Anna Kalister Perena

134 anos de Abolição ou 134 anos de Perseguição?

 O pior não foi o sangue derramado, e se ser perseguido sem se saber o porquê da perseguição. O pior não foi a inocência perdida; o brilho apagado nos olhos embotados de quem foi obrigado a se desconhecer na escravidão; ou o choro embargado para não se ser açoitado nas noites lúgubres. O pior foi se perder o filho. E no madrigal não se poder chorar. O pior foi o estupro com a desculpa de se ter de ser produtivo. Foi se perder o brilho de quem nunca se soube amado. O pior foi a recusa de se olhar a dor. O pior foi o abandono, o desamparo, a desonra, a exclusão, a humilhação, e a marginalização que daí ainda se segue.

   Há 134 anos não deixaram de sofrer perseguições os recém libertos. Este direito adquirido que mais parecia uma punição — porque era para se ir, e nunca mais voltar — foi para quem mais serviu? A mão de obra negra foi dispersa e substituída pela branca. Mãos negras não receberam a atenção que todo ser humano merece ao vir ao mundo; apenas miséria receberam, e um « lastimas-te que esta terra não é tua». Ou um « aqui não és bem-vindo » persistente que ainda hoje nos violenta. Mas nossos ouvidos têm música. Alimento para a alma. Tudo o mais faltando; roupas, nem vintém — sem saúde, ou educação — foi assim aqui a tal da abolição. Mas o samba renasce. Aboliu-se não a escravidão, mas da sociedade o negro, para que este se fosse, e nunca mais voltasse, nem olhasse para trás. Mas aqui, para a poeira do chão levantar, basta um sinal.

    De lá para cá, não esmorecemos: cada segundo é destinado à luta. Deste pouco mais de um século tanto se fez pelo resgate da dignidade. Porém, o sonho de poucos aqui também significou, como em África, a miséria de muitos. Aqui também alguns negros mais sôfregos venderam seus corpos, mataram, e foram mortos. Porque sem pensar em seus atos, as associações de narcotráfico não matam menos do que a polícia de tantos negros também. A repressão compactua com os sangue-sugas das nações europeias, que nunca viram e talvez não cheguem a ver as nações negras como gente. Matam-nos como a baratas. Desovam nossos corpos e nos amontoam em listas que chamam de “chacinas : algumas com nome, e outras tantas sem nome..

   Em o Alegre Canto da Perdiz a escritora Chimamanda Ngozinarra narra a lástima do sequestro de negras e negros de África. Quem sofreu mais? Os abortados que vieram de África, ou os que lá ficando não puderam reconhecer, no Brasil, conosco, a maioria dos deserdados? Mais do que uma reflexão sobre as piores vítimasda exploração como sendo os próprios algozes — que, pela eternidade afora são tragados pelo peso dasperseguições que impetraram — o livro de Chimamanda é um exercício de livramento. Os carrascos que não aprenderão a dançar: sobre eles outros torturadores, no carrossel da vida, não largarão os ossos de quem vive a lutar para tentar tirar de nossos olhos a, para eles, dolorosa verdade, qual seja, de que de nós negras e negros torturados o brilho de quem sabe o valor da liberdade sempre renascerá.

1 comentário em “134 anos de Abolição ou 134 anos de Perseguição?”

  1. Anna Perena (a autora)

    Errata: a autora de “O Alegre Canto da Perdiz” é Paulina Chiziane (de Moçambique) e não Chimamanda Ngozi (da Nigéria), citada no artigo cujo link segue abaixo.

    Grata ao Jornal Kwanza pela oportunidade de ser ouvida aqui e na terra de nossos ancestrais!

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