com a expressão outrora pejorativa, hoje ressignificada.

 

*ana quezia escreve em letras minúsculas por entender que nenhuma palavra é mais importante que a outra e também porque a atenção do leitor deve concentrar-se no texto e não na formatação.

 

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