COVID-19

O sucesso do continente africano no combate à pandemia do Século XXI

Desde de que o COVID-19 começou a se alastrar pelo mundo a OMS alertou o perigo que ela representa ao continente africano. Séculos de pilhagens coloniais impediram que os países africanos investissem em saúde pública. O desastre que o vírus provocou na Itália e na Espanha, se repetido em qualquer país africano seria uma mortandade sem precedentes. Em todas as manchetes mundiais o vírus na África aparece como “tragédia anunciada”. A falta de estruturas sanitárias, o pequeno número de respiradores disponíveis a densa população, a fraqueza das economias diante da quarentena são fatos que trazem imensa preocupação aos dirigentes africanos. 

Mariana Bracks Fonseca*

O presidente da OMS, o etíope Tedros Adhanom, alertou veementemente às autoridades africanas sobre o perigo que o vírus representa. Diante de todos as advertências, a maioria dos governos foi assertiva. Antes que o número de casos confirmados aumentasse, as fronteiras foram fechadas, as aulas suspensas, igrejas e mesquitas foram fechadas, alguns decretaram toques de recolher. O resultado está sendo um incrível sucesso dos países africanos na contenção do vírus, o que não está sendo devidamente noticiado na imprensa internacional, já acostumado a colocar a África como palco de desgraças e nunca a encará-la como lugar de solução. 

Primeiramente, é preciso desconstruir a ideia da África como bloco único, como transmite a mídia internacional. São 54 países, cada qual é atingido de uma maneira diferente e enfrenta a pandemia de forma diferente. É preciso olhar de forma individualizada para cada país para compreender as ações empreendidas contra o Covid-19.

É preciso dar destaque às ações que estão garantindo a não-dispersão do vírus e a sua cura. Sim, muitos casos de coronavirus estão sendo curados no continente! O Senegal há semanas esbanja ser um dos poucos países do mundo onde o número de curados ultrapassa o de casos ativos. 257 pessoas se recuperaram da doença com êxito. Enquanto no mundo a taxa de recuperação é de 27,48%, no Senegal é de 53 %. Por que o mundo não enxerga isso? 

Se compararmos a evolução do vírus neste país com estados brasileiros que tem aproximadamente o mesmo número de habitantes (15 milhões), percebemos o sucesso de contenção. Na Bahia, o primeiro caso foi em 6 de março, hoje temos 1789 casos confirmados e 49 mortes. Em Minas Gerais, com a primeira confirmação no dia 08 de março, tem-se 1308 e 5 mortes. No Senegal, o primeiro caso foi confirmado dia 02 de março e até hoje tem 479 casos totais, com 257 curas e apenas 6 mortes. 

O bom resultado no tratamento está sendo investigado, preliminarmente os médicos atribuem a junção de fatores, como as vacinas de tuberculose que é ministrada aos cidadãos desde criança e ao tratamento que segue o protocolo do Dr. Didier Raoul, que combina a hidroxicloroquina a outros medicamentos na fase inicial do desenvolvimento da doença. Também merece ser destacado a ação de pesquisadores e cientistas senegaleses, que desenvolveram testes rápidos de forma eficaz na Universitè Cheikh Anta Diop antes mesmo do primeiro caso ser confirmado no país. 

A Mauritânia exibe outra cifra invejável. No momento é um dos raros países no mundo onde não há infectados. Nenhum caso ativo!! 6 pessoas foram curadas. Angola, com grande população dependente do trabalho informal, também mostra uma excelente contenção da doença: são apenas 17 casos ativos com 6 recuperações. Percebe-se que a velocidade de contágio está bem mais lenta do que se observa em outros países. 

Governos africanos querem soluções africanas

Em 7 de abril, o governo do Zimbabwe autorizou a herbalistas tradicionais a ministrarem remédios fitoterápicos a pacientes do coronavirus.  Tribert Chishanyu, presidente da Zimbabwe Traditional Practitioners Association, disse estar muito feliz com a attitude do presidente Emmerson Mnangagwa que permitiu os testes com os remédios naturais: “A prática da medicina tradicional é mais antiga do que a ciência [medicina ocidental] e é aceita pela maioria dos zimbabuanos (…) Se os cientistas modernos têm a oportunidade de tentar sempre que houver uma doença de emergência (surto), por que não podemos fazer isso?”

A farmacopeia natural africana ainda precisa ser estudada e validada por procedimentos científicos, mas é muito digno que os médicos tradicionais sejam consultados durante esta pandemia, afinal, há séculos cura-se doenças de todos os tipos através das plantas. Este tratamento mostra uma vontade de descolonizar a medicina na África, atentando para a dimensão espiritual das doenças e voltando-se para as próprias cosmologias tradicionais, que enxergam as moléstias como desequilíbrios entre mundo físico e espiritual, como há muito vem sendo estudado pelo antropólogo norte-americano John Jazen. 

Nesta mesma direção, o presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, anunciou esta semana um produto para prevenção e cura da covid-19. Um chá de ervas, batizada de “Covid-Organics”, preparada a partir de Artemísia (planta utilizada no tratamento contra a malária) e outras ervas. Apesar de ainda não ter sido aprovado por estudos científicos, o chá natural já curou duas pessoas no país e não apresenta quaisquer contraindicações, está sendo ministrado para pessoas de todas as idades como profilaxia. O próprio presidente bebeu o chá em cerimônia pública para provar que não fazia nenhum mal. A OMS, no entanto, não compareceu a apresentação do “Covid-Organics” e afirmou que não há provas que sustentem seu poder de cura. Seria um desprezo da OMS pela ciência tradicional africana? Um apego à ciência ocidental e seus métodos? O fato é que o Zimbabwe, com mais de 14 milhões de habitantes, teve 121 casos confirmados, 41 curados e nenhuma morte pelo vírus. 

Interessante notar que alguns governos africanos buscam soluções africanas para vencer este mal. Enquanto o mundo só olha para o continente como terra arrasada, já flagelada por diversas outras doenças e pela fome, os africanos dão exemplos de sua inconteste resiliência e capacidade de enfrentar crises. O convívio com outras doenças, como a epidemia do Ebola, por exemplo, fez com que os governos reagissem de forma rápida e eficiente e não negligenciassem as mazelas. Todo o continente africano hoje tem em torno de 20 mil casos ativos, sendo que África do Sul e Egito correspondem a um quarto do total, com 1.136 mortos. O número de infectados é aproximadamente o mesmo do Brasil, país com população seis vezes menor, onde já ocorreram 3.331 mortes e há notória subnotificação. 

De forma alguma, este texto deseja colocar a questão como problema resolvido no continente, apenas traz outra perspectiva que mostra o sucesso das ações africanas. Muita vigilância é necessária e soluções definitivas ainda não foram encontradas, há muito que se percorrer e não é hora de afrouxar as medidas de contenção, pelo contrário.

Todos sabem que os problemas econômicos decorrentes da pandemia serão agravados em todo mundo. Não seria a hora dos países africanos “peitarem” a ordem econômica mundial e reivindicarem para si um outro lugar? Sendo provedores de matérias primais fundamentais para a produção industrial mundial, os países africanos podem reconfigurar suas economias a partir desta crise. A China, que tanto usufrui do solo africano para sua produção de softwares, não deveria enviar respiradores a seus “parceiros”? Não seria chegada a hora de rever o sistema monetário do Franco CFA, que retira recursos dos cofres dos países da África Ocidental para encher os franceses? Não é um excelente momento para os países desenvolvidos perdoarem as dívidas externas dos países africanos? 

Agora, mais do que nunca, a União Africana precisa entrar em ação e mostrar que é possível criar estratégias de cooperação e ação conjunta para vencer a pandemia e, quem sabe, colocar o continente em outra posição na Nova Ordem Mundial. Um lugar, inshallah, de não apenas fornecimento de matérias primas baratas, mas de produção de produtos e medicamentos  consoantes com a cosmologia africana, em que ser humano e meio-ambiente são integrados, em que o homem faz parte do todo e que a natureza é percebida como ser vivo a ser respeitado, não apenas algo a ser dominado para se extrair riquezas. 

*Historiadora

**Especial para O Kwanza (www.jornalokwanza.com)

28 comentários em “O sucesso do continente africano no combate à pandemia do Século XXI”

  1. Cláudia Jácome Coutinho

    Muito esclarecedor este texto. Torcemos para que seja muito abençoado neste momento, e que sua medicina, traga muitas curas para o continente inteiro. Inshalá !

    1. Lucas Jaime Indi

      O seu texto é estremamente importante em relaçao a vigilância epistémica e a dismistificação das narrativas pejorativas que a mídia global ( sobretudo Ocidental) sempre carateriza o continente africano e os/as africanos/as. A Uniao Africana deve dispertar – abrir olhos. É de grande urgencia reconhecer a potencialidade que as práticas medicas ” dito tradiciobal” africana têm para o tratamentoe cura das doenças. Temos uma biodiversidade que nos dá alimentação e nos cura – portanto, não podemos permitir que uma politica exterior ( do ocidente) usurpa o que temos. África vai salvar da Pandemia de Covid-19.

    2. Muito bom o texto, mas, ao mesmo tempo, enfatiza que no Brasil existe subnotificaçao dos dados do Covid19 e não considera que o mesmo possa estar acontecendo nos paises da África

      1. Ao contato do Brasil muitos países estão testando massivamente. O Senegal desenvolveu um teste rápido com custo de um dólar e está doando a vários países para que consigam realizar os testes de forma eficaz.

      2. Excelente texto. Vivo em Angola, e as medidas sanitarias aqui para o combate do Covid-19 estão sendo muito duras. Ja que nosso sistema de saúde é precária. Muitas familias aqui estão usando chás como forma de prevenção. Como a folha né ( também usado para combater a malária), moringa e eucalipto.

  2. Excelente o texto. Ficou bem escurecido a importância que a mídia internacional atribuí a esses excelentes resultados do continente Afrikano nessa luta. Temos de contar as nossas próprias histórias, parabéns pelo artigo está excelente.

    1. Efectivamente o artigo está muito bem escrito. Isto já é um bom começo. Acções deste tipo podem contagiar mais capacidades africanas, que diga-se de passagem, são muitas, a darem a conhecer muito mais que se fez, e se está a fazer, em África, para nos começarem a respeitar.
      Eles não estão interessados em divulgar as nossas conquistas e lá sabem o porquê.

      1. Salve meu povo preto!!!!
        Estou muito feliz e orgulhosa. Tenho orado pelos países do nosso continente, nossa África e essa notícia alegrou e acalmou meu coração me deixando orgulhosa aqui no Rio de Janeiro.

      1. O tratamento que se faz lá com “anti maláricos” é o que se tenta fazer aqui, no Brasil, mas a politicagem não deixa. A hidroxicloroquina, que mesmo tendo eficácia comprovada, não pode ser ministrada por “falta de evidências”. Mas os médicos quando ficam doentes correm para tomar. Lamentável.

  3. Excelente o texto, realmente as autoridades não falam do continente Africano. Fico imensamente feliz em saber que lá está tendo sucesso com o tratamento é contenção da Covid19! Parabéns

  4. De facto precisamos levar a serio este assunto e mostrar que os africanos sao inteligentes. Com isto, precisamos ser unidos para combater esta pandemia e sairmos da dependecia desses paises que querem que decemos a musica deles.

    1. Realmente uma visão polticamente correta da pandemia e das comunidades africanas q reponderam a este mal ainda tenebroso p o mundo! Lembrei-me q certa vez soube atraves de um amigo q tinha um amigo africano , q uma solucao de alcool e minhocas ,pode aliviar dores reumaticas.E realmente aliviou as dores q meu pai sentia nas articulações.

  5. Sim, é hora de OLHAR o povo africano com respeito e consideração. PAREM de tratar a África como campo para explorar suas riquezas e “escravizar” seu povo. Deus ama e abençoa e ainda vai usar muitos africanos para abençoar outras nações, como já está fazendo. AMO ESTE POVO!
    Missionária Ingrid.

  6. Chegou a hora de África esbanjar a maturidade que sempre demostrou quando o problema é defender a sua sobrevivência e dignidade.

  7. Que excelentíssimo texto é! Parabéns pela sua brilhante exposição, autor/a. Se tudo o que foi dito, for posto na pratica, com certeza, teremos um mundo mais harmonioso e equilibrado. A questão que se coloca é, será mesmo possível colocar isso em pratica? Ou seja, que os “Ocidentais ” eliminarem suas visões preconceituosas e infundantes sobre a casa mãe da humanidade a AFRICA , e, de se pararem de explorar, abusivamente, a referida mãe da humanidade? Diante deste mundo marcado pelo acumulo de bens supérfluos, comportamento este, que é gerado e sustentado pelos Ocidentais. Oh! Por favor, egoístas Ocidentais parem com o vosso proceder angustiante contra o berço da humanidade (ÁFRICA). É bem verdade que, será difícil exterminar por completo a vossa irracionalidade comportamental concernente à ÁFRICA. Mas, favor, sejam, no minimo, sensível à realidade cultural, social… entretanto, saberes Africanos, posto que, eles têm muito a oferecer ao mundo no tocante à boa convivência, seja ela intra-especies/interespecies . “Sou porque nós somos, ( coletividade, união, compaixão, empatia…) filosofia UBUNTU”. Ao passo que no Ocidente, tudo é ao contrario, “sou porque os outros não são, ou, simplesmente não prestam”, este pensamento equivalente a (exploração abusiva , extermínio cultural e ambiental, egoismo, desprezo a outra humanidade, insensibilidade à diferença como tal etc.). Portanto, é bom, juntos, pensarmos o mundo de forma racional, o que implica dizer desenvolver a capacidade de abraçar e de cuidar mais do bem comum em detrimento do individual, e, abrir mão a acertas “verdades” preconceituosas. By Gilardinho Mendes

  8. Dorothy Jungers Abib

    Acredito que Deus criou este caminho para que a África seja afinal resgatada da situação de inferioridade que sofre há milhares de anos. Está mais que na hora

  9. Manoel Alves oliveira

    A persistência do racismo ou o eurocentrismo bem como o centrismo estadunidense, continua atuando contra as sabedorias africanas em todos os campos!

  10. Lukeny de Almeida

    Aplausos, por finalmente tais palavras serem proferidas. O mundo no geral está ACOSTUMADO com a medicina ocidental, tudo que temos ingerido até os dias de hoje, tem sido apenas QUÍMICOS, que ao longo das nossas vidas, têm se mostrado ineficazes, tendo em conta o aumento de várias doencas e o aumento da taxa de mortalidade, ou seja, é raro morrer com a idade de 100 anos, agora morremos muito mais cedo. Os químicos que ingerimos, não somente estão nos medicamentos mas a COMIDA que comemos, também é quimicamente alterada, praticamente, os humanos transformaram-se em autenticos bonecos híbridos, quando temos a capacidade de forma natural, de termos corpos alcalinos, resistentes a todo tipo de doenças. Digo isto, porque a maior parte de nós já sabe que a alimentação alcalina, derivada de alimentos 100% naturais, o que África ainda tem, dá-nos mais chances de sobrevivência e vida longa. ATENÇÃO, não quero inaltecer à África e desdenhar os continentes não Africanos, muito pelo contrário, é apenas fazer uma chamada de atenção, relativamente ao facto de TODOS estarem habituados ao que o ocidente tem estado a ensinar, fazendo de todos nós prisioneiros de um paradigma, que por medo ou receio tendo em conta a sua predominância, não queremos nem temos coragem de deixar. Vamos ser realistas, qual é a pessoa que está acostumada a tomar PARACETAMOL quando tem dor de cabeça, de repente passar a tomar um chá em substituição ao PARACETAMOL? Qual é a pessoa que quando tiver malária, deixa de tomar os químicos e passa a tomar um chá de ARTEMISIA? Qual é a pessoa que quando tiver uma queimadura na pele, deixa as pomadas químicas e coloca a alga SIMUS, invés da pomada? Certamente, a maior parte não se atreverá, excepto algumas pessoas, que vivem as escondidas sem revelarem informações plausíveis que irão contrariar o que universalmente estamos acostumados a ouvir. Na minha humilde opinião, acho que as mentalidades devem ser mudadas, e começarmos a alterar a nossa forma radical de ver a vida e as possíveis resoluções dos problemas que virão, enquanto seres humanos. De certo, que os inventores da medicina ocidental, estarão a ver o seu sucesso e rendimento em risco, ou seja, uma ameaça, no surgimento de novas formas de colmatar os problemas da saúde universal, que seria uma mais valia caso todos pensassemos em uníssono e dessemos o nosso contributo no que diz respeito aos problemas de saúde. Aliás, nem vou considerar o uso de ervas medicinais e a alimentação de produtos naturais alcalinos, como uma forma nova, muito pelo contrário, já os nossos antepassados sabiam disso e viveram durante muito tempo. Porém, eis a questão, COMO levantar a voz e falar sobre isso universalmente?! Se ao menos houvesse a hipótese para se testar e verificarem com os seus próprios olhos, talvez teriam as devidas evidências e deixassem de pensar dentro de uma caixa, e de convencer ao mundo que a única hipótese seria e sempre será, os químicos. Africa não pode ser importante apenas pelos seus recursos naturais, para proveito próprio dos ocidentais. África também tem intelecto. Reitero, devemos em uníssono tentar tratar e ver a hipótese de resoluções na vida, sem pensar dentro da caixa, talvez a resolução dos problemas poderão estar fora da caixa, e é lá onde África está.

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