HISTÓRIA

Afinal, o Papai Noel (não) era branco (?)

Antes de iniciar a leitura deste texto, caro (a) leitor(a), cabe uma nota de advertência: num tempo racializado como o nosso, em que a raça ocupa posição central em diferentes aspectos do debate público, esta missiva não foge ao prognóstico – corrobora o espírito do tempo. A discussão que ela apresenta é baseada na raça, que embora não exista biologicamente, socialmente continua a ser usada para diferentes tipos de justificativas, demandas e abstrações. Feita a devida ponderação, sigamos com o texto a fim de responder à pergunta expressa no título: Afinal, o Papai Noel era branco?

 Luis Gustavo Reis*

Tempos atrás, no Brasil e alhures, alguns estabelecimentos comerciais contrataram pessoas negras para fazer o papel de Papai Noel. A iniciativa provocou alvoroço, especialmente na internet, com reclamações, pedidos de boicote e indignação virulenta. Protegidos pelo anonimato das redes, os pistoleiros digitais destilaram seus preconceitos sem qualquer receio de responsabilização jurídica. Um deles, inclusive, escreveu o seguinte: “Historicamente, cada pessoa ou mito por trás do Papai Noel é branco e da cultura branca. Portanto, qualquer outra ‘raça’ que tente torná-lo ‘de cor’ está se apropriando da cultura branca europeia. Não existe Papai Noel negro!”.

O palavrório carrega certa verdade, estritamente ao dizer que o Papai Noel é, historicamente, um “mito”. Mas dizer que é um mito da cultura branca e europeia, bom, aí são outros quinhentos…

A imagem altamente reconhecida de um velhinho de botas, rosto corado, barbas brancas longas, gorducho e distribuindo presentes remonta ao século XIX. Cooptado pela Coca-Cola, o bom velhinho se transformou no símbolo internacional do Natal quando a empresa lançou uma campanha publicitária na década de 1930, onde o personagem aparece oferecendo refrigerante a uma garotinha.

Mas as origens do Papai Noel são muito mais profundas e remotas, antes mesmo do advento da bebida açucarada. É o que vamos descobrir daqui pra frente.

O nome do personagem que deu origem ao Papai Noel é São Nicolau. Nascido na segunda metade do século III, no que hoje corresponde a Turquia, teve uma infância de fartura no seio de uma família rica e cristã. Ainda na adolescência, Nicholas (que ainda não era “São” ou “Santo”) doou secretamente três sacos repletos de moedas de ouro para um pai de família que vivia na pobreza. Como o patriarca não tinha dinheiro para pagar o dote de suas filhas, que estavam prestes a se casar e precisavam desembolsar recursos, Nicholas resolveu ajudar antes que as moças fossem empurradas para prostituição.

Durante três noites, Nicholas jogou sacos de ouro pela chaminé da casa da família – alguns deles caíram perto das meias das mulheres, que as tinham deixado perto da lareira para secar. Até que na terceira investida, escondido no quintal, o patriarca descobriu quem era o responsável pelas misteriosas doações. Apesar de consternada, as moedas de ouro foram aceitas pela família e as mulheres se livraram do meretrício.

Nicholas era um cristão devoto, conhecido por sua generosidade e amor pelos desafortunados, especialmente pelas crianças. Após a morte dos pais, doou toda a fortuna da família aos necessitados. Como reconhecimento por suas ações, foi ordenado bispo de Mira, antiga cidade grega às margens do Mar Egeu, onde lhe foram atribuídos muitos milagres. Dizem que durante uma viagem feita à Terra Santa ocorreu uma terrível tempestade e, após as rezas e súplicas de Nicholas, a tormenta cessou. Esse episódio, somados a tantos outros, levaram a sua canonização pela Igreja Católica. Não por acaso, ele ficou conhecido como taumaturgo, ou seja, fazedor de milagres.

Morto em 6 de dezembro de 350, o benfeitor deixou de ser Nicholas para ser São Nicolau, adjetivo religioso que o imortalizou na história. A morte do personagem representou uma nova página em sua biografia. Transformado em “papai universal”, ficou carimbado seu apreço em oferecer presentes, brinquedos e carinhos de um sábio da terceira idade às crianças de todos os cantos do mundo. Em suma, a personificação do bom velhinho.

Devido à generosidade de São Nicolau com as crianças, a afeição aos mais pobres e, sobretudo, aos relatos sobre o ouro arremessado pela chaminé da família pobre, a história do santo ganhou popularidade e conotações lendárias. Contava-se, por exemplo, que ele passava de telhado em telhado depositando presentes nas meias colocadas nas paredes das chaminés das famílias desassistidas.

Somado a esse imaginário, associou-se a São Nicolau personagens do folclore europeu que atuariam como seus ajudantes; isso porque devido a quantidade de crianças, o saco de presentes que ele carregava era enorme, pesado, difícil de transportar. Mas nem todas as crianças ganhavam presentes, é claro, somente aquelas que foram comportadas e obedientes ao longo do ano. As crianças desobedientes, coitadas, seriam punidas pelo acompanhante de São Nicolau, um homem alto, carrancudo, mal-humorado e pavoroso.

No século XII, inspiradas nas ações de São Nicolau, freiras francesas percorriam os bairros pobres parisienses e deixavam meias cheias de frutas, nozes e brinquedos na porta das casas dos desvalidos. O ato caridoso suscitou iniciativas semelhantes e espraiou-se pelo mundo, estabelecendo assim um dos costumes da celebração de Natal.

Em meados de 1700, imigrantes holandeses transpuseram a devoção a São Nicolau (chamado por eles de Sinterklaas) aos Estados Unidos. Logo que desembarcaram, construíram uma igreja em homenagem ao santo: a Igreja São Nicolau, que batizaram de Santa Claus.

Décadas mais tarde, um dos membros da igreja escreveu um poema (Uma visita de São Nicolau). A peça descreve um homem sentado em sua cadeira de balanço, às vésperas do Natal, esperando a os ponteiros do relógio marcarem meia-noite. De repente, barulhos no quintal fazem o homem observar o ocorrido pela janela. Perplexo, ofuscado pela neve espessa, consegue enxergar um trenó repleto de presentes sendo puxado por oito renas. Quem conduz o veículo é um velhinho barbudo, astuto e sorridente. Andando na ponta dos pés, o velhinho sobe no telhado, desce pela chaminé e deixa alguns presentes de Natal nas meias penduradas na lareira. Sem pestanejar, diz o poema, o dono da moradia soube que tinha acabado de receber a visita de São Nicolau.

O poema ainda apresentava São Nicolau como homem de pele clara, barba longa, cabelos brancos, bochechas rosadas e barriga saliente. A descrição bastou para que na década de 1930, surfando na fama do poema e do personagem homenageado (São Nicolau), a empresa Coca-Cola criasse a figura do Papai Noel. Sentado numa cadeira, verificando a extensa lista de presentes, um velhinho branco, de rosto corado, calçando botas, gorducho e com características polares era o símbolo de Natal que potencializaria a venda e o consumo do refrigerante produzido pela firma norte-americana.

Embora São Nicolau tenha sido retratado iconograficamente como homem branco, estudos forenses recentes (baseados na ossada do bispo) indicam que ele seria um homem de pele escura, cabelos curtos e barba longa. Os pesquisadores acreditam que ele era mais parecido com os árabes-negros do que com brancos-nórdicos. Uma catedral localizada em Bari, na Itália, abriga uma imagem de São Nicolau retratado com homem do Oriente Médio e com a pele negra.

São Nicolau representando em pintura do século XVIII. Imagem: Wikimedia/commons

 

Embora inspirado em uma pessoa árabe-negra, a imagem do Papai Noel nórdico está tão consolidada que a quebra do estereótipo frequentemente desemboca em manifestações preconceituosas. Por isso, a polêmica sobre pessoas negras vestidas de Papai Noel nunca saiu de cena. Na verdade, ela é bastante antiga, pelo menos nos Estados Unidos.

No início do século 20, dezenas de homens negros foram caluniados e insultados quando vestiam a roupa do bom velhinho. A partir da década de 1950, porém, os Papais Noéis negros começaram a ser vistos com mais frequência em shoppings de diferentes cidades norte-americanas. À medida que estadunidenses brancos migravam em massa para áreas suburbanas, muitos estabelecimentos comerciais faziam acenos aos clientes que ficavam, mormente negros, contratando Papais Noéis de pele escura.

Na década de 1960, o Papai Noel negro virou um dos símbolos do movimento pelos direitos civis, visto como exemplo do empoderamento da população negra. Muitos ativistas criticavam a representação do Papai Noel pelo homem branco, alegando ser mais um exemplo de racismo explícito que ocultava a verdadeira história de São Nicolau: um homem de origem árabe-negra.

Com o avançar dos anos, centenas de Papais Noéis negros foram contratados para trabalhar em shoppings, boutiques, lanchonetes e lojas de departamentos. A essa altura, final do século XX, já estavam completamente integrados à cultura do consumo e viraram símbolo da integração capitalista.

Embora o Papai Noel seja um personagem fictício, forjado nas labaredas da história, não existe nenhuma referência que determine a cor de sua pele. Nesse sentindo, qualquer raça ou grupo que busque reivindicá-lo universalmente como seu é, no mínimo, fantasioso. Ademais, independentemente do tom de pele, tanto São Nicolau quanto o Papai Noel simbolizam a alegria, a doação, a devoção às crianças – mas também a cultura do consumo e da sociedade capitalista.

Gostemos ou não, uma vez por ano somos impactados, direta ou indiretamente, pela ostensiva presença do Papai Noel: um sujeito carismático que entrega presentes, amor e esperança a milhões de crianças. Limitar esse personagem a apenas uma imagem ou cor de pele parece equivocado. Em vez disso, ele pode ser encarado como uma figura da nossa imaginação e aceite em todas as formas: negro, branco, asiático, indígena… ou seja lá o que for, o importante é celebrar as diferenças.

* Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros escolares e coautor do livro Ensaios incendiários sobre um mundo normatizado (2021). Especial para o www.jornalokwanza.com

 

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