CRÓNICA

Um brinde à “República Socialista” de Benguela pelos seus 405 anos

Soam as trombetas e erguem-se as bandeiras. Nas ruas, as majorettes desfilam a sua beleza. A banda do Zé toca o Hino. Há discursos e simbolismos formais, próprios do dia. A agenda de eventos oferece atractivos interessantes. Desde a moda, passando pela música, gastronomia e a tradicional feira de Benguela, enchem o cardápio das festas. As rádios anunciam e os empresários engajam-se.

Alexandre Lucas*

No ar, o clima é de celebração. Nada de mais, até aqui, a não ser que mergulhemos um pouco mais na reflexão e percebamos que, de facto, há, em Benguela, um sentimento peculiar sobre o qual deveríamos reflectir. Algo a que chamaríamos de “bairrismo saudável”. Uma predisposição para defender e exaltar, fervorosamente, tudo o que se liga à cidade. E isso é bom? O escritor Raul David respondia dizendo: “é mais que bom, pois com isso, os benguelenses ergueram a História da velha Ombaka”.

Portanto, no dia dos 405 anos da cidade, a homenagem é para os percursores da alma benguelense, alicerçada na unidade, fraternidade e acolhimento, a marca d’água que urge preservar. Hoje, a exaltação do orgulho benguelense não será tanto pelo facto de sermos a primeira cidade de Angola a implantar um sistema canalizado de água ou por termos produzido a primeira emissão de rádio e televisão de Angola. O que orgulha Benguela e as suas gentes não é só por ser da terra, o autor do primeiro livro de poemas da África Portuguesa… E poderíamos falar do imbatível calulu ou do sarrabulho da Nela Bompastor; as morenas, as belas praias e belezas naturais, etc.

No dia da cidade, a homenagem é um reconhecimento à trajetória de unidade e fraternidade, valores construídos, ao longo de várias gerações, nestes quatro séculos de cultura e que fazem de Benguela um lugar diferente. Em Benguela há um forte sentimento de pertença, amor e respeito à sua História, que se mostram de várias maneiras. Com estes valores, os benguelenses construíram cada rua, cada moradia ou estabelecimento público da velha Ombaka.

Homenagem seja feita à consciência daqueles que, respondendo ao chamado, ergueram, “pedra sobre pedra, o aeroporto 17 de Setembro, antigo Ndokota. Plantaram o perímetro agrícola do Cavaco, famoso pela sua banana e as mangas do Yaya. O que realmente torna peculiar Benguela e a sua gente vem diluído numa mistura de elementos e, num desses pilares, está o papel do kuribeka, figura ostracisada e rotulada, ao longo da História, porém, útil na formação de uma atitude diferenciada, inspirada nos princípios de igualdade e fraternidade. A esta forma típica de ser e estar, resultante do casamento entre os ideiais iluministas da época e o estilo humilde e trabalhador dos povos ovimbundos, Paulo Teixera Jorge chamou de “república socialista de Benguela”. Uma alusão à forma típica do benguelense, crítico, solidário, amigo e bairrista. Não por frívolo radicalismo, mas, porque implantada na alma benguelense está o facto de que o valor da verdade, fundamento da coerência, deveria ser preservada a bem do Progresso e da Justiça.

No dia da cidade, a sugestão é para uma reflexão sobre como resgatar estes valores. Para que não se perca o contraditório. Para que não se apague a chama do salutar debate, essência da luz. Para gerar ideias novas e avançarmos, urge resgatar a alma benguelense e torná-la altiva. Resgatar o círculo de debate, com o garotão, do Bernardino Neto; resgate da Brigada Jovem de Literatura, com o nosso Bangula. Apoiar e promover a arte com o coletivo de artes de Ombaka e todos os que se dedicam à cultura. Resgatar a veia desportiva benguelense que, através do futebol, do basquetebol, andebol, vôlei e ciclismo, elevou o nome de Benguela e suas gentes e fez bater “bola baixa”, àqueles vindos de outras paragens. Nos festejos dos 405 anos da cidade, um brinde aos percursores do “se… 

Fonte: Facebook. Título da responsabilidade da Redacção dowww.jornalokwanza.com

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *