ANA QUEZIA*

A escritora

noite de quarta-feira. 14 de abril de 2021.

é o lançamento de “contra-egun”, primeiro livro solo de dandara dos reis, no museu de arte moderna da bahia.

mais cedo, pela manhã, ela havia ido ao armarinho de dona nena convidá-la, mas, hoje o local é um bar.

quando criança, ia com dona cláudia, sua mãe, ao estabelecimento comprar aviamentos e sempre pedia: “mainha, me compra um caderno!”. a resposta não variava: “o dinheiro não dá, filha…”. dona nena sempre lhe dava o sonhado objeto.

dandara ainda lembra o título do primeiro texto escrito em um dos seus sujeitos de desejos: “a raposa e o leão”.

passou o dia inteiro pensando nas pessoas que a auxiliaram em sua caminhada e fez uma constatação: todas são negras.

começou publicando seus contos nas mídias sociais. o editor de uma editora de livros exclusivos de negros leu, convidou-a para uma coletânea e a partir daí, foram 22 participações.

hoje é o seu dia.

altiva, desce a ladeira que a conduzirá à área principal do museu e reflete sobre a importância daquele lugar para seu povo. veste um longo amarelo e usa um turbante azul. no pescoço, guias de logunedé e oyá.

na programação da noite, um documentário sobre o mercado literário para escritores negros, um show com uma banda de ijexá, o buffet e finalmente, a sessão de autógrafos.

dandara sentou-se para autografar e quando já estava cansada após tantas dedicatórias, aproximou-se uma senhora e ao perguntar: “tudo bem? qual o seu nome?”, ouviu: “meu nome é madalena, mas, pode escrever aí: ‘para dona nena'”.

dandara levantou-se e falou: “axé, axé, axé!!! quando a vida separa, o senhor dos caminhos une novamente!”

abraçou-a e deixou as lágrimas quentes escorrerem pela primeira vez naquele dia.

 

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